quarta-feira, 27 de maio de 2026

A importância das frases de hoje


A forma como hoje usamos a linguagem não é apenas um detalhe gramatical, ela reflete exatamente onde colocamos o nosso poder pessoal e a nossa agência espiritual.

Quando dizemos "a música cura-me", estamos, inconscientemente, a colocar o papel de "médico" ou "salvador" num objeto externo. Quando mudamos para "eu curo-me através do som", ou "eu curo-me através da meditação " assumimos o papel de protagonistas da nossa própria transformação e ao mesmo tempo integrando-nos nela

Vou aqui falar um pouco sobre esta subtil, mas ao mesmo tempo enorme diferença sob diferentes perspetivas 

1. A Perspetiva Ayurvédica (O Despertar do Svastha)

Na Ayurveda, saúde não é apenas a ausência de doença, mas sim um estado chamado Svastha ou Swastha que literalmente significa "estabelecido no próprio Ser" ou "estar conectado em nós mesmo".

Se assumimos que a meditação ou uma planta medicinal me "cura" de forma passiva, estamos a tratar a espiritualidade como se fosse um paracetamol. A isto podemos designar como sendo um erro de passividade.

Se o nosso corpo e a nossa mente têm uma inteligência intrínseca (Prana). A música, as plantas ou a meditação não fazem o trabalho por nós; elas são apenas ferramentas (Upayanas) que removem os bloqueios (Ama) para que a nossa própria natureza curativa possa atuar. Dizer "eu curo-me através de..." ativa o nosso fogo digestivo mental (Agni), permitindo-nos metabolizar essa experiência.

2. A Perspetiva Tântrica (A Consciência de Shakti)

O Tantra que na sua essência filosófica e não-dual é a via do empoderamento absoluto, em que o princípio básico é que nós já somos o Todo, já somos o divino, e já temos dentro de nós essa energia cósmica (Shakti).

Dizer que "a música cura-me" cria uma dualidade, considerando a relação entre o eu doente e incompleto e a música como a perfeita e a curadora e a isto designamos como sendo a ilusão da separação (Maya)

O som considerado ou designado como Nada Brahma não vem de fora para nos consertar ou curar, a música exterior apenas vai expandir e ampliar a vibração que já existe dentro de nós. Ao dizermos "eu sou curado pelo som", vamos conectarmo-nos e reconhecer como o próprio espaço onde a cura acontece, onde a música é o espelho e nós somos a face que se reflete nele. Nós não somos um copo vazio a ser preenchido, nós somos o próprio oceano.

3. O Impacto desta expressão em nós (A nível vibracional e psicológico)

Consideramos que a palavra é Mantra e ao mesmo tempo ela cria uma realidade. Quando a linguagem coloca o poder fora de nós, geramos um impacto profundo no nosso campo energético e com isto podemos criar quer uma dependência espiritual em que se a música me cura, o que acontece quando estou em silêncio? Neste caso vou ficar desamparado e vai gerar em mim uma ansiedade subtil e uma procura incessante por "ferramentas de cura" externas (cristais, incensos, gurus, playlists, etc ). Outra consideração é a de uma desconexão do nosso altar interior que ao passar a cura para um segundo plano vamos enfraquecer o nosso "músculo" da auto-observação, deixando por isso de escutar o nosso curador interno. Mas também podemos considerar um alinhamento correto quando afirmamos "Eu curo-me através da meditação", a nossa mente vai entender que "Eu sou o curador, a meditação é o meu bisturi". O mérito, a responsabilidade e a transformação real pertencem a nós mesmo e que todas as ferramentas exteriores são a chave, mas a porta e o tesouro que está lá dentro são inteiramente nossos. 

É fascinante ver como este mesmo padrão de "passar para um segundo plano o nosso poder" se repete de forma idêntica nos relacionamentos e no trabalho. Quando colocamos a nossa felicidade, a validação ou a cura nas mãos de um parceiro ou de uma carreira, caímos exatamente na mesma armadilha espiritual.

4. Nos relacionamentos: Da frase  "Tu fazes-me feliz" a "Eu divido a minha plenitude contigo"

A nível mundano, fomos programados pela cultura do amor romântico a acreditar na metade da laranja. Expressões como "Ele/a completa-me" ou "Tu fazes-me feliz" são o equivalente amoroso da afirmação "A música cura-me".

Na Ayurveda, a saúde emocional depende de estarmos centrados no nosso próprio Svastha (estar conectado connosco mesmo) e quando dizemos que o outro nos faz felizes, estamos a dar-lhe o controlo do nosso estado interno. Se o outro está instável (com o Vata ou Pitta desalinhados), nós vamos desestabilizar-mo-nos imediatamente. O relacionamento ideal ayurvédico é como dois ecossistemas saudáveis que se apoiam, e não um parasitando a energia do outro.

No Tantra, o relacionamento exterior é apenas um espelho da união sagrada que deve acontecer dentro de nós (entre a nossa energia masculina de presença, Shiva, e a nossa energia feminina de fluxo, da criação, Shakti).

Quando afirmamos "O meu parceiro cura as minhas feridas de rejeição", estamos na ilusão, pois o parceiro não cura nada, ele funciona como um gatilho (Nimitta) que traz à superfície o que precisamos de ver. O relacionamento é o laboratório, mas quem transmuta a energia somos nós. O outro não nos preenche, ele apenas acorda a plenitude que já habita em nós.

5. No Trabalho: Da frase "O meu emprego define-me" a "Eu expresso o meu Dhamma através do trabalho"

No mundo profissional, a armadilha é depositar o nosso valor próprio no cargo, no salário ou no reconhecimento da chefia. As frases como "Este trabalho realiza-me" ou "O meu chefe não me valoriza" colocam o nosso fogo interno (Agni) dependente do exterior.

Na perspetiva Ayurvédica Dhamma é o nosso propósito cósmico, a nossa verdadeira natureza em ação. O nosso Dhamma não é o nosso emprego. O emprego é apenas o canal atual e se dizemos "O meu trabalho realiza-me", o dia em que fores despedido ou a empresa mudar, a tua identidade desmorona-se. Na visão ayurvédica, nós realizamo-nos a nós mesmo quando colocamos a nossa essência em tudo o que fazemos, quer estejamos a lavar pratos ou a liderar uma multinacional. O trabalho não nos dá valor, nós é que emprestamos o nosso valor ao trabalho.

Na perspetiva Tântrica Spanda é a vibração ou a pulsação divina da criação e considero que o trabalho deve ser uma expressão dessa pulsação, uma oferenda (Seva) da nossa energia criativa ao mundo. Se trabalhamos à espera que o exterior nos valide, estamos a contrair a nossa energia, mas quando assumimos que "Eu expresso a minha mestria através deste projeto", aqui assumimos o nosso papel de criador (da nossa própria Shakti). O sucesso ou o falhanço do projeto já não definem quem nós somos, porque a nossa consciência permanece intocável.

O impacto prático desta mudança de Chip

Quando deixamos de dizer "isto faz-me" e passamos a dizer "eu transformo-me através disto", acontece uma profunda viragem e mudança de chave:

 

Padrão Antigo (Dependência Externa)

Padrão Novo (Autorresponsabilidade)

"O meu parceiro stressa-me."

"Eu sinto-me stressado perante esta atitude e escolho recolher-me."

"Este emprego suga a minha energia."

"Eu estou a gerir mal os meus limites dentro deste ambiente de trabalho."

"Se eles mudassem, eu seria feliz."

"Eu mudo a minha postura interna para proteger a minha paz."

 

Para aumentar e potencializar a nossa verdade espiritual, podemos afirmar que nem o amor de outra pessoa nos pode salvar, nem o pior dos trabalhos nos pode destruir, a menos que nós próprios dermos a permissão para que o exterior dite as regras do nosso templo interno.

 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

400 000 Visualizações do blog

Instituto de Medicina Ayurvédica


400 000 Vezes Obrigado!

Hoje o dia amanheceu com um motivo gigante para celebrar. O meu cantinho digital ultrapassou a marca das 400 000 visualizações!

Quando escrevi as primeiras linhas por aqui, confesso que não imaginava que estas palavras pudessem viajar tão longe, entrar em tantos ecrãs e, acima de tudo, conectar-se com tantas mentes e corações.

Cada número que compõe este marco não é apenas uma estatística num gráfico, para mim, cada visualização representa um momento:

- Para alguém que procurava uma resposta e a encontrou aqui.

- Para alguém que guardou cinco minutos do seu dia atarefado para ler uma reflexão.

- Ou mesmo para alguém que partilhou um texto com um amigo, que comentou, que sorriu ou que simplesmente fluiu comigo uma mesma energia.

Um blog só ganha vida verdadeira quando o outro lado responde, por isso, este marco não é meu, é nosso, é de cada um de vocês que passa por aqui, seja pela primeira vez ou como visitante habitual que já faz parte da casa.

O meu mais profundo e sincero agradecimento por estarem desse lado, por lerem, por apoiarem e por fazerem este espaço crescer de forma tão bonita. Que venham as próximas partilhas, as próximas reflexões e os próximos passos nesta jornada.

Nunca se esqueçam que são também vocês que me fazem evoluir, me fazem crescer como ser e também com todas as vossas questões e duvidas me proporcionam mais estudo e mais conhecimento.  

A todos vocês… Sukhi ho (que sejam felizes)!

 

Com imensa gratidão de

Vitor José ,

Do Instituto de Medicina Ayurvédica

e de Ayurveda.gdm

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Samskara

 

Samskara

É fascinante como uma palavra nos pode abrir as portas para uma compreensão tão profunda da nossa mente essa palavra é Samskara que em Pali se diz Sankhara e em sânscrito Samskara e considero como sendo um dos conceitos mais ricos e cruciais de toda a filosofia oriental.

Para compreendermos verdadeiramente os samskaras, precisamos de olhar para eles não como teorias, mas como experiências vivas. Vou abordar esta palavra em todas as suas vertentes, desde a sua raiz linguística até à forma como as diferentes tradições lidam com ela, como os detetamos no dia a dia, como é a sensação exata de nos libertarmos deles e qual é a origem histórica deste conceito nas três tradições.

1 . Etimologicamente a palavra deriva do sânscrito Sam (que significa "junto" ou "com") e Kara (que significa "fazer", "criar", “ação”, “causa” ou "agir"), portanto se definirmos um significado literal será "Aquilo que foi colocado junto", "construção", "formação" ou "confeção". Mas também podemos explicar e entender este conceito como uma metáfora, em que pensamos em samskara como uma ranhura ou um sulco num disco de vinil, ou mesmo como um caminho de terra batida na floresta, que quanto mais vezes se passa por esse caminho, mais profundo é o sulco, outro exemplo é o de um tecido que inicialmente está direito e depois vai ficar cheio de vincos ou marcas que também quanto mais usamos com mais vincos fica, o que quer dizer que com os vincos e sulcos mais fundos é mais fácil a mente cair lá dentro automaticamente. Podemos ainda considerar como sendo as nossas impressões digitais mentais, os nossos condicionamentos subconscientes. 

2. Como temos a perceção (consciência) dos Samskaras?

Os samskaras operam no nosso subconsciente, mas deixam "pistas" óbvias na nossa vida consciente e aí nós vamos perceber a existência deles através de três manifestações principais:

A. Reações desproporcionais que podem ser designadas por "Gatilhos"

Quando a nossa reação a um evento é muito maior do que o evento em si, um samskara foi ativado. Por exemplo se visualizam a sua mensagem no telemóvel e não nos responderam nas próximas cinco horas, isto vai fazer com que uma pessoa sem esse samskara pensa apenas: "Deve estar ocupada", mas se tem um samskara profundo de rejeição ou abandono, a sua mente cria imediatamente um turbilhão, em que o seu coração vai acelerar, vai surgir um aperto no estômago e aparece a raiva ou a ansiedade crónica. O atraso na resposta foi apenas o palito que acendeu o incêndio que já estava guardado dentro de si.

B. Padrões Repetitivos na Vida - O "Dèjá Vu" de problemas

Se observar que quando muda de emprego, de parceiro ou de cidade, mas os mesmos problemas voltam a acontecer? quando atrai sempre chefes autoritários ou parceiros emocionalmente indisponíveis isto não é azar, mas sim o íman do samskara. Como a sua mente está habituada a esse tipo de vibração ou ambiente, ela vai procurar sempre e de uma forma inconsciente tudo o que lhe é "familiar" trazendo-lhe uma falsa sensação de segurança ao ego.

C. Impulsos e Vícios Automáticos

A necessidade súbita de comer um doce quando está stressado, de abrir as redes sociais a cada cinco minutos ou de roer as unhas, isto demonstra que há um desconforto físico invisível, e o samskara ativa um comportamento automático para anestesiar essa sensação. 

3 . Numa vertente espiritual e psicológica podemos considerar que no budismo e no hinduísmo, os samskara são os tijolos que constroem a nossa personalidade e o nosso destino, podemos dizer o nosso Karma, em que esses tijolos são as forças motrizes por detrás do porquê de gostarmos de certas coisas e odiarmos outras sem saber bem porquê.

Espiritualmente, são consideradas as amarras do ego, em que nós não vemos o mundo como ele é e vemos o mundo através do filtro dos nossos samskara, e por exemplo quando acumulamos samskara de medo na infância, o mundo parecerá hoje um lugar hostil. 

4 . A Linha do Tempo Histórica dos Samskaras

Cada uma das filosofias começou a abordar este conceito em épocas diferentes da história da humanidade.

Linha do tempo dos Samskaras 

1500–1000 a.C.

500 a.C.

400 d.C.

. 500–800 d.C

Vedas / Ayurveda

Vipassana

Yoga Sutras

Tantra

Primeiras menções como rituais e   impressões.             

Buda Gautama   usa "Sankhara  no Budismo

Patanjali define    Samskaras como   impressões latentes   

Alquimia mental e transmutação  das energias

                                                             

Na Medicina Ayurveda (Raízes nos Vedas: c. 1500 – 1000 a.C.)

Esta é a abordagem mais antiga e o termo aparece originalmente nos textos sagrados mais antigos da Índia, os Vedas. No contexto médico do Ayurveda que foi consolidado mais tarde nos textos Charaka Samhita por volta de 400a.C.,samskara significava "refinamento" ou "processamento", e aplicava-se tanto ao ato de transformar uma planta venenosa num remédio através do fogo (mudar o samskara da planta) e o mesmo acontece quanto às impressões mentais que alteravam a saúde do nosso corpo físico.

 Na Meditação Vipassana (Budismo Theravada: c. 500 a.C.)

No século V a.C., Gautama o Buda revolucionou o termo ao usar a palavra em Pali "Sankhara" como um dos pilares centrais do seu ensinamento. Buda colocou o conceito no âmago da psicologia humana e no seu discurso sobre a Origem Dependente (Paticcasamuppada), em que explicou que a ignorância gera os samskaras, e os samskaras geram todo o sofrimento do ciclo de renascimentos (Samsara). (conslte mais aqui sobre sofrimento )

O Vipassana nasceu nesta altura como a ferramenta técnica exata para os erradicar.

Nota histórica: Alguns séculos mais tarde 400 d.C., o sábio Patanjali escreveu os Yoga Sutras, onde codificou os samskaras para a tradição do Yoga clássico de uma forma muito semelhante à do Budismo, explicando como estas impressões latentes controlam a nossa mente agitada.

 No Tantra (Tantra Hindu e Budista: c. 500 – 800 d.C.)

O movimento tántrico floresceu no período medieval da Índia, ganhando enorme força a partir do século VI d.C. O Tantra surgiu como uma reação às correntes anteriores que viam o mundo e os desejos como algo puramente perigoso que devia ser evitado. Os mestres tántricos dessa época aceitaram a existência dos samskaras (as amarras), mas propuseram que, em vez de passar a vida a tentar extingui-los pelo ascetismo, deviamos usar rituais, mantras e a energia do nosso próprio corpo para colapsar essas estruturas através de uma velocidade mais acelerada.

Cada filosofia, à sua época, ofereceu uma chave diferente para resolver o mesmo enigma de como é que o ser humano se pode libertar das correntes invisíveis do seu próprio passado.

5 . Como se adquirem os samskara?

Nós criamos samskara a cada segundo através de um ciclo de quatro passos na nossa mente, que não têm ordem e podem surgir aleatoriamente:

A Consciência (Vinnana) que podemos considerar como através da qual um estímulo entra, como por exemplo um som, um pensamento ou até mesmo uma imagem.

A Perceção (Sanna) aqui considero como é que a mente reconhece o estímulo e o avalia como bom ou mau com base em todas as experiências tidas no passado.

A Sensação (Vedana) aqui verificamos como o corpo reage a uma sensação física como por exemplo calor, aperto, comichão, fluxo agradável, etc..

A Reação (Sankhara) é aqui que nasce o samskara que quando consideramos como uma sensação boa vamos reagir com desejo e obviamente vamos querer mais e ao mesmo tempo se a sensação for má, iremos reagir com aversão e automaticamente queremos evitar e queremos que acabe.

Cada vez que reagimos com desejo ou aversão, “escrevemos" um novo samskara na mente, se a nossa reação for muito forte como por exemplo um ataque de raiva ou um trauma, o sulco torna-se uma cicatriz profunda na psique.

6. Como dissolver os samskara?

A beleza destas filosofias é que aquilo que foi programado pode ser desprogramado e vou aqui descrever três vertentes mais antigas e uma debatida mais recentemente de modo a percebermos como abordo e explicar a dissolução destas marcas ou destes vincos:

A. Através da Meditação (Vipassana)

Eu pessoalmente considero qua a meditação em geral e especialmente a meditação Vipassana é uma cirurgia psíquica para remover os samskaras.

Neste caso vamo-nos sentar em silêncio e vamos observa as sensações do corpo com equanimidade isto quer dizer sem julgar, sem desejar que a dor passe, sem se apegar ao prazer, sem manifestar quando a dor aparece.  

Com esta prática o que procuramos fazer é dissolver tudo pois quando uma dor nas costas surge e nós reagimos com aversão, o ciclo quebra-se e com isto o samskara antigo da raiva ou da impaciência vem à superfície do corpo na forma dessa dor para ser erradicado. Como nós não lhe damos "combustível" a essa nova reação, logo esse samskara antigo esgota-se e dissolve-se para sempre. É a lei da impermanência (Anicca) em ação.

 B. Através do Ayurveda

No Ayurveda, os samskara mentais manifestam-se fisicamente como Toxinas (Ama) nos tecidos do corpo (Dhatus) e com isto vai bloquear os nossos canais energéticos (Srotas).

Neste caso a Medicina Ayurvedica propõe a sua dissolução limpando o "recipiente" físico onde a mente habita. Isto é feito através do Panchakarma que considero como uma desintoxicação profunda com óleos medicados ou mesmo terapias ayurvédicas como a Abhyanga ou através da utilização de fluxos de óleo na testa como o Shirodhara.

Com a utilização destas técnicas o que se propõe é o amolecer os tecidos com óleos quentes e purificar o nosso sistema digestivo, o Ayurveda liberta as memórias traumáticas guardadas nas células. É muito comum as pessoas se ausentarem, chorarem ou terem revelações emocionais durante uma terapia ayurvédica, e isto acontece porque os samskara físicos estão a ser expelidos e dissolvidos.

C. Através do Tantra

O Tantra não tenta esgotar o samskara pela neutralidade (como o Vipassana), nem apenas limpar o corpo (como o Ayurveda). O Tantra usa a Intensidade e a Devoção.

No tantra utilizam-se os Mantras que são sons sagrados que reprogramam as frequências da nossa mente, os Yantras que representam uma geometria sagrada para focar o inconsciente, os Pranayamas em que os exercícios de respiração ajudam e auxiliam o mover dos fluxos e da energia Kundalini e também em alguns casos podem ser utilizadas terapias como por exemplo a tantra head massage( massagem tântrica á cabeça). Como foi descrito atrás no Ayurveda com esta terapia acontece a mesma coisa o de limpar o "recipiente" físico onde a mente habita.

Considero que o Tantra eleva a nossa energia vital, o nosso Prana através dos Chakras e quando o fogo da Kundalini sobe, ele vai atuar como um feixe de laser que "queima" as sementes dos karmas e samskara bloqueados nos centros energéticos, transformando a energia densa como o medo ou a luxúria em consciência pura.

D. Numa abordagem mais recente considero aqui que a Psicologia Transpessoal e o Trabalho de Sombra (Shadow Work) são exemplos que podemos considerar que auxiliam na remoção dos nossos samskaras.

Se trouxermos este conceito para a modernidade ocidental, os samskara equivalem ao que Carl Jung designa por "Complexos do Inconsciente" ou a nossa Sombra.

Propõe-se a dissolução dos Samskaras através da autoanálise e da psicoterapia somática que define a união da mente e corpo. Em vez de ignorar os seus gatilhos emocionais, devemos investiga-los e traze-los para o reconhecimento deles de uma forma consciente: "Porque é que aquela atitude daquela pessoa me irrita tanto? Que ferida antiga ou que samskara em mim está a ser tocada?". Ao trazer as coisas da escuridão do inconsciente para a luz da consciência vamos procurar dissolver todos os nossos padrões que naturalmente se manifestam sempre de uma forma automática.

Para dissolver todas estas ranhuras da mente, em primeiro lugar temos de as reconhecer, mas considero que o mais importante é poder escolher o nosso caminho ou mesmo combinar de entre os diferentes caminhos:

Se quer treinar e evoluir através da não-reação e da sua estabilidade mental aqui deve trabalhar com a meditação Vipassana.

Se sente que o corpo físico está pesado e carrega traumas biológicos, neste caso deve ser acompanhada através da Medicina Ayurvédica.

Se quer alterar ou mesmo transmutar toda a sua energia estagnada aqui pode ser através da respiração e do som ou até mesmo da terapia neste caso deve ser acompanhada através do Tantra.

7. Como percebemos que nos libertámos de um Samskara?

A libertação de um samskara não é um conceito abstrato, ela é sentida de forma muito real e tangível no corpo e na mente e se estivermos com atenção percebemos que nos libertámos quando:

A. O Gatilho Perde o Poder - O teste da realidade

Um evento externo acontece exatamente igual, mas a sua reação interna mudou completamente. Isto quer dizer que as coisas mudaram ou por exemplo quando a mesma pessoa nos deixa "em espera" no telemóvel durante muito tempo aqui podemos observar e regista o facto de que o batimento cardíaco continua calmo, o estômago não aperta e existe um espaço de silêncio entre o que aconteceu e a sua resposta. Aqui vamos perceber com um lindo sorriso interior e afirmar que "Isto já não me domina" o que quer dizer que esse sulco no vinil foi apagado.

B. Sensação de Leveza Física e Alívio

Como o Ayurveda e o Vipassana explicam, os samskaras estão condensados no nosso corpo e quando um deles se dissolve, seja a chorar numa meditação, a tremer num processo tántrico ou após uma purificação, a sensação física imediata é de que um peso físico foi tirado das suas costas, do meu peito ou do seu corpo e aí a nossa respiração torna-se mais profunda e fluida.

C. Mudança de Narrativa Interna

A voz autocrítica ou a vitimização desaparecem e em vez de pensar "Toda a gente me rejeita", “eu sou uma porcaria” Não faço nada direito” a mente processa a realidade de forma neutra: "Aquela pessoa, especificamente, não pôde responder agora", “nesta altura isto não correu bem” e com isto vamos corrigindo e mudando a nossa “cassete” e a nossa narrativa interna.

8 . Os 16 Samskaras do hinduísmo

Vou agora descrever os 16 Samskaras do Hinduismo, que posteriormente farei um artigo sobre estes 16 Samskaras

Samskaras pré-natais

1 . Garbhadan (Concepção)

2 . Pumsavana (interferindo com uma questão masculina)

3 . Simantonayana (Partituição de cabelo)

Samskaras da Infância

4 . Jatakarma (rituais de nascimento)

5 . Namakarana (Dança de nome)

6 . Nishkrama (Primeiro passeio)

7. Annaprashana (Primeira alimentação)

8. Chudakarma ou Chaul (cortar o cabelo)

9. Karnavedh (O furar das orelhas)

Samskaras Educacionais

10. Vidyarambha (Aprender o alfabeto)

11. Upanayana (Iniciação de fio Sagrado)

12. Vedarambha (Início do estudo védico)

13. Keshant (Godaan) (Desfazer a barba)

14. Samavartan (Fim da formação académica)

Samskara do Casamento

15. Vivaha (Cerimônia de Casamento)

Morte Samskara

16. Antyeshti (ritos da morte)

 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti