Avidya
Num dos artigos anteriores falei dos cinco Kleshas(Veja aqui o texto) que são considerados como os cinco venenos, cinco aflições ou colorações mentais que obscurecem a nossa perceção, funcionando em cadeia, e sendo considerados como as causas e as raízes de todo o sofrimento humano (Dukha).
Vou neste artigo falar de um destes Kleshas - Avidya.
Avidya (अविद्या) é a terra escura e invisível onde as raízes de toda a árvore do sofrimento humano se fixam. Segundo os Yoga Sutras de Patanjali, todos os outros quatro Kleshas nascem diretamente de Avidya. Sem compreender esta palavra, é impossível compreender as verdadeiras etapas de libertação.
Vou aqui falar um pouco do significado desta palavra ou deste conceito, procurando unir a ciência védica, a saúde psicossomática e o caminho espiritual.
1. A palavra: O que é Avidya?
No sânscrito, o prefixo A - significa "não" ou "ausência de", e Vidya vem da raiz Vid, que significa "saber", "ver claramente" ou "conhecer" (daqui vem a palavra Veda, que significa conhecimento sagrado), portanto, Avidya traduz-se frequentemente como ignorância, mas esta tradução para o português pode ser enganadora, onde
Avidya não é a falta de educação escolar, de intelecto ou de cultura geral, pelo contrário pois uma pessoa pode ter três doutoramentos, falar cinco línguas, saber as escrituras de cor e, ainda assim, estar imersa numa profunda Avidya.
Patanjali define Avidya de forma cirúrgica no Yoga Sutra (1.5):
“Confundir o transitório com o eterno, o impuro com o puro, a dor com o prazer, e o não-Ser com o Ser”.
Em termos simples, Avidya é uma miopia espiritual e é quando olhamos para a nossa mente e para o nosso corpo e pensamos: "Isto é o que eu sou", esquecendo que somos a Consciência Cósmica Infinita que apenas habita temporariamente este veículo. ( quem me conhece sabe que eu utilizo muito esta expressão "que o nosso corpo é um taxi que nos foi dado para fazer esta viagem")
2. A Visão do Yoga, Ayurveda, Tantra e Meditação
Cada uma destas ciências aborda esta conceito da ignorância de forma específica:
O Yoga (A Purificação da Perceção)
Para o Yoga clássico, Avidya é o véu de Maya (ilusão) que nos faz sofrer. O Yoga vê a nossa vida como um estado de "sono acordado", e aí o objetivo do Yoga (Sadhana) é limpar os filtros da mente para que possamos ver o real e a realidade. Quando praticamos as posturas (Asanas), o controlo da respiração (Pranayama) e a concentração (Dharana), estamos a polir o espelho da mente para que Avidya se dissipe e a luz do Ser (Purusha) possa refletir-se claramente.
O Ayurveda (A Origem da Doença)
No Ayurveda, a ignorância espiritual não é um conceito abstrato, ela é a causa primária de todas as doenças físicas.
Como já referi antes, o Ayurveda ensina que a raiz da doença é Pragya-aparadha (o "crime contra a sabedoria" ou o intelecto que falha). Como é que ele falha? Por causa de Avidya.
Sob o efeito de Avidya, cada um de nós vai-se identificar com os desejos imediatos da língua ou dos olhos (que são impermanentes e geradores de toxinas) que escolhe hábitos e modos de vida que destroem a nossa saúde. É Avidya que nos faz comer o que nos inflama, dormir em desarmonia com os ritmos circadianos e ignorar os sinais de alerta do corpo.
O Tantra (O Despertar da Energia)
O Tantra tem uma visão muito audaz, pois não vê Avidya como um "pecado" ou como um erro cósmico a ser destruído com austeridade extrema, mas sim como o ponto de partida do jogo divino (Lila).
Para o Tantra, a Consciência Suprema decidiu deliberadamente contrair-se e esquecer a sua própria divindade (criando Avidya) para poder experimentar o prazer de se auto-descobrir através de nós. No Tantra, combatemos Avidya não pela fuga do mundo, mas pela sacralização do mundo, reconhecendo a energia divina (Shakti) em toda a matéria, no corpo, no prazer e nas relações.
A Meditação (O Testemunhar da Ilusão)
Na meditação (Dhyana), Avidya é aquela voz interior que nos diz que a nossa paz depende de fatores externos: "Serei feliz quando comprar aquela casa", "Serei feliz quando este barulho passar".
A meditação desarma Avidya ao ensinar o praticante a sentar-se na sua própria presença, ao observar os pensamentos a nascer e a morrer, onde o meditador percebe experiencialmente que os pensamentos são impermanentes (transitórios), enquanto a Consciência que os observa é imutável (eterna). Este vislumbre (Satori ou Samadhi) rasga o véu de Avidya.
3. O impacto na saúde: órgãos e sistemas deteriorados pelo excesso de avidya
Viver sob o domínio de Avidya significa viver desalinhado com as leis da Natureza (Dharma), onde esse desalinhamento crónico vai cobrar um preço físico severo ao corpo, deteriorando órgãos vitais:
- O cérebro e o sistema nervoso central (sadhaka pitta e prana vayu):
Avidya mantém a mente num estado constante de ilusão e projeção de cenários futuros (medos e ansiedades fictícias). Isto sobrecarrega o cérebro, gerando exaustão mental, insónias, névoa cerebral e degeneração neuronal que aumenta e acelera devido ao stress oxidativo.
- O trato gastrointestinal (o cólon e o estômago):
A ignorância sobre os ritmos biológicos faz com que a pessoa coma em momentos errados, consuma alimentos incompatíveis (Viruddha Ahara) ou coma sob stress emocional, tudo isto vai gerar Ama (toxinas metabólicas não digeridas), que se acumulam no cólon (sede de Vata) e no estômago, destruindo a flora intestinal (microbioma) e bloqueando os canais de energia (Srotas). (Neste estado clinicamente podem existir diarreias ou alterações intestinais inexplicáveis)
- Os rins (sede do medo e do instinto de sobrevivência):
Como Avidya nos faz acreditar que estamos separados do todo, desenvolvemos um medo profundo da escassez, da perda e da solidão. Na Medicina Ayurveda os rins guardam a nossa energia vital (Ojas) e são profundamente lesionados pelo medo crónico e pela incapacidade de confiar no fluxo da vida.
4. Comportamentos para gerir e dissipar avidya
Dissipar Avidya requer um esforço diário e consciente de realinhamento, portanto aqui vou deixar alguns comportamentos terapêuticos e espirituais que considero mais eficazes:
- Svadhyaya (Autoestudo): Ler textos sagradas, livros de filosofia, de ciência natural e espiritualidade ou quem sabe poder enquadrar-se, ou mesmo estudar alguns dos artigos deste blog, isso seria um ato de Svadhyaya para quem os lê. Este hábito introduz pensamentos de alta frequência (Sattva) na mente, diluindo ao mesmo tempo a ignorância.
- Satsang (companhia dos sábios): Estar perto de professores, terapeutas ou pessoas que partilham a busca pela verdade, pois a ignorância é contagiosa, mas a lucidez também o é.
- Dinacharya (rotina diária Ayurvédica): Ancorar o corpo numa realidade física e natural. Acordar antes do nascer do sol (Brahma Muhurta), raspar a língua, beber água morna e meditar. Estes hábitos diários retiram-nos do piloto automático da mente reativa e colocam-nos em contacto com a verdade do momento presente.
- Prática de Gratidão Ativa: Avidya foca-se na falta (na ilusão de que algo externo nos complementa ou completará). A gratidão redireciona a perceção para o que já é real, abundante e eterno em nós agora.
- Prática de atenção plena: Aqui podemos considerar que durante todo o dia devemos estar despertos a tudo o que nos acontece, tomando consciência das sensações, das emoções e dos estados de ânimo.
5. A Importância de Avidya na Vida Espiritual: O Adubo da Alma
Para terminar esta descrição não devemos olhar para Avidya com raiva ou frustração, pois no nosso caminho espiritual, Avidya tem uma importância evolutiva extraordinária e funciona como o adubo da nossa alma. O lótus e a flor de lótus que são muito bonitos, belos e puros só nasce e cresce porque existe a lama escura e densa no fundo do lago.
Sem a dor provocada pela ilusão de Avidya, o ser humano nunca sentiria o impulso, a sede e a "intriga" de procurar a sua verdade, de fazer terapia, de praticar Yoga, de ler e praticar Ayurveda ou de praticar Tantra ou de aceitar acompanhamento espiritual. É o sofrimento gerado pela ignorância que, eventualmente, nos faz acordar e iniciar a viagem de regresso à nossa casa.
Avidya é a sombra que torna a luz visível, por isso o nosso trabalho não é lutar contra a escuridão, mas sim, pacientemente, acender a vela do conhecimento (Jnana).
Espero que esta análise de um tema denso, mas que procuro escrever e descrever com clareza e sensibilidade clínica, seja um bálsamo para quem o lê e sirva de inspiração para uma alteração de comportamentos e do seu Eu.
Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da Medicina Ayurvédica.
"Bhavatu Sabba Mangalam"
Shanti, Shanti, Shanti

