
Cada vez mais me apetece mergulhar a fundo nas palavras e nos conceitos e neste caso vou falar de Svastha ou também designada por Swastha. Esta é, sem dúvida, uma das palavras mais bonitas, profundas e importantes de toda a tradição védica.
A nível etimológico, Svastha divide-se em duas raízes do sânscrito, “Sva” que significa o Eu, a nossa própria essência, a Alma (Atma) e “Stha” que é definido como o estabelecido, o enraizado ou o que permanece.
Portanto, Svastha significa literalmente "estabelecido no próprio Ser" ou “o que permanece no próprio ser”. Não se trata de um estado de saúde que geramos ao "fazer coisas" para fora, mas sim do estado natural que emerge quando paramos de fugir de nós mesmo.
Vou analisar a sua importância na medicina ayurvédica, na espiritualidade e como trazemos isto até nós através das rotinas diárias.
1. A Importância de Svastha na Medicina Ayurvédica
Na medicina ocidental moderna, a saúde é muitas vezes definida pela ausência de doença (se as análises clínicas estão normais é porque estamos "saudáveis"). Na Medicina Ayurvedica, isso é apenas o patamar mínimo. Sushruta, um dos pais da Ayurveda, definiu o que é uma pessoa Svastha num dos versos mais célebres da medicina Ayurvédica:
"Aquele cujos Doshas (energias biológicas) estão em equilíbrio, cujo Agni (fogo digestivo) é bom, cujos Dhatus (tecidos corporais) e Malas (eliminações) funcionam normalmente, e cujos sentidos, mente e alma estão cheios de bem-estar e contentamento, esse é chamado de Svastha (saudável)."
Podemos aqui ver a genialidade desta frase e ao mesmo tempo considerar que a Medicina Ayurveda diz que nós podemos ter o corpo físico perfeito, mas se a nossa mente e a nossa alma não estiverem em contentamento (Prasanna), então de certeza que não estamos saudáveis. A medicina ayurvédica não trata os sintomas, ela cria as condições biológicas para que nos possamos restabelecer com o nosso centro e nesta perspetiva podemos considerar que a doença (Vyadhi) é vista apenas como um desvio, um momento em que nos esquecemos de quem somos e nos "descentramos".
2. A Importância de Svastha na Espiritualidade
Espiritualmente, Svastha é a ponte entre a saúde do corpo e a iluminação (Moksha).
Se estamos constantemente identificados com os nossos pensamentos, com os dramas do ego, ou com as flutuações do mundo exterior (o que o Tantra chama de ilusão de Maya), aqui nós estamos em Asvastha que significa que estamos descentrados ou desconectados.
Quando estamos enraizados no nosso Ser (Svastha), transforma-se numa testemunha silenciosa (Sakshi) da nossa própria vida. As emoções como a raiva, o medo ou a tristeza continuam a passar por nós, mas já não nos definem, pois cada um de nós passará a ser o oceano enorme e profundo, em que as emoções são apenas umas pequenas agitações e ondas na superfície. Com esta referência vamos encontrar a nossa derradeira liberdade espiritual, em que a nossa paz já não depende de como está o mundo exterior se está calmo ou caótico e nós seremos a nossa própria casa.
3. Svastha no Dia a Dia: A Ligação com as Rotinas Ayurvédicas (Dinacharya)
Aqui vos deixo um ponto mais prático e transformador e a pergunta é sempre a mesma, como é que nos podemos estabelecer connosco próprios no meio da correria do dia a dia em que não tenho tempo para nada e estou sempre cansada? A resposta da Ayurveda é Dinacharya, a rotina diária. Longe de ser um conjunto de regras rígidas e aborrecidas, podemos considerar que Dinacharya é um ritual muito importante que por vezes até digo que é sagrado no nosso processo de enraizamento e ancoragem. Cada prática serve para lembrar o nosso corpo e a nossa mente que estamos aqui, presentes. Podemos então ver de como é que os hábitos matinais ligam o nosso corpo diretamente a Svastha. Vou aqui descrever apenas algumas das práticas ou melhor as essenciais para nos mantermos Svastha.
Acordar no Brahma Muhurta (45 minutos antes do nascer do sol)
É o momento em que a energia do ambiente está mais pura e como designamos no Ayurveda mais Sattvica. Acordar a esta hora permite-nos uma sintonização e conexão com o silêncio do Universo antes que o barulho do mundo exterior comece, este é o momento perfeito para nos estabeleceres connosco próprio mesmo antes de " darmos" a nossa energia ao trabalho ou aos outros.
Limpar a Língua (Jihwa Dhauta) e Escovar os Dentes
Fisicamente, remove as toxinas (Ama) acumuladas durante a noite e energeticamente, limpa o nosso canal de expressão e é como se estivéssemos a dizer para nós mesmo “eu purifico a minha capacidade de digerir a vida e de comunicar a minha verdade e a minha essência".
Auto-massagem com Óleo Quente (Abhyanga)
Esta é, talvez, a prática mais Svastha de todas em que ao passar óleo no próprio corpo com presença e sentido é um ato de amor-próprio extremamente importante. O óleo cria uma barreira protetora tanto física como energética ao redor do nosso sistema nervoso. Em sânscrito, a palavra para óleo é Sneha, que também significa amor e ao fazermos em nós uma Abhyanga significa literalmente, cobrirmo-nos de amor, estabelecendo os limites do nosso próprio espaço sagrado face ao exterior.
Meditação e Pranayama (Exercícios respiratórios)
Aqui fechamos o circuito pois depois de limpar e cuidar do corpo, vamos sentar-nos em silêncio. A respiração e o pranayama vai conectar o nosso corpo denso com a nossa mente subtil. É o momento exato em que assumimos que não somos o ruido que está lá fora, somos o espaço consciente que existe dentro de nós.
Quando uma rotina (Dinacharya) não é feita o que vai acontecer é que não vamos ter tempo para nada, acordamos a correr, tomamos banho rápido pois não temos tempo, a seguir olhamos para o telemóvel, reagimos aos e-mails e "saímos" rapidamente de nós logo nos primeiros 5 minutos do dia. Passamos o dia a viver a partir do exterior.
Com a rotina é definida e orientada para Svastha, nós vamos rapidamente criando um eixo e quando saímos de casa para trabalhar ou interagir com os nossos relacionamentos, já não vamos à procura de nós ou de nos encontrarmos com o mundo; nós já levamos o nosso Ser e a nossa identidade para o mundo.
Com esta descrição penso que consegue perceber como estas pequenas rotinas, que parecem apenas higiene ou saúde física, mudam completamente a nossa postura interna perante a vida?
Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.
"Bhavatu Sabba Mangalam"
Shanti, Shanti, Shanti
