O ciclo Nasal e o Nadi shodhana
Depois de escrever um artigo sobre a frequência respiratória a longevidade e a qualidade de vida que surpreendeu algumas pessoas vou agora tentar ajudar no modo como podemos gerir o nosso Ciclo Nasal natural.
A intersecção e a ligação do Ciclo Nasal fisiológico e a prática de Nadi Shodhana (a respiração alternada) constitui uma das pontes mais fascinantes entre o corpo físico, a anatomia subtil e a consciência meditativa.
Enquanto o Ciclo Nasal é o ritmo involuntário e biológico do corpo, o Nadi Shodhana é a intervenção consciente e deliberada de cada um de nós para educar e preservar esse ritmo, transformando uma função automática numa ferramenta de iluminação espiritual.
Para compreender verdadeiramente o impacto transformador do Nadi Shodhana, é fundamental olhar para a escala surpreendente da nossa respiração quotidiana. Em média, um ser humano adulto respira entre 20 000 a 25 000 vezes por dia (cerca de 15 a 22 respirações por minuto). Se deixarmos esse volume colossal de respirações fluir de forma automática, acelerada e inconsciente vamos impulsionar o stress pelo aumento da dispersão mental, pois estamos a repetir milhar após milhar de ciclos de agitação que desgastam a nossa energia vital (Prana) e desequilibram o nosso sistema nervoso. Quando tomamos consciência de que respiramos cerca de 20 000 a 25 000 vezes diariamente, podemos dedicar apenas 10 a 15 minutos para realizar o Nadi Shodhana que deveremos considerar que não estamos a realizar um mero exercício ou uma prática, mas estamos a realizar um ato sagrado de recalibragem e regeneração corporal. Ao desacelerar e alternar conscientemente algumas dezenas dessas respirações, vamos reeducar o ritmo de todos as outras milhares de respirações que virão a seguir, transformando um ato mecânico numa fonte contínua de vitalidade, cura e presença espiritual, pois estamos assim a efetuar um processo de ensinamento do nosso corpo e mente.
1. A experiência energética: a alquimia dos canais (Nadis)
No nosso estado natural, a energia vital (Prana) flutua ao sabor do Ciclo Nasal:
- Quando a narina direita domina, Pingala (energia solar, racional, transformadora, associada ao canal simpático) está ativa.
- Quando a narina esquerda domina, Ida (energia lunar, intuitiva, calmante, associada ao canal parassimpático) prevalece.
A intervenção de Nadi Shodhana:
Durante a prática de Nadi Shodhana, ao alternar o fluxo de ar de forma ritmada e consciente entre as narinas, cada um de nós vai limpando os bloqueios (mala) nos 72.000 nadis do nosso corpo subtil.
Ao forçar a respiração a fluir alternadamente de forma equilibrada, cada um de nós vai forçar os dois polos energéticos (Solar/Masculino e Lunar/Feminino) a harmonizarem-se, fazendo com que exista uma sensação energética resultante é do descongestionamento subtil, onde o calor mental se dissipa e o corpo experimenta um estado de homeostase profunda e de uma vibração uniforme.
2. A Experiência Espiritual: O Despertar de Sushumna
Na sabedoria do Svara Yoga e do Tantra, o grande objetivo espiritual não é apenas alternar a respiração, mas provocar a fusão de dois polos e dos dois fluxos.
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Ida Nadi (Lunar) |
Pingala Nadi (Solar) |
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[Narina Esquerda] |
[Narina Direita] |
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└──────────────┬──────────────┘ |
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NADI SHODHANA (Equilíbrio do Fluxo) |
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Sushumna Nadi (Ativado) [Canal Central da Coluna] |
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Estado Meditativo / Samadhi |
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Quando existe o encontro dos dois, Ida e Pingala, vão ser purificados e equilibrados através de Nadi Shodhana e do fluxo involuntário do Ciclo Nasal ser interrompido, fazendo com que ambas as narinas comessem a fluir com igual intensidade. Por consequência desta ação o fluxo simultâneo abre o canal central da coluna vertebral (Sushumna). Espiritualmente, isto marca a transição do despertar da nossa consciência comum (Jagrat) para uma consciência espiritual superior, fazendo com que a energia Kundalini encontra um caminho desimpedido para ascender ao longo dos nossos canais energéticos os chakras.
3. A experiência meditativa: do ritmo involuntário ao silêncio da mente
Na meditação, a mente segue a respiração e existe um proverbio que diz que "Pavanaḥ calati manas calati" que significa que quando o vento sopra, a mente move-se ou para onde o vento vai, a mente vagueia.
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Dimensão |
Ciclo Nasal normal |
Experiência com Nadi Shodhana |
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Estado da Mente |
Oscila a cada par de horas entre a agitação/foco (solar) e o devaneio/relaxamento (lunar). |
Alcança a equanimidade e uma clareza neutra (Sattva). |
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Atividade Cerebral |
Alterna a dominância entre os hemisférios esquerdo e direito. |
Promove a sincronização do hemisfério cerebral, induzindo ondas alfa e theta. |
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Reação á prática continua |
A mente reage aos estímulos do mundo exterior. |
Facilita o Pratyahara (recolhimento dos sentidos) e o Dharana (concentração e foco num único ponto). |
A sensação subjetiva durante a meditação:
Após 10 a 15 minutos de Nadi Shodhana bem executado, surge um momento em que a necessidade de respirar diminui drasticamente (Kumbhaka espontâneo ou retenção natural), apresentando uma sensação de um vazio pleno:
- O peso do corpo físico parece dissolver-se.
- O ruído mental e as flutuações emocionais cessam.
- A atenção, que naturalmente é dispersa nos órgãos dos sentidos, passa a ser recolhida diretamente para o espaço entre as sobrancelhas (Ajna Chakra) ou para o centro do peito (Anahata Chakra).
A consciência do Ciclo Nasal é como se fosse uma advertência ou um aviso de que a natureza funciona em dualidade e ritmos, e Nadi Shodhana é a arte espiritual de usar essa própria dualidade para transcendê-la. Ao praticar Nadi Shodhana antes da meditação, utilizamos o próprio ar que nos mantém vivos para alinhar os canais de energia, silenciar o cérebro e abrir a porta para a experiência do nosso Eu Verdadeiro (Atman).

