É fascinante como uma palavra nos pode abrir as portas para uma compreensão tão profunda da nossa mente essa palavra é Samskara que em Pali se diz Sankhara e em sânscrito Samskara e considero como sendo um dos conceitos mais ricos e cruciais de toda a filosofia oriental.
Para compreendermos verdadeiramente os samskaras, precisamos de olhar para eles não como teorias, mas como experiências vivas. Vou abordar esta palavra em todas as suas vertentes, desde a sua raiz linguística até à forma como as diferentes tradições lidam com ela, como os detetamos no dia a dia, como é a sensação exata de nos libertarmos deles e qual é a origem histórica deste conceito nas três tradições.
1 . Etimologicamente a palavra deriva do sânscrito Sam (que significa "junto" ou "com") e Kara (que significa "fazer", "criar", “ação”, “causa” ou "agir"), portanto se definirmos um significado literal será "Aquilo que foi colocado junto", "construção", "formação" ou "confeção". Mas também podemos explicar e entender este conceito como uma metáfora, em que pensamos em samskara como uma ranhura ou um sulco num disco de vinil, ou mesmo como um caminho de terra batida na floresta, que quanto mais vezes se passa por esse caminho, mais profundo é o sulco, outro exemplo é o de um tecido que inicialmente está direito e depois vai ficar cheio de vincos ou marcas que também quanto mais usamos com mais vincos fica, o que quer dizer que com os vincos e sulcos mais fundos é mais fácil a mente cair lá dentro automaticamente. Podemos ainda considerar como sendo as nossas impressões digitais mentais, os nossos condicionamentos subconscientes.
2. Como temos a perceção (consciência) dos Samskaras?
Os samskaras operam no nosso subconsciente, mas deixam "pistas" óbvias na nossa vida consciente e aí nós vamos perceber a existência deles através de três manifestações principais:
A. Reações desproporcionais que podem ser designadas por "Gatilhos"
Quando a nossa reação a um evento é muito maior do que o evento em si, um samskara foi ativado. Por exemplo se visualizam a sua mensagem no telemóvel e não nos responderam nas próximas cinco horas, isto vai fazer com que uma pessoa sem esse samskara pensa apenas: "Deve estar ocupada", mas se tem um samskara profundo de rejeição ou abandono, a sua mente cria imediatamente um turbilhão, em que o seu coração vai acelerar, vai surgir um aperto no estômago e aparece a raiva ou a ansiedade crónica. O atraso na resposta foi apenas o palito que acendeu o incêndio que já estava guardado dentro de si.
B. Padrões Repetitivos na Vida - O "Dèjá Vu" de problemas
Se observar que quando muda de emprego, de parceiro ou de cidade, mas os mesmos problemas voltam a acontecer? quando atrai sempre chefes autoritários ou parceiros emocionalmente indisponíveis isto não é azar, mas sim o íman do samskara. Como a sua mente está habituada a esse tipo de vibração ou ambiente, ela vai procurar sempre e de uma forma inconsciente tudo o que lhe é "familiar" trazendo-lhe uma falsa sensação de segurança ao ego.
C. Impulsos e Vícios Automáticos
A necessidade súbita de comer um doce quando está stressado, de abrir as redes sociais a cada cinco minutos ou de roer as unhas, isto demonstra que há um desconforto físico invisível, e o samskara ativa um comportamento automático para anestesiar essa sensação.
3 . Numa vertente espiritual e psicológica podemos considerar que no budismo e no hinduísmo, os samskara são os tijolos que constroem a nossa personalidade e o nosso destino, podemos dizer o nosso Karma, em que esses tijolos são as forças motrizes por detrás do porquê de gostarmos de certas coisas e odiarmos outras sem saber bem porquê.
Espiritualmente, são consideradas as amarras do ego, em que nós não vemos o mundo como ele é e vemos o mundo através do filtro dos nossos samskara, e por exemplo quando acumulamos samskara de medo na infância, o mundo parecerá hoje um lugar hostil.
4 . A Linha do Tempo Histórica dos Samskaras
Cada uma das filosofias começou a abordar este conceito em épocas diferentes da história da humanidade.
Linha do tempo dos Samskaras
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1500–1000 a.C. |
500 a.C. |
400 d.C. |
. 500–800 d.C |
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Vedas / Ayurveda |
Vipassana |
Yoga Sutras |
Tantra |
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Primeiras menções como rituais e impressões. |
Buda Gautama usa "Sankhara no Budismo |
Patanjali define Samskaras como impressões latentes |
Alquimia mental e transmutação das energias |
Na Medicina Ayurveda (Raízes nos Vedas: c. 1500 – 1000 a.C.)
Esta é a abordagem mais antiga e o termo aparece originalmente nos textos sagrados mais antigos da Índia, os Vedas. No contexto médico do Ayurveda que foi consolidado mais tarde nos textos Charaka Samhita por volta de 400a.C.,samskara significava "refinamento" ou "processamento", e aplicava-se tanto ao ato de transformar uma planta venenosa num remédio através do fogo (mudar o samskara da planta) e o mesmo acontece quanto às impressões mentais que alteravam a saúde do nosso corpo físico.
Na Meditação Vipassana (Budismo Theravada: c. 500 a.C.)
No século V a.C., Gautama o Buda revolucionou o termo ao usar a palavra em Pali "Sankhara" como um dos pilares centrais do seu ensinamento. Buda colocou o conceito no âmago da psicologia humana e no seu discurso sobre a Origem Dependente (Paticcasamuppada), em que explicou que a ignorância gera os samskaras, e os samskaras geram todo o sofrimento do ciclo de renascimentos (Samsara). (conslte mais aqui sobre sofrimento )
O Vipassana nasceu nesta altura como a ferramenta técnica exata para os erradicar.
Nota histórica: Alguns séculos mais tarde 400 d.C., o sábio Patanjali escreveu os Yoga Sutras, onde codificou os samskaras para a tradição do Yoga clássico de uma forma muito semelhante à do Budismo, explicando como estas impressões latentes controlam a nossa mente agitada.
No Tantra (Tantra Hindu e Budista: c. 500 – 800 d.C.)
O movimento tántrico floresceu no período medieval da Índia, ganhando enorme força a partir do século VI d.C. O Tantra surgiu como uma reação às correntes anteriores que viam o mundo e os desejos como algo puramente perigoso que devia ser evitado. Os mestres tántricos dessa época aceitaram a existência dos samskaras (as amarras), mas propuseram que, em vez de passar a vida a tentar extingui-los pelo ascetismo, deviamos usar rituais, mantras e a energia do nosso próprio corpo para colapsar essas estruturas através de uma velocidade mais acelerada.
Cada filosofia, à sua época, ofereceu uma chave diferente para resolver o mesmo enigma de como é que o ser humano se pode libertar das correntes invisíveis do seu próprio passado.
5 . Como se adquirem os samskara?
Nós criamos samskara a cada segundo através de um ciclo de quatro passos na nossa mente, que não têm ordem e podem surgir aleatoriamente:
A Consciência (Vinnana) que podemos considerar como através da qual um estímulo entra, como por exemplo um som, um pensamento ou até mesmo uma imagem.
A Perceção (Sanna) aqui considero como é que a mente reconhece o estímulo e o avalia como bom ou mau com base em todas as experiências tidas no passado.
A Sensação (Vedana) aqui verificamos como o corpo reage a uma sensação física como por exemplo calor, aperto, comichão, fluxo agradável, etc..
A Reação (Sankhara) é aqui que nasce o samskara que quando consideramos como uma sensação boa vamos reagir com desejo e obviamente vamos querer mais e ao mesmo tempo se a sensação for má, iremos reagir com aversão e automaticamente queremos evitar e queremos que acabe.
Cada vez que reagimos com desejo ou aversão, “escrevemos" um novo samskara na mente, se a nossa reação for muito forte como por exemplo um ataque de raiva ou um trauma, o sulco torna-se uma cicatriz profunda na psique.
6. Como dissolver os samskara?
A beleza destas filosofias é que aquilo que foi programado pode ser desprogramado e vou aqui descrever três vertentes mais antigas e uma debatida mais recentemente de modo a percebermos como abordo e explicar a dissolução destas marcas ou destes vincos:
A. Através da Meditação (Vipassana)
Eu pessoalmente considero qua a meditação em geral e especialmente a meditação Vipassana é uma cirurgia psíquica para remover os samskaras.
Neste caso vamo-nos sentar em silêncio e vamos observa as sensações do corpo com equanimidade isto quer dizer sem julgar, sem desejar que a dor passe, sem se apegar ao prazer, sem manifestar quando a dor aparece.
Com esta prática o que procuramos fazer é dissolver tudo pois quando uma dor nas costas surge e nós reagimos com aversão, o ciclo quebra-se e com isto o samskara antigo da raiva ou da impaciência vem à superfície do corpo na forma dessa dor para ser erradicado. Como nós não lhe damos "combustível" a essa nova reação, logo esse samskara antigo esgota-se e dissolve-se para sempre. É a lei da impermanência (Anicca) em ação.
B. Através do Ayurveda
No Ayurveda, os samskara mentais manifestam-se fisicamente como Toxinas (Ama) nos tecidos do corpo (Dhatus) e com isto vai bloquear os nossos canais energéticos (Srotas).
Neste caso a Medicina Ayurvedica propõe a sua dissolução limpando o "recipiente" físico onde a mente habita. Isto é feito através do Panchakarma que considero como uma desintoxicação profunda com óleos medicados ou mesmo terapias ayurvédicas como a Abhyanga ou através da utilização de fluxos de óleo na testa como o Shirodhara.
Com a utilização destas técnicas o que se propõe é o amolecer os tecidos com óleos quentes e purificar o nosso sistema digestivo, o Ayurveda liberta as memórias traumáticas guardadas nas células. É muito comum as pessoas se ausentarem, chorarem ou terem revelações emocionais durante uma terapia ayurvédica, e isto acontece porque os samskara físicos estão a ser expelidos e dissolvidos.
C. Através do Tantra
O Tantra não tenta esgotar o samskara pela neutralidade (como o Vipassana), nem apenas limpar o corpo (como o Ayurveda). O Tantra usa a Intensidade e a Devoção.
No tantra utilizam-se os Mantras que são sons sagrados que reprogramam as frequências da nossa mente, os Yantras que representam uma geometria sagrada para focar o inconsciente, os Pranayamas em que os exercícios de respiração ajudam e auxiliam o mover dos fluxos e da energia Kundalini e também em alguns casos podem ser utilizadas terapias como por exemplo a tantra head massage( massagem tântrica á cabeça). Como foi descrito atrás no Ayurveda com esta terapia acontece a mesma coisa o de limpar o "recipiente" físico onde a mente habita.
Considero que o Tantra eleva a nossa energia vital, o nosso Prana através dos Chakras e quando o fogo da Kundalini sobe, ele vai atuar como um feixe de laser que "queima" as sementes dos karmas e samskara bloqueados nos centros energéticos, transformando a energia densa como o medo ou a luxúria em consciência pura.
D. Numa abordagem mais recente considero aqui que a Psicologia Transpessoal e o Trabalho de Sombra (Shadow Work) são exemplos que podemos considerar que auxiliam na remoção dos nossos samskaras.
Se trouxermos este conceito para a modernidade ocidental, os samskara equivalem ao que Carl Jung designa por "Complexos do Inconsciente" ou a nossa Sombra.
Propõe-se a dissolução dos Samskaras através da autoanálise e da psicoterapia somática que define a união da mente e corpo. Em vez de ignorar os seus gatilhos emocionais, devemos investiga-los e traze-los para o reconhecimento deles de uma forma consciente: "Porque é que aquela atitude daquela pessoa me irrita tanto? Que ferida antiga ou que samskara em mim está a ser tocada?". Ao trazer as coisas da escuridão do inconsciente para a luz da consciência vamos procurar dissolver todos os nossos padrões que naturalmente se manifestam sempre de uma forma automática.
Para dissolver todas estas ranhuras da mente, em primeiro lugar temos de as reconhecer, mas considero que o mais importante é poder escolher o nosso caminho ou mesmo combinar de entre os diferentes caminhos:
Se quer treinar e evoluir através da não-reação e da sua estabilidade mental aqui deve trabalhar com a meditação Vipassana.
Se sente que o corpo físico está pesado e carrega traumas biológicos, neste caso deve ser acompanhada através da Medicina Ayurvédica.
Se quer alterar ou mesmo transmutar toda a sua energia estagnada aqui pode ser através da respiração e do som ou até mesmo da terapia neste caso deve ser acompanhada através do Tantra.
7. Como percebemos que nos libertámos de um Samskara?
A libertação de um samskara não é um conceito abstrato, ela é sentida de forma muito real e tangível no corpo e na mente e se estivermos com atenção percebemos que nos libertámos quando:
A. O Gatilho Perde o Poder - O teste da realidade
Um evento externo acontece exatamente igual, mas a sua reação interna mudou completamente. Isto quer dizer que as coisas mudaram ou por exemplo quando a mesma pessoa nos deixa "em espera" no telemóvel durante muito tempo aqui podemos observar e regista o facto de que o batimento cardíaco continua calmo, o estômago não aperta e existe um espaço de silêncio entre o que aconteceu e a sua resposta. Aqui vamos perceber com um lindo sorriso interior e afirmar que "Isto já não me domina" o que quer dizer que esse sulco no vinil foi apagado.
B. Sensação de Leveza Física e Alívio
Como o Ayurveda e o Vipassana explicam, os samskaras estão condensados no nosso corpo e quando um deles se dissolve, seja a chorar numa meditação, a tremer num processo tántrico ou após uma purificação, a sensação física imediata é de que um peso físico foi tirado das suas costas, do meu peito ou do seu corpo e aí a nossa respiração torna-se mais profunda e fluida.
C. Mudança de Narrativa Interna
A voz autocrítica ou a vitimização desaparecem e em vez de pensar "Toda a gente me rejeita", “eu sou uma porcaria” Não faço nada direito” a mente processa a realidade de forma neutra: "Aquela pessoa, especificamente, não pôde responder agora", “nesta altura isto não correu bem” e com isto vamos corrigindo e mudando a nossa “cassete” e a nossa narrativa interna.
8 . Os 16 Samskaras do hinduísmo
Vou agora descrever os 16 Samskaras do Hinduismo, que posteriormente farei um artigo sobre estes 16 Samskaras
Samskaras pré-natais
1 . Garbhadan (Concepção)
2 . Pumsavana (interferindo com uma questão masculina)
3 . Simantonayana (Partituição de cabelo)
Samskaras da Infância
4 . Jatakarma (rituais de nascimento)
5 . Namakarana (Dança de nome)
6 . Nishkrama (Primeiro passeio)
7. Annaprashana (Primeira alimentação)
8. Chudakarma ou Chaul (cortar o cabelo)
9. Karnavedh (O furar das orelhas)
Samskaras Educacionais
10. Vidyarambha (Aprender o alfabeto)
11. Upanayana (Iniciação de fio Sagrado)
12. Vedarambha (Início do estudo védico)
13. Keshant (Godaan) (Desfazer a barba)
14. Samavartan (Fim da formação académica)
Samskara do Casamento
15. Vivaha (Cerimônia de Casamento)
Morte Samskara
16. Antyeshti (ritos da morte)
Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.
"Bhavatu Sabba Mangalam"
Shanti, Shanti, Shanti
