sexta-feira, 3 de julho de 2026

Os órgãos e as emoções

    

Instituto de Medicina Ayurvédica   Instituto de Medicina Ayurvédica


Os órgãos e as emoções numa perspetiva ayurvédica, tantrica e espiritual 

É fascinante fazer o cruzamento de várias áreas e várias visões, pois tanto o Ayurveda quanto o Tantra partem do princípio de que o corpo físico (Annamaya Kosha) e o corpo energético/emocional (Pranamaya Kosha) estão intimamente interligados através dos Chakras (centros de energia) e dos Doshas (constituições biológicas).

Nesta perspetiva espiritual e terapêutica, os órgãos não são apenas bombas ou filtros mecânicos, eles são os recipientes somáticos das nossas experiências cósmicas e terrenas. Quando uma emoção não é processada, ela "ganha morada" num órgão específico.

Abaixo, apresento a relação destas emoções com os respetivos órgãos e o seu impacto energético:

1. O fígado e a vesícula biliar (elemento fogo / pitta dosha)

Estes órgãos regem o metabolismo da mente e do corpo. Quando o fogo está equilibrado, transforma-se em discernimento, mas quando está bloqueado, consome o indivíduo.

- Raiva, Frustração e Ressentimento:

O fígado é o grande armazém da raiva e do ressentimento acumulado. A frustração estagna a energia (Prana), gerando calor excessivo e azedume mental.

- Energia:

O fígado limpo e equilibrado é a central elétrica do corpo, gerando vitalidade e dinamismo para agir no mundo.

2. Os rins e bexiga (elemento água / vata dosha)

Ligados ao primeiro e segundo chakras (Muladhara e Svadhisthana), os rins guardam a nossa energia vital ancestral (Ojas/Prana) e as nossas fundações de sobrevivência.

- Medo e Insegurança:

O medo drena diretamente a energia dos rins. A insegurança profunda congela a nossa capacidade de fluir pela vida (água), gerando rigidez física e fobias.

- Dificuldade de se libertar:

Como a bexiga e os rins controlam a eliminação dos líquidos, o apego emocional e o medo do desconhecido manifestam-se como uma retenção energética nestes órgãos.

3. Os pulmões e intestino grosso (elemento ar/espaço)

Relacionados com a capacidade de receber a vida (inspirar) e de deixar ir o que já não serve (expirar/eliminar), tocando o Chakra Cardíaco e o Plexo Solar.

- Tristeza e Mágoa:

A tristeza profunda e a mágoa não chorada alojam-se nos pulmões, contraindo o peito e limitando a nossa força vital. O pulmão sofre com a perda e o luto.

- Dificuldade de expressar experiências:

Se os pulmões e a garganta estão bloqueados por mágoas, a pessoa engole as suas verdades, sufocando a sua expressão espiritual.

- Dificuldade de se libertar (Intestino Grosso):

O intestino grosso reflete a nossa capacidade de desapego. Reter ressentimentos ou memórias do passado gera a obstipação física e emocional. 

4. O coração e o intestino delgado (elemento fogo / chakra cardíaco)

O coração (Hridaya) é a morada do Atman (a Alma) no Tantra e no Ayurveda sendo considerado como o centro alquímico do ser.

- Amor e Alegria:

São os combustíveis naturais do coração, e a alegria pura expande o peito e nutre o sangue.

- Surpresa:

Quando positiva, a surpresa abre o coração para o misticismo e para a impermanência da vida. No entanto, se for um choque profundo, pode abalar o ritmo cardíaco e dispersar a mente. 

5. O estômago, baço e pâncreas (elemento terra/fogo / plexo solar)

Responsáveis pela digestão tanto, dos alimentos como das experiências da vida.

- Preocupação e Ansiedade:

O excesso de pensamentos e a ruminação mental (preocupações) enfraquecem o baço e o estômago. A ansiedade foca-se no Plexo Solar, gerando nós no estômago, impedindo a "digestão" e a alteração da realidade.

- Nojo:

O nojo ou a aversão visceral começam no estômago, funcionando como uma rejeição imediata (física ou kármica) a algo que o ser recusa integrar.

6. As sensações e emoções no tecido reprodutivo

Por ser o tecido mais refinado, ele é extremamente sensível ao nosso estado mental e vibracional.

- Sensações que o alteram/desgastam (bloqueio): culpa, vergonha e medo:

Sendo regido pelo segundo chakra (Svadhisthana), o medo da intimidade, a culpa sexual ou traumas passados contraem os canais (Srotas), bloqueando a livre circulação da energia criativa e o enfraquecimento do tecido.

- Luxúria cega ou obsessão:

A busca por prazer puramente mecânica e sem conexão espiritual dissipa e "gasta" o Shukra/Artava, esgotando a nossa vitalidade (Ojas).

- Sensações que o Transformam/Nutrem (Fluidez):

- Êxtase (ananda), amor devocional (bhakti) e intimidade sagrada: Quando a sexualidade é vivida com reverência (Tantra), o tecido reprodutivo refina-se. Ele deixa de ser apenas um fluido físico e transmuta-se em energia espiritual pura, que sobe pela coluna vertebral, nutrindo o cérebro e expandindo a consciência.

A Visão Tântrica da Cura:

Para o Tantra, nenhuma destas emoções é "pecado" ou deve ser reprimida. A raiva, o medo ou a tristeza são apenas energia pura em frequências diferentes. Ao trazer o seu Sankalpa e a sua atenção meditativa para estes órgãos durante as práticas diárias, não destruímos as emoções, podemos transmutar o medo em amor, e a frustração em pura energia de transformação.

Na medicina ayurvédica, os tecidos reprodutivos são conhecidos como Shukra Dhatu (nos homens, associado ao esperma/energia seminal) e Artava Dhatu (nas mulheres, associado aos óvulos/tecido menstrual). Eles não são apenas tecidos físicos, são o sétimo e mais refinado tecido do corpo, o culminar de toda a nutrição que ingerimos.

Espiritualmente, este tecido é a ponte direta para Ojas (a nossa reserva de imunidade, radiância e força espiritual) e para a manifestação de Kundalini Shakti (a energia cósmica adormecida).

 

Não especifiquei o elemento no tecido reprodutivo pois tem de ter outra abordagem para que se possa entender melhor. No Ayurveda e no Tantra, a resposta para os elementos associados ao tecido reprodutivo é profundamente bonita e revela uma perfeita dança de polaridades cósmicas (Shiva e Shakti).

-  O Tecido Reprodutivo Masculino (Shukra Dhatu / Semen e Esperma)

O elemento predominante: Água (Jala)

A natureza (Virya): Saumya (derivado de Soma, a Lua) (Sheeta - Fria, nutritiva, lubrificante e passiva).

A visão espiritual: Representa a energia de Shiva, a pura consciência, a estabilidade e a essência subtil que retém a vida.

-  O Tecido Reprodutivo Feminino (Artava / Shonita Dhatu / Óvulo e Fluido Menstrual)

O elemento predominante: Fogo (Agni)

A natureza (Virya): Agneya (derivado de Agni, o Fogo/Sol) (Ushna - Quente, transformadora, dinâmica e ativa).

A visão espiritual: Representa a energia de Shakti, o poder da criação, a força telúrica, o sangue sagrado que tem o poder de limpar e gerar a própria matéria.

 

No Tantra, a união sagrada (Maithuna) ou a união interna destas energias através do Yoga é a união alquímico perfeito entre o Fogo (Shakti/Mulher) e a Água (Shiva/Homem), gerando o equilíbrio que desperta a Consciência Superior.

No Tantra, o tecido reprodutivo é considerado como o combustível do nosso laboratório espiritual. Quando usamos o nosso Sankalpa matinal e direcionas a nossa mente para o amor e para a paz, estamos literalmente a impedir o desperdício deste tecido precioso, transformando-o em radiância e luz mental (Tejas). 

Tabela completa da relação entre os órgãos, as emoções e a perspetiva espiritual do Ayurveda e do Tantra:

Complexo de Órgãos

Emoções Desafiadoras (Bloqueio)

Emoções Positivas / Virtudes (Fluidez)

Perspetiva Espiritual (Ayurveda/Tantra)

Fígado e Vesícula Biliar

(Elemento Fogo / Pitta)

Raiva, Frustração, Ressentimento

Energia, Dinamismo, Discernimento

É a central de transformação. A raiva estagnada queima o órgão, mas quando alquimizada transforma-se em determinação e força de ação (Shakti).

Rins e Bexiga



(Elemento Água / Vata)

Medo, Insegurança, Dificuldade de se libertar

Confiança, Fluidez, Coragem

Guardam a energia vital ancestral (Ojas). O medo congela a água interna, enquanto a entrega espiritual permite fluir com o fluxo da vida.

Pulmões e Intestino Grosso



(Elemento Ar e Espaço)

Tristeza, Mágoa, Dificuldade de expressar experiências, Dificuldade de se libertar

Desapego, Inspiração, Aceitação

Os pulmões lidam com o luto e a expressão do Ser. O intestino grosso retém o que já devia ter sido libertado (apego ao passado).

Coração e Intestino Delgado



(Elemento Fogo / Chakra Anahata)

Choque (por Surpresa negativa), Ansiedade por agitação

Amor, Alegria, Surpresa (encantamento)

O coração (Hridaya) é o templo do Atman (a Alma). A alegria e o amor expandem o campo magnético do ser, enquanto o fecho gera isolamento espiritual.

Tecidos Reprodutivos



(Shukra e Artava Dhatu / Água e Espaço)

Culpa, Vergonha, Medo da intimidade, Obsessão

Êxtase (Ananda), Conexão, Amor Devocional

É a raiz da energia vital. Na visão Tântrica, a união e o prazer sagrado transcendem a procriação física, transmutando a energia sexual na força espiritual mais elevada do ser (Ojas).

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Sankalpa - A semente plantada no nosso corpo

 

Sankalpa (do sânscrito: San, que significa "uma ligação com a verdade mais elevada", e Kalpa, que significa "voto" ou "compromisso") é muito mais do que uma simples "promessa de Ano Novo", é uma intenção profunda, uma semente que plantamos no solo da nossa consciência para alinhar a nossa vida com o nosso propósito maior (Dharma).

Para compreender toda a sua dimensão, vou analisar a sua importância através de duas perspetivas: pelas práticas tradicionais e pelos três níveis da nossa existência e também da sua aplicabilidade nas nossas rotinas diárias 

1. A Importância do Sankalpa nas Práticas Tradicionais

No Yoga

 No Yoga clássico, o Sankalpa não é apenas um desejo egoico (como "quero um carro novo"), mas sim uma declaração que reflete a nossa verdadeira natureza. Ele é a força motriz que direciona a nossa prática, e quando fazemos uma postura (asana) ou um exercício de respiração (pranayama), o Sankalpa dá uma direção sagrada à energia direcionada pelo corpo, transformando o exercício físico num ato de transcendência.

Na Meditação (e Yoga Nidra)

É no Yoga Nidra (o relaxamento psíquico profundo) e na meditação que o Sankalpa encontra o seu terreno mais fértil.

- Quando estamos em estados profundos de relaxamento, as ondas cerebrais desaceleram (entrando em estado Alpha ou Theta).

- Nesse estado, a mente consciente (e o seu filtro crítico/negativo) relaxa, abrindo as portas do subconsciente.

- Plantar o Sankalpa aqui é como colocar uma semente na terra adubada que vai contornar todos os elementos autossabotadores e começar a reescrever os nossos padrões mentais (samskaras). 

No Ayurveda

Na Medicina Ayurvedica, a saúde não é apenas a ausência de doença, mas o estado de equilíbrio perfeito entre corpo, mente e espírito (Svastha) e aqui o Sankalpa atua como o nosso foco mental necessário para a cura. Para mudar hábitos alimentares, rotinas diárias (Dinacharya) ou superar vícios, a força de vontade comum falha frequentemente. O Sankalpa fortalece o Buddhi (o intelecto superior e o discernimento), dando a cada um de nós a determinação amorosa para fazer escolhas que promovem a vida e o equilíbrio dos Doshas.

2. O impacto do sankalpa nos três níveis de existência 

A nível físico

Embora seja uma intenção mental, o Sankalpa manifesta-se densamente no nosso corpo através da neuroplasticidade, que ao repetir uma intenção positiva e um estado de relaxamento, criamos novas vias neuronais no cérebro. Por outro lado, vai produzir uma redução do stress, pois um Sankalpa focado na paz ou na saúde ativa o nosso sistema nervoso parassimpático, reduzindo o cortisol e a adrenalina. O corpo físico reage relaxando as tensões crónicas e vai melhorar o nosso sistema imunitário.

À Nível Mental

A nossa mente (Manas) é muitas vezes caótica, saltando de pensamento em pensamento, e o Sankalpa vai funcionar como uma âncora ou uma bússola. Sempre que a mente entra em loops de ansiedade, dúvida ou autocrítica, o Sankalpa surge para unificar a nossa mente dispersa substituindo os nossos diálogos internos destrutivos por uma afirmação de força e contentamento (Santosha).

À Nível Espiritual

Este é o propósito mais elevado do Sankalpa, pois espiritualmente, ele assume que nós já somos perfeitos e completos, e que a nossa intenção serve apenas para dissolver os véus que nos impedem de ver isso. Ele conecta a nossa vontade individual com a vontade universal e um Sankalpa espiritual não pede algo que nos faz falta, ele afirma uma verdade eterna (ex: "A paz é a minha verdadeira natureza", em vez de "Eu quero ter paz").

3. Como podemos então formular um Sankalpa eficaz?

Para que ele funcione plenamente nestes pilares todos, deve ser uma frase curta, formulada no presente (como se já fosse real) e com uma linguagem positiva.

 

Para que o Sankalpa seja verdadeiramente eficaz e se integre perfeitamente no nosso Dinacharya (a rotina diária da Medicina Ayurvedica), ele precisa de ser universal, forte e focado no equilíbrio integral (corpo, mente e espírito).

Vou aqui deixar 3 opções de aplicar o Sankalpa mediante a intenção que quiser colocar ou mesmo aquela que mais lhe fizer sentido no seu momento atual.

 

Opção 1: Focada em equilíbrio e saúde (Ideal para Ayurveda)

"Eu sou saudável, equilibrado(a) e vivo em harmonia com a natureza."

Esta afirmação reforça a conexão com os nossos ritmos naturais do dia (essência do Dinacharya) e ancora na saúde física e mental no momento presente.

 

Opção 2: Focada na nossa presença e na paz mental (ideal para meditação)

"A minha mente está em paz e eu acolho e aceito cada momento com clareza."

Esta afirmação ajuda a reduzir a ansiedade matinal e a pressa, sintonizando a mente com o estado de observação calmo e silencioso.

 

Opção 3: Focada em propósito e evolução (ideal para yoga)

"Eu estou alinhado(a) com o meu propósito e ajo com verdade e compaixão."

Esta afirmação conecta as nossas ações diárias e a nossa prática de Yoga ao nosso Dharma (propósito de vida).

 

4- Como incluir o Sankalpa nas nossas práticas diárias

 

Para que a semente do Sankalpa germine, a repetição deve ser feita em momentos em que a nossa mente está mais recetiva e ao mesmo tempo encaixá-lo na sua rotina.

 

Ao Acordar (Logística do Dinacharya)

Logo de manhã, antes de nos levantarmos da cama e de irmos à casa de banho, fazer a raspagem da língua ou beber água morna:

- Senta-te na cama durante 30 segundos.

- Coloca a mão no coração.

- Repetir o  Sankalpa 3 vezes mentalmente, sentindo que cada palavra já é uma realidade no seu corpo.

 

No início e fim da Prática de Yoga

- No início, logo após sentares-te no tapete para os primeiros momentos de quietude, mentaliza o seu Sankalpa. Isso vai dedicar toda a energia dos asanas a essa intenção.

- No fim da prática de yoga (em Savasana) ou no relaxamento final, quando o seu corpo e a mente estão completamente rendidos, repita o Sankalpa mais 3 vezes. É aqui que ele entra no subconsciente.

 

Na Meditação diária

Usa o Sankalpa como a "âncora" antes de começar a observar a respiração ou no final da meditação, como um selo de proteção e foco para o resto do seu dia.

 

Importante: Escolhe apenas um Sankalpa e mantenha-o durante alguns meses ou mesmo até sentir que ele se manifestou plenamente na sua vida. Não mude o seu Sankalpa todos os dias, pois a repetição consistente é o que lhe vai dar força.

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti