quarta-feira, 22 de julho de 2026

Avidya - um dos cinco venenos humanos

Instituto de Medicina Ayurvédica

 Avidya

Num dos artigos anteriores falei dos cinco Kleshas(Veja aqui o texto) que são considerados como os cinco venenos, cinco aflições ou colorações mentais que obscurecem a nossa perceção, funcionando em cadeia, e sendo considerados como as causas e as raízes de todo o sofrimento humano (Dukha).

Vou neste artigo falar de um destes Kleshas - Avidya.

Avidya (अविद्या) é a terra escura e invisível onde as raízes de toda a árvore do sofrimento humano se fixam. Segundo os Yoga Sutras de Patanjali, todos os outros quatro Kleshas nascem diretamente de Avidya. Sem compreender esta palavra, é impossível compreender as verdadeiras etapas de libertação.

Vou aqui falar um pouco do significado desta palavra ou deste conceito, procurando unir a ciência védica, a saúde psicossomática e o caminho espiritual.

1. A palavra: O que é Avidya?

No sânscrito, o prefixo A - significa "não" ou "ausência de", e Vidya vem da raiz Vid, que significa "saber", "ver claramente" ou "conhecer" (daqui vem a palavra Veda, que significa conhecimento sagrado), portanto, Avidya traduz-se frequentemente como ignorância, mas esta tradução para o português pode ser enganadora, onde

Avidya não é a falta de educação escolar, de intelecto ou de cultura geral, pelo contrário pois uma pessoa pode ter três doutoramentos, falar cinco línguas, saber as escrituras de cor e, ainda assim, estar imersa numa profunda Avidya.

Patanjali define Avidya de forma cirúrgica no Yoga Sutra (1.5):

“Confundir o transitório com o eterno, o impuro com o puro, a dor com o prazer, e o não-Ser com o Ser”.

Em termos simples, Avidya é uma miopia espiritual e é quando olhamos para a nossa mente e para o nosso corpo e pensamos: "Isto é o que eu sou", esquecendo que somos a Consciência Cósmica Infinita que apenas habita temporariamente este veículo. ( quem me conhece sabe que eu utilizo muito esta expressão "que o nosso corpo é um taxi que nos foi dado para fazer esta viagem") 

2. A Visão do Yoga, Ayurveda, Tantra e Meditação

Cada uma destas ciências aborda esta conceito da ignorância de forma específica:

O Yoga (A Purificação da Perceção)

Para o Yoga clássico, Avidya é o véu de Maya (ilusão) que nos faz sofrer. O Yoga vê a nossa vida como um estado de "sono acordado", e aí o objetivo do Yoga (Sadhana) é limpar os filtros da mente para que possamos ver o real e a realidade. Quando praticamos as posturas (Asanas), o controlo da respiração (Pranayama) e a concentração (Dharana), estamos a polir o espelho da mente para que Avidya se dissipe e a luz do Ser (Purusha) possa refletir-se claramente.

O Ayurveda (A Origem da Doença)

No Ayurveda, a ignorância espiritual não é um conceito abstrato, ela é a causa primária de todas as doenças físicas.

Como já referi antes, o Ayurveda ensina que a raiz da doença é Pragya-aparadha (o "crime contra a sabedoria" ou o intelecto que falha). Como é que ele falha? Por causa de Avidya.

Sob o efeito de Avidya, cada um de nós vai-se identificar com os desejos imediatos da língua ou dos olhos (que são impermanentes e geradores de toxinas) que escolhe hábitos e modos de vida que destroem a nossa saúde. É Avidya que nos faz comer o que nos inflama, dormir em desarmonia com os ritmos circadianos e ignorar os sinais de alerta do corpo.

O Tantra (O Despertar da Energia)

O Tantra tem uma visão muito audaz, pois não vê Avidya como um "pecado" ou como um erro cósmico a ser destruído com austeridade extrema, mas sim como o ponto de partida do jogo divino (Lila).

Para o Tantra, a Consciência Suprema decidiu deliberadamente contrair-se e esquecer a sua própria divindade (criando Avidya) para poder experimentar o prazer de se auto-descobrir através de nós. No Tantra, combatemos Avidya não pela fuga do mundo, mas pela sacralização do mundo, reconhecendo a energia divina (Shakti) em toda a matéria, no corpo, no prazer e nas relações. 

A Meditação (O Testemunhar da Ilusão)

Na meditação (Dhyana), Avidya é aquela voz interior que nos diz que a nossa paz depende de fatores externos: "Serei feliz quando comprar aquela casa", "Serei feliz quando este barulho passar".

A meditação desarma Avidya ao ensinar o praticante a sentar-se na sua própria presença, ao observar os pensamentos a nascer e a morrer, onde o meditador percebe experiencialmente que os pensamentos são impermanentes (transitórios), enquanto a Consciência que os observa é imutável (eterna). Este vislumbre (Satori ou Samadhi) rasga o véu de Avidya.

3. O impacto na saúde: órgãos e sistemas deteriorados pelo excesso de avidya

Viver sob o domínio de Avidya significa viver desalinhado com as leis da Natureza (Dharma), onde esse desalinhamento crónico vai cobrar um preço físico severo ao corpo, deteriorando órgãos vitais:

- O cérebro e o sistema nervoso central (sadhaka pitta e prana vayu):

Avidya mantém a mente num estado constante de ilusão e projeção de cenários futuros (medos e ansiedades fictícias). Isto sobrecarrega o cérebro, gerando exaustão mental, insónias, névoa cerebral e degeneração neuronal que aumenta e acelera devido ao stress oxidativo.

- O trato gastrointestinal (o cólon e o estômago):

A ignorância sobre os ritmos biológicos faz com que a pessoa coma em momentos errados, consuma alimentos incompatíveis (Viruddha Ahara) ou coma sob stress emocional, tudo isto vai gerar Ama (toxinas metabólicas não digeridas), que se acumulam no cólon (sede de Vata) e no estômago, destruindo a flora intestinal (microbioma) e bloqueando os canais de energia (Srotas). (Neste estado clinicamente podem existir diarreias ou alterações intestinais inexplicáveis)

- Os rins (sede do medo e do instinto de sobrevivência):

Como Avidya nos faz acreditar que estamos separados do todo, desenvolvemos um medo profundo da escassez, da perda e da solidão. Na Medicina Ayurveda os rins guardam a nossa energia vital (Ojas) e são profundamente lesionados pelo medo crónico e pela incapacidade de confiar no fluxo da vida.

4. Comportamentos para gerir e dissipar avidya

Dissipar Avidya requer um esforço diário e consciente de realinhamento, portanto aqui vou deixar alguns comportamentos terapêuticos e espirituais que considero mais eficazes:

- Svadhyaya (Autoestudo): Ler textos sagradas, livros de filosofia, de ciência natural e espiritualidade ou quem sabe poder enquadrar-se, ou mesmo estudar alguns dos artigos deste blog, isso seria um ato de Svadhyaya para quem os lê. Este hábito introduz pensamentos de alta frequência (Sattva) na mente, diluindo ao mesmo tempo a ignorância.

- Satsang (companhia dos sábios): Estar perto de professores, terapeutas ou pessoas que partilham a busca pela verdade, pois a ignorância é contagiosa, mas a lucidez também o é.

- Dinacharya (rotina diária Ayurvédica): Ancorar o corpo numa realidade física e natural. Acordar antes do nascer do sol (Brahma Muhurta), raspar a língua, beber água morna e meditar. Estes hábitos diários retiram-nos do piloto automático da mente reativa e colocam-nos em contacto com a verdade do momento presente.

- Prática de Gratidão Ativa: Avidya foca-se na falta (na ilusão de que algo externo nos complementa ou completará). A gratidão redireciona a perceção para o que já é real, abundante e eterno em nós agora.

- Prática de atenção plena: Aqui podemos considerar que durante todo o dia devemos estar despertos a tudo o que nos acontece, tomando consciência das sensações, das emoções e dos estados de ânimo.

5. A Importância de Avidya na Vida Espiritual: O Adubo da Alma

Para terminar esta descrição não devemos olhar para Avidya com raiva ou frustração, pois no nosso caminho espiritual, Avidya tem uma importância evolutiva extraordinária e funciona como o adubo da nossa alma. O lótus e a flor de lótus que são muito bonitos, belos e puros só nasce e cresce porque existe a lama escura e densa no fundo do lago.

Sem a dor provocada pela ilusão de Avidya, o ser humano nunca sentiria o impulso, a sede e a "intriga" de procurar a sua verdade, de fazer terapia, de praticar Yoga, de ler e praticar Ayurveda ou de praticar Tantra ou de aceitar acompanhamento espiritual. É o sofrimento gerado pela ignorância que, eventualmente, nos faz acordar e iniciar a viagem de regresso à nossa casa.

Avidya é a sombra que torna a luz visível, por isso o nosso trabalho não é lutar contra a escuridão, mas sim, pacientemente, acender a vela do conhecimento (Jnana).

Espero que esta análise de um tema denso, mas que procuro escrever e descrever com clareza e sensibilidade clínica, seja um bálsamo para quem o lê e sirva de inspiração para uma alteração de comportamentos e do seu Eu.

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da Medicina Ayurvédica.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Gurupurnima 2026

 

 
 

Gurupurnima 2026

Os discípulos de todo o mundo celebram o dia de Guru Purnima com a 

máxima devoção e com o seu coração preenchido. O Guru Purnima homenageia os professores espirituais e académicos. É um dia de grande significado no hinduísmo, budismo e jainismo. Também é chamado de Vyasa Purnima em homenagem ao sábio Veda Vyasa.  

Como o planeta Júpiter na Astrologia Védica é considerado a manifestação 

de 'Brihaspati', que é o Guru dos Deuses do Céu, a ocasião do Guru 

Purnima também possui um significado astrológico. É aconselhável 

utilizar este dia cosmicamente carregado para propiciar 'Dev Guru 

Brihaspati', realizando um Puja Guru Purnima. 

 

O Guru Purnima ocorre no Purnima Tithi (termo sânscrito para "dia do calendário lunar") ou na Lua Cheia do 'Shukla Paksha'(Crescente ou Fase Brilhante da Lua) que é a lua cheia entre o mês de junho e o mês de Agosto, no mês de Ashada de acordo com o Calendário Lunar Hindu.

 

Em 2026, o dia do Guru Purnima será celebrado na quarta-feira, dia 29 de julho. 

 

De acordo com o Panchang, o período de Purnima Tithi ou Lua Cheia 

começará em 18.18h do dia 28 de julho de 2026 e terminará no final do dia de 29 de julho.

 

Os vários rituais sagrados para o Guru Purnima 2026, incluindo o 

astrologicamente benéfico o Puja a Guru Purnima, podem ser realizados

a qualquer momento após o nascer do sol do dia 28 de julho até quando 

o Purnima Tithi termina à noite. 

Este dia coincide com o nosso concerto Meditativo de lua cheia no 

Instituto de Medicina Ayurveda no qual iremos fazer alguns mantras 

para além dos mantras á lua cheia. Iremos também fazer mantras e um pequeno 

puja a Guru Purnima. Entre os quais:

 

Mantra Shakti - Dhyana,

Om Shum Shukraya Namah

 

ou  

 Adi Shakti, Adi Shakti, Adi Shakti, Namo Namo

( Eu me curvo ao Poder Divino) 

Sarab Shakti, Sarb Shakti, Sarb Shakti, Namo Namo

 (Eu me curvo ao abrangente Poder e Energia)

Pritam Bhagwati, Pritam Bhagwati, Pritam Bhagwati, Namo Namo

 (Eu me curvo para o que Deus cria)

Kundalini Mata Shakti, Mata Shakti, Namo Namo

 (Eu me curvo ao poder criativo da Kundalini, o Poder da Mãe Divina)

https://www.youtube.com/watch?v=cgJCsshL4Fk

 

Divya Shaktipat Kriya

pequeno puja de devoção

 

Mantra Diksha .

Diksha é uma palavra sânscrita que significa “iniciação”, “dedicação” ou 

“autodevoção a um ser ou divindade”.  

Om Gurudevaya Vidmahe

Parabrahmaya Dheemahi

Tanno Guruh Prachodayat. 

 

Importância do Guru Purnima 

 Guru Purnima é uma ocasião em que todo o cosmos emana energias 

positivas poderosas que ajudam a encontrar o caminho espiritual e 

a acelerar o seu/nosso progresso. No entanto, este comemoração não 

se limita apenas àqueles que estão caminhando no caminho espiritual 

com total dedicação, mas também àqueles que estão enrredados em 

obrigações ou desejos materiais e desejam obter um progresso 

significativo na frente espiritual também sem dedicar toda a sua 

vida ao objetivo final. 

Guru Purnima é celebrado com um espírito inigualável de gratidão 

para com o Guru ou mestre porque são os ensinamentos e a orientação 

do Guru que eventualmente podem despertar no discípulo o poder alcançar 

a consciência do Divino. 

Uma vez que os ensinamentos, a orientação e os esforços incondicionais 

do Guru possibilitam ao discípulo sair do ciclo repetitivo de nascimento 

e morte e alcançar a auto-realização ao lado de uma felicidade divina 

sem fim, os discípulos ou aqueles que procuram o caminho espiritual 

celebram este dia com fervor de devoção e gratidão ao Guru.

“Jai Guru Deva OM”

Instituto de Medicina Ayurvédica

Om Namo Narayanaia!!!

Gratidão infinita e Felicidade eterna a todos os professores !!!!