quinta-feira, 28 de maio de 2026

Svastha

 

Instituto de Medicina Ayurvédica

Cada vez mais me apetece mergulhar a fundo nas palavras e nos conceitos e neste caso vou falar de Svastha ou também designada por Swastha. Esta é, sem dúvida, uma das palavras mais bonitas, profundas e importantes de toda a tradição védica.

A nível etimológico, Svastha divide-se em duas raízes do sânscrito, “Sva” que significa o Eu, a nossa própria essência, a Alma (Atma)  e “Stha” que é definido como o estabelecido, o enraizado ou o que permanece.

Portanto, Svastha significa literalmente "estabelecido no próprio Ser" ou “o que permanece no próprio ser”. Não se trata de um estado de saúde que geramos ao "fazer coisas" para fora, mas sim do estado natural que emerge quando paramos de fugir de nós mesmo.

Vou analisar a sua importância na medicina ayurvédica, na espiritualidade e como trazemos isto até nós através das rotinas diárias.

 

1. A Importância de Svastha na Medicina Ayurvédica

Na medicina ocidental moderna, a saúde é muitas vezes definida pela ausência de doença (se as análises clínicas estão normais é porque estamos "saudáveis"). Na Medicina Ayurvedica, isso é apenas o patamar mínimo. Sushruta, um dos pais da Ayurveda, definiu o que é uma pessoa Svastha num dos versos mais célebres da medicina Ayurvédica:

"Aquele cujos Doshas (energias biológicas) estão em equilíbrio, cujo Agni (fogo digestivo) é bom, cujos Dhatus (tecidos corporais) e Malas (eliminações) funcionam normalmente, e cujos sentidos, mente e alma estão cheios de bem-estar e contentamento, esse é chamado de Svastha (saudável)."

Podemos aqui ver a genialidade desta frase e ao mesmo tempo considerar que a Medicina Ayurveda diz que nós podemos ter o corpo físico perfeito, mas se a nossa mente e a nossa alma não estiverem em contentamento (Prasanna), então de certeza que não estamos saudáveis. A medicina ayurvédica não trata os sintomas, ela cria as condições biológicas para que nos possamos restabelecer com o nosso centro e nesta perspetiva podemos considerar que a doença (Vyadhi) é vista apenas como um desvio, um momento em que nos esquecemos de quem somos e nos "descentramos".

 

2. A Importância de Svastha na Espiritualidade

Espiritualmente, Svastha é a ponte entre a saúde do corpo e a iluminação (Moksha).

Se estamos constantemente identificados com os nossos pensamentos, com os dramas do ego, ou com as flutuações do mundo exterior (o que o Tantra chama de ilusão de Maya), aqui nós estamos em Asvastha que significa que estamos descentrados ou desconectados.

Quando estamos enraizados no nosso Ser (Svastha), transforma-se numa testemunha silenciosa (Sakshi) da nossa própria vida. As emoções como a raiva, o medo ou a tristeza continuam a passar por nós, mas já não nos definem, pois cada um de nós passará a ser o oceano enorme e profundo, em que as emoções são apenas umas pequenas agitações e ondas na superfície. Com esta referência vamos encontrar a nossa derradeira liberdade espiritual, em que a nossa paz já não depende de como está o mundo exterior se está calmo ou caótico e nós seremos a nossa própria casa.

 

3. Svastha no Dia a Dia: A Ligação com as Rotinas Ayurvédicas (Dinacharya)

Aqui vos deixo um ponto mais prático e transformador e a pergunta é sempre a mesma, como é que nos podemos estabelecer connosco próprios no meio da correria do dia a dia em que não tenho tempo para nada e estou sempre cansada? A resposta da Ayurveda é Dinacharya, a rotina diária. Longe de ser um conjunto de regras rígidas e aborrecidas, podemos considerar que Dinacharya é um ritual muito importante que por vezes até digo que é sagrado no nosso processo de enraizamento e ancoragem. Cada prática serve para lembrar o nosso corpo e a nossa mente que estamos aqui, presentes. Podemos então ver de como é que os hábitos matinais ligam o nosso corpo diretamente a Svastha. Vou aqui descrever apenas algumas das práticas ou melhor as essenciais para nos mantermos Svastha.

Acordar no Brahma Muhurta (45 minutos antes do nascer do sol)

É o momento em que a energia do ambiente está mais pura e como designamos no Ayurveda mais Sattvica. Acordar a esta hora permite-nos uma sintonização e conexão com o silêncio do Universo antes que o barulho do mundo exterior comece, este é o momento perfeito para nos estabeleceres connosco próprio mesmo antes de " darmos" a nossa energia ao trabalho ou aos outros.

Limpar a Língua (Jihwa Dhauta) e Escovar os Dentes

Fisicamente, remove as toxinas (Ama) acumuladas durante a noite e energeticamente, limpa o nosso canal de expressão e é como se estivéssemos a dizer para nós mesmo “eu purifico a minha capacidade de digerir a vida e de comunicar a minha verdade e a minha essência".

Auto-massagem com Óleo Quente (Abhyanga)

Esta é, talvez, a prática mais Svastha de todas em que ao passar óleo no próprio corpo com presença e sentido é um ato de amor-próprio extremamente importante. O óleo cria uma barreira protetora tanto física como energética ao redor do nosso sistema nervoso. Em sânscrito, a palavra para óleo é Sneha, que também significa amor e ao fazermos em nós uma Abhyanga significa literalmente, cobrirmo-nos de amor, estabelecendo os limites do nosso próprio espaço sagrado face ao exterior.

Meditação e Pranayama (Exercícios respiratórios)

Aqui fechamos o circuito pois depois de limpar e cuidar do corpo, vamos sentar-nos em silêncio. A respiração e o pranayama vai conectar o nosso corpo denso com a nossa mente subtil. É o momento exato em que assumimos que não somos o ruido que está lá fora, somos o espaço consciente que existe dentro de nós.

 

Quando uma rotina (Dinacharya) não é feita o que vai acontecer é que não vamos ter tempo para nada, acordamos a correr, tomamos banho rápido pois não temos tempo, a seguir olhamos para o telemóvel, reagimos aos e-mails e "saímos" rapidamente de nós logo nos primeiros 5 minutos do dia. Passamos o dia a viver a partir do exterior.

Com a rotina é definida e orientada para Svastha, nós vamos rapidamente criando um eixo e quando saímos de casa para trabalhar ou interagir com os nossos relacionamentos, já não vamos à procura de nós ou de nos encontrarmos com o mundo; nós já levamos o nosso Ser e a nossa identidade para o mundo.

Com esta descrição penso que consegue perceber como estas pequenas rotinas, que parecem apenas higiene ou saúde física, mudam completamente a nossa  postura interna perante a vida? 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti

 


quarta-feira, 27 de maio de 2026

A importância das frases de hoje


A forma como hoje usamos a linguagem não é apenas um detalhe gramatical, ela reflete exatamente onde colocamos o nosso poder pessoal e a nossa agência espiritual.

Quando dizemos "a música cura-me", estamos, inconscientemente, a colocar o papel de "médico" ou "salvador" num objeto externo. Quando mudamos para "eu curo-me através do som", ou "eu curo-me através da meditação " assumimos o papel de protagonistas da nossa própria transformação e ao mesmo tempo integrando-nos nela

Vou aqui falar um pouco sobre esta subtil, mas ao mesmo tempo enorme diferença sob diferentes perspetivas 

1. A Perspetiva Ayurvédica (O Despertar do Svastha)

Na Ayurveda, saúde não é apenas a ausência de doença, mas sim um estado chamado Svastha ou Swastha que literalmente significa "estabelecido no próprio Ser" ou "estar conectado em nós mesmo".

Se assumimos que a meditação ou uma planta medicinal me "cura" de forma passiva, estamos a tratar a espiritualidade como se fosse um paracetamol. A isto podemos designar como sendo um erro de passividade.

Se o nosso corpo e a nossa mente têm uma inteligência intrínseca (Prana). A música, as plantas ou a meditação não fazem o trabalho por nós; elas são apenas ferramentas (Upayanas) que removem os bloqueios (Ama) para que a nossa própria natureza curativa possa atuar. Dizer "eu curo-me através de..." ativa o nosso fogo digestivo mental (Agni), permitindo-nos metabolizar essa experiência.

2. A Perspetiva Tântrica (A Consciência de Shakti)

O Tantra que na sua essência filosófica e não-dual é a via do empoderamento absoluto, em que o princípio básico é que nós já somos o Todo, já somos o divino, e já temos dentro de nós essa energia cósmica (Shakti).

Dizer que "a música cura-me" cria uma dualidade, considerando a relação entre o eu doente e incompleto e a música como a perfeita e a curadora e a isto designamos como sendo a ilusão da separação (Maya)

O som considerado ou designado como Nada Brahma não vem de fora para nos consertar ou curar, a música exterior apenas vai expandir e ampliar a vibração que já existe dentro de nós. Ao dizermos "eu sou curado pelo som", vamos conectarmo-nos e reconhecer como o próprio espaço onde a cura acontece, onde a música é o espelho e nós somos a face que se reflete nele. Nós não somos um copo vazio a ser preenchido, nós somos o próprio oceano.

3. O Impacto desta expressão em nós (A nível vibracional e psicológico)

Consideramos que a palavra é Mantra e ao mesmo tempo ela cria uma realidade. Quando a linguagem coloca o poder fora de nós, geramos um impacto profundo no nosso campo energético e com isto podemos criar quer uma dependência espiritual em que se a música me cura, o que acontece quando estou em silêncio? Neste caso vou ficar desamparado e vai gerar em mim uma ansiedade subtil e uma procura incessante por "ferramentas de cura" externas (cristais, incensos, gurus, playlists, etc ). Outra consideração é a de uma desconexão do nosso altar interior que ao passar a cura para um segundo plano vamos enfraquecer o nosso "músculo" da auto-observação, deixando por isso de escutar o nosso curador interno. Mas também podemos considerar um alinhamento correto quando afirmamos "Eu curo-me através da meditação", a nossa mente vai entender que "Eu sou o curador, a meditação é o meu bisturi". O mérito, a responsabilidade e a transformação real pertencem a nós mesmo e que todas as ferramentas exteriores são a chave, mas a porta e o tesouro que está lá dentro são inteiramente nossos. 

É fascinante ver como este mesmo padrão de "passar para um segundo plano o nosso poder" se repete de forma idêntica nos relacionamentos e no trabalho. Quando colocamos a nossa felicidade, a validação ou a cura nas mãos de um parceiro ou de uma carreira, caímos exatamente na mesma armadilha espiritual.

4. Nos relacionamentos: Da frase  "Tu fazes-me feliz" a "Eu divido a minha plenitude contigo"

A nível mundano, fomos programados pela cultura do amor romântico a acreditar na metade da laranja. Expressões como "Ele/a completa-me" ou "Tu fazes-me feliz" são o equivalente amoroso da afirmação "A música cura-me".

Na Ayurveda, a saúde emocional depende de estarmos centrados no nosso próprio Svastha (estar conectado connosco mesmo) e quando dizemos que o outro nos faz felizes, estamos a dar-lhe o controlo do nosso estado interno. Se o outro está instável (com o Vata ou Pitta desalinhados), nós vamos desestabilizar-mo-nos imediatamente. O relacionamento ideal ayurvédico é como dois ecossistemas saudáveis que se apoiam, e não um parasitando a energia do outro.

No Tantra, o relacionamento exterior é apenas um espelho da união sagrada que deve acontecer dentro de nós (entre a nossa energia masculina de presença, Shiva, e a nossa energia feminina de fluxo, da criação, Shakti).

Quando afirmamos "O meu parceiro cura as minhas feridas de rejeição", estamos na ilusão, pois o parceiro não cura nada, ele funciona como um gatilho (Nimitta) que traz à superfície o que precisamos de ver. O relacionamento é o laboratório, mas quem transmuta a energia somos nós. O outro não nos preenche, ele apenas acorda a plenitude que já habita em nós.

5. No Trabalho: Da frase "O meu emprego define-me" a "Eu expresso o meu Dhamma através do trabalho"

No mundo profissional, a armadilha é depositar o nosso valor próprio no cargo, no salário ou no reconhecimento da chefia. As frases como "Este trabalho realiza-me" ou "O meu chefe não me valoriza" colocam o nosso fogo interno (Agni) dependente do exterior.

Na perspetiva Ayurvédica Dhamma é o nosso propósito cósmico, a nossa verdadeira natureza em ação. O nosso Dhamma não é o nosso emprego. O emprego é apenas o canal atual e se dizemos "O meu trabalho realiza-me", o dia em que fores despedido ou a empresa mudar, a tua identidade desmorona-se. Na visão ayurvédica, nós realizamo-nos a nós mesmo quando colocamos a nossa essência em tudo o que fazemos, quer estejamos a lavar pratos ou a liderar uma multinacional. O trabalho não nos dá valor, nós é que emprestamos o nosso valor ao trabalho.

Na perspetiva Tântrica Spanda é a vibração ou a pulsação divina da criação e considero que o trabalho deve ser uma expressão dessa pulsação, uma oferenda (Seva) da nossa energia criativa ao mundo. Se trabalhamos à espera que o exterior nos valide, estamos a contrair a nossa energia, mas quando assumimos que "Eu expresso a minha mestria através deste projeto", aqui assumimos o nosso papel de criador (da nossa própria Shakti). O sucesso ou o falhanço do projeto já não definem quem nós somos, porque a nossa consciência permanece intocável.

O impacto prático desta mudança de Chip

Quando deixamos de dizer "isto faz-me" e passamos a dizer "eu transformo-me através disto", acontece uma profunda viragem e mudança de chave:

 

Padrão Antigo (Dependência Externa)

Padrão Novo (Autorresponsabilidade)

"O meu parceiro stressa-me."

"Eu sinto-me stressado perante esta atitude e escolho recolher-me."

"Este emprego suga a minha energia."

"Eu estou a gerir mal os meus limites dentro deste ambiente de trabalho."

"Se eles mudassem, eu seria feliz."

"Eu mudo a minha postura interna para proteger a minha paz."

 

Para aumentar e potencializar a nossa verdade espiritual, podemos afirmar que nem o amor de outra pessoa nos pode salvar, nem o pior dos trabalhos nos pode destruir, a menos que nós próprios dermos a permissão para que o exterior dite as regras do nosso templo interno.

 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti