quarta-feira, 29 de julho de 2026

Abhinivesha (o apego visceral à vida | o medo da morte).

Institito de Medicina Ayurvédica

Abhinivesha (o apego visceral à vida | o medo da morte).

Este artigo vai dar continuidade a esta minha intriga, jornada de reflexão e ao mesmo tempo de uma procura interior, concluindo com o ultimo dos 5 Kleshas: Abhinivesha (o apego visceral à vida / o medo da morte).

Vou fazer ou tentar ter uma leitura da sociedade atual lúcida pois nunca tivemos tanto acesso à informação e à medicina e, no entanto, nunca fomos tão aterrorizados pela ideia da impermanência e da morte. A ilusão de que a tecnologia e a medicina moderna podem "derrotar" o envelhecimento criou uma sociedade que esconde a velhice e nega a morte, alimentando precisamente este último e mais enraizado veneno da mente.

1. Etimologia e Estudo da Palavra

A palavra Abhinivesha em sânscrito é composta por “Abhi” que é definido como "em direção a" ou "com grande intensidade" e “Ni-vesha” que é definido como "entrar", "fixar-se", "agarrar-se" ou "morar", então podemos considerar que pode significar literalmente como "o ato de agarrar-se obstinadamente à existência" ou a vontade cega de viver.

Na obra fundamental do Yoga, os Yoga Sutras de Patanjali (II.9), é definido de forma genial:

"Svarasavāhī viduo'pi tathārūho 'bhiniveśa"

"Abhinivesha é o desejo de continuidade da vida, uma força de autopreservação tão profunda que domina até mesmo os mais sábios".

A Corrente dos Kleshas (Onde Abhinivesha se encaixa):

Abhinivesha não surge do nada. Ele é o resultado final de uma reação em cadeia:

  1. Avidya (Ignorância da nossa verdadeira natureza espiritual).
  2. Asmita (Ego / A ilusão de que somos apenas o corpo e a mente).
  3. Raga (Apego aos prazeres)
  4. Dvesha (Aversão à dor).
  5. Abhinivesha (O medo absoluto de perder o ego e o corpo — o Medo da Morte).

2. A Importância Espiritual de Abhinivesha

Do ponto de vista espiritual, Abhinivesha é a raiz de todas as ansiedades, sendo considerada como a ilusão de que, quando o corpo físico morre, "Nós" deixamos de existir, e com isto surgem algumas questões por resolver:

- A Prisão do Tempo: Abhinivesha faz-nos viver em constante estado de sobrevivência (modo de luta ou fuga) e ficamos tão preocupados em "não morrer" ou "não envelhecer" que nos esquecemos de viver no presente.

- A Ilusão da Separação: Quando nos identificamos apenas com a matéria, a morte parece uma aniquilação total.

- A Libertação (Moksha): A verdadeira maturidade espiritual só acontece quando compreendemos que o corpo é apenas uma vestimenta temporária. Como diz a Bhagavad Gita (2.22): "Assim como uma pessoa veste roupas novas e descarta as velhas, a alma encarnada aceita novos corpos materiais, descartando os velhos e inúteis."

 

3. Abhinivesha nas Tradições: Yoga, Tantra e Meditação

No Yoga

Nos Yoga Sutras, Abhinivesha é o 5º e último Klesha, sendo o mais difícil de erradicar porque está gravado no nosso sistema nervoso e na nossa memória genético-espiritual (Samskaras). Toda a prática de Asana (posturas), Pranayama (respiratórios) e Pratyahara (retirada dos sentidos) serve para nos desligarmos gradualmente da obsessão pelo corpo físico e experienciarmos a consciência pura (Purusha). 

No Tantra

Enquanto algumas vias tentam "escapar" da morte, o Tantra integra-a. O Tantra ensina que a vida e a morte são a mesma energia (Shakti) em ritmos diferentes (criação e dissolução). Na iconografia tântrica, figuras como Kali ou Bhairava usam colares de caveiras não por morbidez, mas para nos recordar de destruir o apego ao ego e abraçar a impermanência.

Na Meditação (Vipassana / Vajrayana)

Na meditação, a prática de observar a impermanência (Anicca) desmonta Abhinivesha. Na tradição do Budismo Tibetano (Vajrayana), existem meditações específicas sobre o processo da morte (Bardo). Ao "morrer mentalmente" na meditação todos os dias, desfaz-se o choque e o pavor da morte física real.

4. O impacto na saúde, órgãos e ayurveda

Para o Ayurveda, Abhinivesha é a expressão máxima do medo e da insegurança profunda. Esta emoção afeta principalmente o Vata (composto por Ar e Éter), o princípio da mobilidade e do sistema nervoso.

Abhinivesha (Medo da Morte/Ansiedade)

Agitação Extrema de Vata

Secura & Esgotamento de Ojas

Deterioração dos Órgãos

Órgãos e sistemas afetados por abhinivesha

- Rins e glândulas suprarrenais (sede do medo): Na medicina Ayurveda, o medo paralisa os rins. O estado constante de alerta de Abhinivesha inunda o corpo com cortisol e adrenalina, levando à fadiga suprarrenal, cálculos renais e falha na filtragem do sangue.

- Sistema nervoso (Majja Dhatu): O pânico e o medo da perda causam ansiedade crónica, insónia, tremores, ataques de pânico e degeneração precoce do sistema nervoso.

- Cólon e intestino grosso (sede de Vata): O medo retrai o intestino. Abhinivesha gera obstipação crónica, síndrome do intestino irritável, espasmos e incapacidade de absorver nutrientes.

- Coração e Ojas (Imunidade): O medo constante seca Ojas (a vitalidade vital que sustenta a vida). O coração fica vulnerável a arritmias, hipertensão e aperto no peito.

5. A rejeição da morte na sociedade atual: a evolução do conceito de saúde

Como podemos observar as pessoas nos dias de hoje lidam cada vez pior com a morte. Por que é que isto acontece?

Fator Moderno

Como alimenta Abhinivesha

A "Militarização" da Saúde

A medicina moderna muitas vezes trata a morte como uma falha médica ou um "inimigo a ser derrotado", e não como um processo natural e sagrado da vida.

A Ilusão do Controlo Tecnológico

Criou-se o mito de que, com suplementos, procedimentos estéticos e tecnologia, podemos deter o tempo, mas quanto mais tentamos controlar a vida, mais pavor temos daquilo que não podemos controlar (a morte).

Desconexão com a Natureza

O ser humano urbano já não vê as estações, as folhas a cair ou o ciclo de nascimento e decomposição, e com isto sem ver a natureza a morrer e a renascer, perdeu-se a sabedoria orgânica do ciclo da vida.

Afastamento do Sagrado

Sem uma perspetiva espiritual da existência (de que somos consciência e não apenas matéria), a morte é vista como um abismo assustador de "nada".

6. Como gerir e transformar Abhinivesha no dia a dia

Para harmonizar este comportamento e resgatar a paz de espírito, podemos adotar comportamentos práticos e profundos:

  1. Contemplar a Impermanência (Maranasati): Recordar suavemente todos os dias que a vida física é temporária, pois isso não traz tristeza mas sim um valor imenso a cada segundo presente e reduz a importância de insignificâncias.
  2. Práticas de Enraizamento (Brimhana no Ayurveda): Para acalmar o medo e o Vata alterado, utilize massagens com óleo de sésamo morno (Abhyanga), comida quente e cozinhada, e rotinas estáveis.
  3. Desapego Progressivo: Treinar o desapego nas pequenas coisas do dia a dia (objetos, opiniões, controlo) para que, quando a grande transição chegar, a mente saiba como se soltar com leveza.
  4. Aprender a "Morrer" no Final do Dia: Ao deitar, pratique relaxamento profundo (Yoga Nidra). Entregue o corpo à cama, solte o controlo e treine a mente a confiar no descanso absoluto. A prática de Yoga Nidra é muito importante na capacitação do corpo para as práticas de desapego corporal.
  5. Pratique Tantra: pode praticar práticas de sensorialidade e ao mesmo tempo cultivar a prática do tacto de modo a retomar o fluxo energético do corpo e com isto valorizar mais o dia e o momento em que está.

Abhinivesha ensina-nos uma grande lição: só tem medo da morte quem tem medo de viver plenamente. Quando vivemos com verdade, com presença e entrega no momento presente, a morte deixa de ser um monstro e passa a ser apenas o descanso natural de quem cumpriu a sua jornada.

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da Medicina Ayurvédica e do seu estilo de vida.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti

Dvesha - Aversão | Repulsa | Ódio

Instituto de Medicina Ayurvédica

Dvesha - Aversão | Repulsa | Ódio

A observação atual na minha experiência nas consultas de medicina Ayurvédica verifico a dificuldade que as pessoas têm hoje em aceitar mudanças e até mesmo novos sabores. Na tradição védica e no Ayurveda, a repulsa por um sabor não é apenas uma questão de "paladar", mas sim um espelho direto da nossa resistência mental.

Vou explorar o impacto profundo de Dvesha (Aversão / Repulsa/ Ódio) (Que é um dos 5 kleshas) em todas as dimensões da nossa existência.

1. Etimologia e estudo da palavra

A palavra Dvesha vem do radical sânscrito Dvish, que significa "odiar", "rejeitar" ou "sentir hostilidade". Na filosofia indiana (especialmente no Yoga Sutra de Patanjali, II.8), Dvesha é definido como:

"Dukhānushayī dvesha"A aversão é aquilo que se apoia e surge da memória da dor ou do sofrimento.

Em termos simples: enquanto Raga (Apego) é a procura obsessiva pelo prazer, Dvesha é a rejeição cega e o medo de repetição do desconforto. Ambos são dois lados da mesma moeda considerando que os Kleshas (aflições ou "venenos" da mente) nos afastam da nossa verdadeira natureza (Atman).

2. A importância espiritual de Dvesha

Na nossa jornada espiritual, Dvesha é como um muro invisível e sempre que dizemos "não aceito isto", "odeio esta situação" ou "não suporto esta pessoa", estamos a rejeitar a própria realidade presente tal como ela é e com isso provocar diferentes situações:

- Fecho do Coração: Dvesha paralisa o amor incondicional (Maitri) e a compaixão (Karuna).

- Ilusão do Ego (Asmita): A aversão cria uma ilusão de separação rígida entre "Eu" e o "Outro" (ou entre "O que eu quero" e "O que a vida me traz").

- Impeditivo da Libertação (Moksha): Não é possível alcançar a paz interior se a mente estiver em constante estado de reatividade e combate contra o mundo exterior.

3. Dvesha nas práticas tradicionais

No Yoga

Nos Yoga Sutras, Dvesha é o 4º Klesha, e aborda que a prática postural, os asanas e a prática respiratória, os pranayamas não servem só para "esticar o corpo", mas para nos expor a um desconforto controlado, pois quando mantemos uma postura difícil mantendo uma respiração suave, estamos a treinar a mente a não reagir com Dvesha perante a dor ou a resistência física.

No Tantra

O Tantra traz uma visão diferente, fascinante e transformadora que não se trata de combater a aversão, mas sim de a transmutar. No Tantra, a repulsa é energia pura bloqueada, e ao encarar aquilo que nos causa repulsa com plena presença e sem julgamento, a energia da aversão altera-se e transforma-se em clareza espiritual e discernimento (Viveka).

No Vajrayana e Meditação

Na meditação, Dvesha manifesta-se como impaciência, raiva, tédio ou rejeição dos pensamentos incómodos. A instrução central é o não-julgamento, que é a observação da aversão sem a alimentar e quando percebemos que a aversão é apenas uma onda passageira na mente, ela perde o poder sobre nós.

4. O impacto na saúde, órgãos e ayurveda

No Ayurveda, a mente e o corpo são inseparáveis e Dvesha é uma emoção quente, contrátil e tóxica, que afeta o nosso fogo digestivo (Agni) e desequilibra diretamente os Doshas.

 

Dvesha (Aversão)

Agitação de Pitta / Bloqueio de Vata

Acúmulo de Ama (Toxinas)

Deterioração dos Órgãos

Órgãos afetados pela aversão crónica

- Fígado e Vesícula Biliar (Sede de Pitta): O fígado é o órgão que processa a raiva, a aversão e a rejeição, e o excesso de Dvesha "aquece" o fígado, levando ao acumulo de toxinas, de má digestão de gorduras, inflamações e desequilíbrios biliares.

- Estômago e Intestino (Agni): A aversão causa contração instantânea no plexo solar, e faz com que a digestão pare, gerando Ama (toxinas metabólicas) e criando sintomas como hiperacidez, úlceras ou refluxo.

- Coração (Hridaya): O coração subtil é a morada de Ojas (a essência da imunidade e vitalidade) e quando a rejeição é constante seca Ojas, enfraquecendo o sistema imunitário e sobrecarregando o sistema cardiovascular (pressão alta, palpitações). 

5. A aversão aos sabores (rasa) e às plantas ayurvédicas

A minha observação sobre a resistência às mudanças e aos sabores reflete exatamente o estado atual do ser humano moderno.

No Ayurveda, existem 6 Sabores (Shad Rasa): Doce, Salgado, Ácido, Picante, Amargo e Adstringente.

- A ditadura do Doce/Salgado: A sociedade moderna viciou-se nos sabores Doce e Salgado (que trazem um conforto imediato) e ao mesmo tempo desenvolveu-se uma enorme aversão (Dvesha) ao Amargo e ao Adstringente.

- A importância da Cura pelo Amargo: Curiosamente, as plantas de cura ayurvédicas mais profundas (como Neem, Guduchi ou Karela) são intensamente amargas. O sabor amargo limpa o fígado, reduz o excesso de Pitta/Kapha e remove a ilusão da mente.

- Rejeitar o remédio: Quando uma pessoa recusa uma planta medicinal só porque o sabor é "ruim" ou "estranho", ela está a demonstrar que a sua aversão mental (Dvesha) é mais forte do que a sua vontade de cura. Aceitar o sabor da planta é o primeiro passo para a cura emocional e física.

6. Como gerir e transformar Dvesha no dia a dia

Para não nos deixarmos consumir pelo excesso de aversão, podemos adotar comportamentos práticos e conscientes:

Ação

Como aplicar na prática

Pausa da Não-Reação

Ao sentir repulsa por alguém, por uma comida ou por uma mudança, ou por uma prática não reaja imediatamente. Respire fundo e observe a sensação física no corpo sem atuar sobre ela.

Prática da Aceitação do Sabor

Experimente alimentos amargos ou adstringentes (como chás ou plantas) com consciência. Sinta o sabor sem o rotular de "bom" ou "mau", apenas receba a sua medicina.

Cultivar o Oposto (Pratipaksha Bhavana)

Quando sentir aversão por alguém ou por uma situação, force a mente a procurar um ponto positivo ou envie-lhe um pensamento de compaixão.

Acolher a Mudança

Entenda que a impermanência (Anicca) é a lei da vida. Lutar contra as mudanças é alimentar Dvesha.

Dvesha não é algo a ser "eliminado" com violência, mas sim compreendido com sabedoria. Quando percebemos que aquilo a que resistimos é exatamente o que nos ensina a crescer, a aversão dissolve-se, dando lugar a uma paz profunda.

Vou aqui colocar uma questão importante para si que está a ler este texto, como é para si perceber os seus momentos de aversão tanto na sua rotina, nos seus alimentos ou mesmo na interação com os outros?

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da Medicina Ayurvédica e do seu estilo de vida.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Raga na Visão do Tantra

Instituto de Medicina Ayurvédica

Raga na Visão do Tantra: A Transmutação Sagrada do Desejo 

Pela curiosidade e pela diferença de ação de Raga na perspetiva Tantrica vou aqui tentar explanar com maior profundidade Raga na visão do Tantra.

No estudo dos Kleshas, poucas perspetivas são tão incompreendidas, mas ao mesmo tempo simultaneamente e libertadoras quanto a visão do Tantra.

Enquanto a maioria das vias ascéticas (como o Yoga Clássico e certas vertentes monásticas) aborda Raga (o apego/desejo) com cautela, vigilância ou mesmo como uma tentativa de erradicação através da renúncia (Vairagya), o Tantra adota uma postura revolucionária em que o desejo não é um veneno a ser destruído, mas sim a própria energia da Vida (Shakti) a procurar regressar à sua Origem.

1. O Axioma Tantrico: "Aquilo pelo qual cais é aquilo pelo qual te levantas"

No Kularnava Tantra, um dos textos mais proeminentes da tradição, encontramos o famoso verso que resume a pedagogia tântrica sobre Raga:

(Yenaiva\ patana\ dravyai,\ tenaiva\ tasya\ kalpanam)

"Pela mesma coisa que os homens caem e se afundam, por essa mesma coisa eles se levantam e libertam."

O Tantra percebeu uma verdade psicossomática profunda, que ao tentar reprimir o desejo é como tentar fazer uma presa de água num rio com um caudal muito grande. A repressão não destrói a energia de Raga, apenas a empurra para o subconsciente, onde se apodrece, gerando neuroses, frustração, rigidez corporal, estagnação de Prana e a inflamação do Pitta

Para o Tantra, a energia que move um desejo obsessivo por algo material é exatamente a mesma energia que move a paixão pela iluminação e pela união com o Divino, onde a diferença não está na natureza da energia, mas sim na sua direção e densidade.

2. Raga no Shaivismo de Caxemira: O Kanchuka da Alma

Na filosofia não-dualista do Shaivismo de Caxemira (Advaita Shaivism) onde a Realidade Suprema é Shiva que é a consciência pura, infinita e totalmente plena.

Para que a Criação aconteça, Shiva decide voluntariamente "ocultar" a sua perfeição e experienciar a vida como um ser individualizado (Jiva). Para fazer essa transição do Infinito para o Finito, a Consciência reveste-se de 5 capas de limitação chamadas Kanchukas. [ São os invólucros ou contrações cósmicas (também designados por vestimentas da ilusão que pertencem especificamente ao Xivaísmo da Caxemira (Kashmir Shaivism) dentro da cosmologia dos 36 tattvas (princípios da criação. Estas 5 capas são: Kala (limitação do tempo), Niyati (limitação do espaço/causalidade), Raga (limitação da plenitude gerando desejo), Vidya (limitação do conhecimento/onisciência), Kala/Kala (limitação da capacidade de ação/onipotência). A sua função principal é como explicar como a Consciência Suprema (Shiva) se contrai e se oculta para se transformar no indivíduo limitado (Purusha ou alma encarnada).]

Raga como vimos é a terceira dessas capas Raga-Kanchuka:

  1. A perfeição original: No nosso estado absoluto, a nossa consciência é purna (Total, Plena, em que nada lhe falta).
  2. O aparecimento de Raga-Kanchuka: Quando a Consciência se limita, surge uma sensação súbita de "incompletude", fazendo e dando uma informação de que algo nos falta.
  3. A Ação de Raga: Raga é precisamente essa força que nos faz olhar para fora e dizer: "Se eu tiver aquele objeto, aquele relacionamento, aquele estatuto ou aquela sensação, seremos finalmente completos".

Portanto, no Tantra, Raga nasce de uma memória sagrada de Plenitude, em que desejamos coisas no mundo porque a nossa alma recorda que é originalmente plena e aí desejamos recuperar essa plenitude a qualquer custo. O "erro" não é o desejo de plenitude, mas a ilusão de que um objeto efémero nos pode dar uma satisfação eterna.

3. De Kama a Anuraga: O Processo de Transmutação (Sodhana)

Em vez de renunciar ao mundo, o Tantra propõe a purificação e elevação do desejo (Sodhana). O processo de transmutação de Raga segue três estágios energéticos:

Vishaya Raga                  

Anuraga                      

Divya Raga / Bhakti

Desejo Denso

 

Paixão Sagrada

 

Devoção e Fusão com o Absoluto

 

- Vishaya Raga (o apego aos objetos sensoriais): É o desejo na sua forma mais densa, em que a mente quer possuir, reter e controlar a matéria para obter um prazer imediato, gerando uma dependência e um sofrimento.

- Anuraga (a paixão reorientada): Quando percebemos que o prazer que sentimos por um objeto não vem do objeto, mas sim do reflexo da consciência que o vivencia e o que ele significa e com isto a paixão deixa de ser da "coisa" e passa a ser pelo "Mistério da Vida".

- Divya Raga ou Bhakti (o amor divino): O desejo expande-se tanto que engole o próprio ego (Asmita), em que o indivíduo já não deseja possuir o mundo mas sim um desejo de se fundir com o princípio criador (Shiva-Shakti). 

4. Bhoga com Yoga: A União do Prazer com a Libertação

Uma das maiores contribuições do Tantra é a síntese entre Bhoga (o desfrute consciente da vida) e Yoga (a união espiritual).

Nas vias ascéticas, Bhoga e Yoga são vistos como inimigos mortais em que desfrutamos desta vida e do mundo, ou nos libertamos dele, aqui o Tantra desafia esta dualidade e afirma que é possível transformar o próprio desfrutar num ato de Yoga e de amor.

Como funciona na prática?

Quando saboreia uma refeição deliciosa, ouve uma música sublime ou vivencia um momento de intimidade e afeto, em vez de deixar que a mente caia em Raga (a ânsia de agarrar o momento e querer mais), o Tantra ensina a:

- Estar totalmente presente no apogeu da sensação procurando usar o sentido como um portal de meditação.

- Reconhecer a fonte e ao mesmo tempo deve lembrar-se que a beleza e a doçura daquela experiência são emanações da nossa própria consciência divina.

- Oferecer o prazer e em vez de "acumular" ou transformar o prazer em ego, deve oferecer internamente essa sensação de gratidão à Divindade que habita no seu próprio coração. 

Nesse instante e estando presente deve agir de acordo com o coração e aí o apego dissolve-se e fica em nós uma alegria pura (Ananda) fazendo passar esse desejo e que ele seja consumido pela nossa atitude e no fogo da nossa presença instantânia.

5. Aplicações terapêuticas do tantra na gestão de Raga e na saúde

Na terapia e no quotidiano, a perspetiva tântrica oferece ferramentas de um valor inestimável para lidar com vícios, convulsões e apegos emocionais:

  1. Não lutar contra o desejo (evitar a culpabilidade): A culpa inflama Pitta e gera estagnação de Vata. Quando sentir um desejo compulsivo (por comida, validação ou consumo), não se julgue e observe a intensidade da energia sem agir imediatamente sobre ela.
  2. Investigar a causa raiz: Pergunte a si mesmo: "Qual é a necessidade profunda que este apego está a tentar preencher?" (Normalmente é necessidade de amor, segurança, paz ou de uma conexão).
  3. Sacralizar a rotina (svechachara consciente): Traga beleza e ritual para os seus hábitos. Se comer com presença total, gratidão e intenção sagrada, a quantidade de comida necessária para satisfazer os sentidos diminui drasticamente, pois a mente nutre-se da qualidade da experiência.
  4. Preservar o Ojas (vitalidade profunda): A repressão do desejo consome Ojas (o fluido da imunidade e vitalidade) através do nosso stress interno. A transmutação tântrica canaliza essa energia para cima, transformando o desejo desperdiçado em claridade mental, magnetismo e imunidade física. 

O Desejo como o Próprio Combustível da Libertação

O Tantra lembra-nos de que não viemos a este mundo para nos tornarmos estátuas de pedra, insensíveis ao encanto da vida. Sentir atração, paixão, gosto pela beleza e desejo de união é a prova viva de que a energia divina pulsa em nós.

O ensinamento supremo do Tantra sobre Raga pode resumir-se desta maneira em que não devemos diminuir o nosso desejo, mas sim expandi-lo  e percebe-lo até que nada menos do que o infinito nos consiga satisfazer.

Quando deixamos de nos satisfazer com as migalhas dos apegos temporários, a força de Raga torna-se o próprio motor que nos impele de regresso à nossa Libertação Suprema (Mukti).

 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da Medicina Ayurvédica e do seu estilo de vida.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti