segunda-feira, 1 de junho de 2026

O som e a cura

 

Instituto de Medicina Ayurvédica      Instituto de Medicina Ayurvédica

O som quer seja através das taças tibetanas, dos gongos ou do monocórdo é uma das ferramentas de cura e de libertação mais antigas e poderosas que a humanidade conhece.

Na tradição védica, diz-se que o universo manifestado é puro som (Nada Brahma), e que os samskaras são impressões cristalizadas e bloqueios no nosso sistema. O som atua como uma força de desintegração mecânica e energética desses mesmos bloqueios, efetuando uma limpeza que vai atuar em dois níveis simultâneos: o físico (fisiológico) e o espiritual (energético).

1. A Limpeza ao Nível Físico (A Ciência do Som)

Os samskaras não estão apenas numa "nuvem mística"; eles manifestam-se no corpo físico através de fáscias contraídas, dos padrões de tensão muscular crónica e alterações na nossa química cerebral.

Quando somos expostos aos sons terapêuticos, acontecem dois fenómenos biológicos:

- A ressonância por simpatia em que o corpo humano como é composto por cerca de 70% de água, é um condutor acústico perfeito. A vibração física das taças ou dos gongos penetram profundamente nos tecidos e órgãos, e ao mesmo tempo se uma célula ou um músculo está tenso e "fora de tom" devido a uma carga emocional retida, a vibração forte e harmónica do instrumento obriga a que a nossa estrutura física vibre na mesma frequência saudável, relaxando o bloqueio à força.

- Arrastamento de ondas cerebrais em que o som contínuo e monocórdico desacelera as ondas cerebrais do estado de alerta diário (Beta) para os estados de relaxamento profundo e de meditação (Alpha, Theta e Delta). É nestes estados que o nosso sistema nervoso central entra em modo de autorreparação e liberta o nosso stress acumulado.

 

2. A Limpeza ao Nível Espiritual (O Corpo Subtil)

Do ponto de vista espiritual, os samskaras são obstruções no fluxo do Prana, da nossa energia vital, ao longo dos Nadis dos nossos canais energéticos e dos Chakras.

Cada instrumento tem uma assinatura energética que limpa estas obstruções de forma diferente, as taças tibetanas produzem tons puros e harmónicos que ajudam a alinhar os chakras, trazendo uma ordem ao caos. Funcionam como pequenos "pentes" energéticos que desfazem os nós emocionais mais localizados e á superfície como a ansiedade do dia e as irritações. Os Gongos geram uma "parede de som" como se fosse um espetro acústico completo e numa sessão de gongos, o som torna-se tão denso que a mente lógica simplesmente "desliga" por exaustão, quebrando as defesas do ego. Espiritualmente, o gongo é como uma vassoura gigante ou uma onda do mar que arrasta os samskaras mais profundos e antigos do subconsciente, trazendo-os à superfície para serem limpos. O Monocórd, sendo um instrumento de cordas afinadas na mesma nota geralmente com intervalos de oitavas e quintas perfeitas, vai criar um tapete de harmónicos celestiais estável. Espiritualmente, o monocórd induz uma sensação de expansão e retorno à fonte e ao mesmo tempo ele limpa os samskaras pelo acolhimento elevando tanto a vibração das pessoas que assistem fazendo com que as cargas emocionais densas percam a sustentação e se dissolvam na harmonia do som.

 

A diferença entre meditação e a meditação pelo som

É importante fazer uma distinção bonita, na meditação Vipassana, usamos o bisturi da nossa própria atenção consciente para dissolver o samskara, dá mais trabalho, exige um esforço ativo, mas treina imenso o nosso músculo mental.

Na terapia de som (concertos meditativos de som ou mesmo numa massagem de som), adotamos uma postura recetiva, pois vamo-nos deitar e permite que o som faça o trabalho por nós. O som atua como uma força externa que bombardeia e dissolve a densidade da carga emocional, por isso, as duas práticas completam-se perfeitamente, pois o som limpa o terreno, aliviando o peso físico e acalma a tempestade, tornando o terreno da mente muito mais fértil e macio para quando se sentar em silêncio para meditar.

 

Vou agora descrever algumas palavras para aqueles que não sabe que isto existe ou mesmo para os séticos.

 

Tentar partilhar algo que nos faz tão bem e que sabemos que nos cura com alguém que gostamos ou mesmo com alguém que é cético ou até connosco mesmo, é um grande desafio, pois se formos demasiado "espirituais" com alguém muito racional, a pessoa afasta-se, mas se formos demasiado técnicos com alguém sensível, a mensagem perde a alma.

Vou aqui dividir os benefícios desta prática em quatro pilares inegáveis (físico, mental, pessoal e espiritual), mas de modo a ser convincente e persuasivo, mas não quero estar a impor uma crença, mas sim a oferecer um presente:

 

- Falando para os mais céticos e racionais explico estes concertos meditativos de som e vós no Instituto de Medicina Ayurvédica através de argumentos mais físico e científico, pois naturalmente essa pessoa precisa de "provas", ela não se convence com as palavras como chakras ou samskaras nesta fase. O argumento da água é importante pois todos sabemos que "O nosso corpo é constituído por cerca de 70% de água. Se atirarmos uma pedra a um lago, crias ondas, certo? O som faz exatamente o mesmo no nosso corpo, em que as vibrações das taças e dos gongos fazem uma massagem celular profunda que as mãos de um massagista humano nunca conseguiriam alcançar."

Um segundo argumento é o da ciência do cérebro, pois explica que o som altera as nossas ondas cerebrais. "No dia a dia, o nosso cérebro funciona em alta rotação (ondas Beta). O som dos gongos e taças obriga o cérebro a desacelerar para frequências de relaxamento profundo (ondas Alpha e Theta) em poucos minutos, e assim podemos desta forma desligar o stress e regular o cortisol (a hormona do stress) sem esforço."

 

Falando agora para os ansiosos e agitados o argumento tem de ser mental, pois muitas destas pessoas dizem: "Eu gostava de meditar, mas não consigo calar a minha mente." Este é o seu maior trunfo para as convencer pois o som é um "atalho" para a meditação, e ao mesmo tempo um banho de som é uma meditação para quem não consegue meditar. "Na meditação tradicional, nós temos de fazer o esforço de focar a mente, mas no banho de som, não temos de fazer nada, só temos de nos deitar. O som é tão rico e denso que 'engana' a nossa mente lógica, ela desliga-se sozinha e produz um descanso mental que equivale a horas de sono profundo."

 

Para todos aqueles que querem ou procuram a sua evolução devemos utilizar um argumento pessoal e de relacionamento, mostrando como a prática se traduz em melhorias visíveis no quotidiano e na forma como nos relacionamos connosco mesmo e com os outros. O tema aqui é uma abordagem na nossa higiene emocional, pois podemos fazer uma analogia simples: "Nós tomamos banho todos os dias para limpar o nosso corpo físico, certo? Mas quando limpamos o lixo emocional que acumulamos no trabalho, nas discussões e nas preocupações do dia a dia? O banho de som é, literalmente, o banho do nosso sistema nervoso, ele liberta as cargas acumuladas para que não se descarreguem as frustração na família ou nos amigos."

 

Por fim considero os “buscadores”, aqueles que estão sempre á procura de coisas, saltando de um lado para lado. Neste caso o argumento é espiritual, mas devemos ter sempre em atenção se a pessoa tiver alguma abertura para a espiritualidade, aqui podemos tocar no ponto mais profundo, no alinhamento corporal e nas nossas ligações afirmando que "O som sagrado limpa as barreiras e os nós energéticos que nos impedem de ouvir a nossa intuição. Ele eleva a nossa vibração de tal forma que as energias densas como o medo ou a mágoa, simplesmente não conseguem subsistir fazendo com que exista um regresso à nossa essência, ao nosso estado de harmonia original."

 

Quando falamos de som em vez de tentar convencer a pessoa através de um longo debate, use a estratégia do convite descomprometido, Não tente "vender" a ideia pois as pessoas resistem quando sentem que estão a ser evangelizadas. Em vez de dizer "Tu tens de ir porque isto é fulcral para ti", diga "Eu fui a um concerto Meditativo no Instituto de Medicina Ayurvédica e senti um alívio incrível no meu corpo e na minha mente, e gostava muito de partilhar essa sensação contigo".

Também pode oferecer como um presente, convidando a pessoa para uma sessão e ofereça-lhe o bilhete, diga: "Vamos fazer uma coisa diferente esta semana? Vamos a uma sessão de relaxamento profundo através do som. Não tens de acreditar em nada, só tens de te deitar e receber."

Em ultimo lugar se quer mesmo curar alguém que está ao seu lado e se não o conseguir convencer use amostras, se a pessoa estiver muito reticente, envie-lhe um pequeno vídeo ou áudio de alta qualidade com fones de ouvido de taças tibetanas ou monocórd antes de a levar a uma sessão ao vivo.

A experiência direta é sempre o melhor argumento e, quando a pessoa se levantar do tapete após um banho de som, com o corpo leve e a mente em paz, ela não precisará de mais nenhuma explicação teórica, ela terá sentido a purificação na própria pele.

 

Escrevi este texto não para convencer os outros, mas para olhar para si mesmo e verificar há quanto tempo precisa de uma cura de som?

Enquadra-se em alguma destas categorias anteriores? Como gostaria de ser convencida a se curar através do próprio som?

Será que ao olhar para si mesmo não precisa?

 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.

 

"Bhavatu Sabba Mangalam"

 

Shanti, Shanti, Shanti


quinta-feira, 28 de maio de 2026

Svastha

 

Instituto de Medicina Ayurvédica

Cada vez mais me apetece mergulhar a fundo nas palavras e nos conceitos e neste caso vou falar de Svastha ou também designada por Swastha. Esta é, sem dúvida, uma das palavras mais bonitas, profundas e importantes de toda a tradição védica.

A nível etimológico, Svastha divide-se em duas raízes do sânscrito, “Sva” que significa o Eu, a nossa própria essência, a Alma (Atma)  e “Stha” que é definido como o estabelecido, o enraizado ou o que permanece.

Portanto, Svastha significa literalmente "estabelecido no próprio Ser" ou “o que permanece no próprio ser”. Não se trata de um estado de saúde que geramos ao "fazer coisas" para fora, mas sim do estado natural que emerge quando paramos de fugir de nós mesmo.

Vou analisar a sua importância na medicina ayurvédica, na espiritualidade e como trazemos isto até nós através das rotinas diárias.

 

1. A Importância de Svastha na Medicina Ayurvédica

Na medicina ocidental moderna, a saúde é muitas vezes definida pela ausência de doença (se as análises clínicas estão normais é porque estamos "saudáveis"). Na Medicina Ayurvedica, isso é apenas o patamar mínimo. Sushruta, um dos pais da Ayurveda, definiu o que é uma pessoa Svastha num dos versos mais célebres da medicina Ayurvédica:

"Aquele cujos Doshas (energias biológicas) estão em equilíbrio, cujo Agni (fogo digestivo) é bom, cujos Dhatus (tecidos corporais) e Malas (eliminações) funcionam normalmente, e cujos sentidos, mente e alma estão cheios de bem-estar e contentamento, esse é chamado de Svastha (saudável)."

Podemos aqui ver a genialidade desta frase e ao mesmo tempo considerar que a Medicina Ayurveda diz que nós podemos ter o corpo físico perfeito, mas se a nossa mente e a nossa alma não estiverem em contentamento (Prasanna), então de certeza que não estamos saudáveis. A medicina ayurvédica não trata os sintomas, ela cria as condições biológicas para que nos possamos restabelecer com o nosso centro e nesta perspetiva podemos considerar que a doença (Vyadhi) é vista apenas como um desvio, um momento em que nos esquecemos de quem somos e nos "descentramos".

 

2. A Importância de Svastha na Espiritualidade

Espiritualmente, Svastha é a ponte entre a saúde do corpo e a iluminação (Moksha).

Se estamos constantemente identificados com os nossos pensamentos, com os dramas do ego, ou com as flutuações do mundo exterior (o que o Tantra chama de ilusão de Maya), aqui nós estamos em Asvastha que significa que estamos descentrados ou desconectados.

Quando estamos enraizados no nosso Ser (Svastha), transforma-se numa testemunha silenciosa (Sakshi) da nossa própria vida. As emoções como a raiva, o medo ou a tristeza continuam a passar por nós, mas já não nos definem, pois cada um de nós passará a ser o oceano enorme e profundo, em que as emoções são apenas umas pequenas agitações e ondas na superfície. Com esta referência vamos encontrar a nossa derradeira liberdade espiritual, em que a nossa paz já não depende de como está o mundo exterior se está calmo ou caótico e nós seremos a nossa própria casa.

 

3. Svastha no Dia a Dia: A Ligação com as Rotinas Ayurvédicas (Dinacharya)

Aqui vos deixo um ponto mais prático e transformador e a pergunta é sempre a mesma, como é que nos podemos estabelecer connosco próprios no meio da correria do dia a dia em que não tenho tempo para nada e estou sempre cansada? A resposta da Ayurveda é Dinacharya, a rotina diária. Longe de ser um conjunto de regras rígidas e aborrecidas, podemos considerar que Dinacharya é um ritual muito importante que por vezes até digo que é sagrado no nosso processo de enraizamento e ancoragem. Cada prática serve para lembrar o nosso corpo e a nossa mente que estamos aqui, presentes. Podemos então ver de como é que os hábitos matinais ligam o nosso corpo diretamente a Svastha. Vou aqui descrever apenas algumas das práticas ou melhor as essenciais para nos mantermos Svastha.

Acordar no Brahma Muhurta (45 minutos antes do nascer do sol)

É o momento em que a energia do ambiente está mais pura e como designamos no Ayurveda mais Sattvica. Acordar a esta hora permite-nos uma sintonização e conexão com o silêncio do Universo antes que o barulho do mundo exterior comece, este é o momento perfeito para nos estabeleceres connosco próprio mesmo antes de " darmos" a nossa energia ao trabalho ou aos outros.

Limpar a Língua (Jihwa Dhauta) e Escovar os Dentes

Fisicamente, remove as toxinas (Ama) acumuladas durante a noite e energeticamente, limpa o nosso canal de expressão e é como se estivéssemos a dizer para nós mesmo “eu purifico a minha capacidade de digerir a vida e de comunicar a minha verdade e a minha essência".

Auto-massagem com Óleo Quente (Abhyanga)

Esta é, talvez, a prática mais Svastha de todas em que ao passar óleo no próprio corpo com presença e sentido é um ato de amor-próprio extremamente importante. O óleo cria uma barreira protetora tanto física como energética ao redor do nosso sistema nervoso. Em sânscrito, a palavra para óleo é Sneha, que também significa amor e ao fazermos em nós uma Abhyanga significa literalmente, cobrirmo-nos de amor, estabelecendo os limites do nosso próprio espaço sagrado face ao exterior.

Meditação e Pranayama (Exercícios respiratórios)

Aqui fechamos o circuito pois depois de limpar e cuidar do corpo, vamos sentar-nos em silêncio. A respiração e o pranayama vai conectar o nosso corpo denso com a nossa mente subtil. É o momento exato em que assumimos que não somos o ruido que está lá fora, somos o espaço consciente que existe dentro de nós.

 

Quando uma rotina (Dinacharya) não é feita o que vai acontecer é que não vamos ter tempo para nada, acordamos a correr, tomamos banho rápido pois não temos tempo, a seguir olhamos para o telemóvel, reagimos aos e-mails e "saímos" rapidamente de nós logo nos primeiros 5 minutos do dia. Passamos o dia a viver a partir do exterior.

Com a rotina é definida e orientada para Svastha, nós vamos rapidamente criando um eixo e quando saímos de casa para trabalhar ou interagir com os nossos relacionamentos, já não vamos à procura de nós ou de nos encontrarmos com o mundo; nós já levamos o nosso Ser e a nossa identidade para o mundo.

Com esta descrição penso que consegue perceber como estas pequenas rotinas, que parecem apenas higiene ou saúde física, mudam completamente a nossa  postura interna perante a vida? 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti