quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Shama - A calma mental

 

Instituto da Medicina Ayurvédica

Shama é um conceito fundamental na filosofia védica e no Vedanta, traduzindo-se literalmente como tranquilidade, calma, controlo da mente ou pacificação interior, tendo uma relevância crucial na sociedade atual e um papel fundamental do corpo e da energia na regulação da mente.

Considerada a primeira virtude de Shat-Sampat (as seis virtudes espirituais indispensáveis para o discernimento e a libertação), Shama representa a capacidade consciente de domar a mente, mantendo-a serena diante dos estímulos externos.

Num mundo hiperconectado, a agitação mental não surge por acaso, sendo o resultado direto de estímulos contínuos que mantêm o sistema nervoso em sobressalto.

 

1.  Elementos que produzem agitação mental vs. elementos de controlo

Elementos Desencadeadores (Agitação)

Elementos Reguladores (Shama)

Hiperestimulação sensorial (monitores, luzes, notificações constantes)

Pratyahara (recolhimento e filtragem consciente dos sentidos)

Fazer várias tarefas ao mesmo tempo e sobrecarga de informação

Foco num único ponto (Ekagrata) e ritmos sustentáveis

Culto da produtividade, de perfeição e de pressa constante

Pausas intencionais e momentos de silêncio diários

Desconexão com o corpo e respiração superficial

Ancoragem corporal e regulação do sistema nervoso

 

2.  O Conceito em diferentes perspetivas

Perspetiva

Significado e Aplicação de Shama

Valor Espiritual

É o fundamento da estabilidade espiritual. Não significa reprimir pensamentos, mas cultivar a mestria de observar os impulsos sem ser arrastado por eles.

Meditação (Dhyana)

Funciona como o estado prévio e simultâneo de Samatha (tranquilidade mental). Permite que a mente repouse no momento presente sem oscilar entre desejos e aversões.

Ayurveda

Associa-se diretamente ao equilíbrio do Vata (ar/espaço) e ao cultivo do estado Sattvico (pureza e clareza mental), reduzindo o excesso de Rajas (agitação) e Tamas (inércia).

Tantra

É o alinhamento das energias subtis (Prana) nos canais centrais (Ida, Pingala e Sushumna), permitindo a harmonização dos centros energéticos (Chakras).

3. A perspetiva energética e o tantra: o corpo como porta de entrada

No Tantra e no Hatha Yoga, a mente (Manas) e a energia/vitalidade (Prana) são vistas como duas faces da mesma moeda, e quando o Prana se move a mente segue, por isso quando o Prana se acalma, a mente entra em Shama.

- Ter consciência do corpo para acalmar a mente: Tentar acalmar uma mente agitada com o pensamento e com a mente é como tentar apagar um incêndio com vento. O Tantra utiliza o corpo físico, sensorial e energético para dissolver os nossos bloqueios.

- Canais Energéticos (Nadis): A agitação mental reflete o excesso de energia nos canais laterais (Ida e Pingala), considerando que é através das posturas (Asanas), dos gestos das mãos (Mudras) e dos bloqueios energéticos (Bandhas) que direcionamos o fluxo para o canal central (Sushumna), induzindo espontaneamente o estado de Shama.

- Soma e Sentidos: O trabalho tátil, a perceção do nosso próprio peso contra a terra e a nossa consciência corporal despertam a inteligência somática, retirando a energia excessiva acumulada na cabeça e trazendo-a para a base do corpo.

4. Impacto na vida presente e futura

- No momento presente e no agora vai existir uma redução do stress, fazendo uma clarificação das nossas tomadas de decisões, evitando com isto reações impulsivas e cultivando a nossa paz interior no dia a dia.

- Numa perspetiva futura devemos construir um Karma mais leve ao evitar ações motivadas pela raiva, ansiedade ou apego, pavimentando um caminho de maior clareza mental e de crescimento espiritual.

5. Integração prática no dia a dia

Ancoragem somática (em momentos de pico de ansiedade ou sobrecarga):

- Pressão e contacto: Senta-te com os pés bem assentes no chão, pressionando as palmas das mãos contra as coxas para enviar ao cérebro o sinal de segurança e de consciência corporal.

- Libertação de Tensão: Depois da inspiração, reter a respiração e durante a retenção deve contrair voluntariamente os músculos do corpo e quando necessitar de expirar deve-o fazer de modo a soltar e libertar todas as manifestações que existem dentro de si através de um suspiro longo. Repite 3 vezes.

6. Gestão de perturbações mentais

Em momentos de ansiedade, de agitação mental ou de perturbação emocional, Shama atua como um travão consciente, pois quando a mente entra em espiral de preocupação, o treino de Shama ajuda a restabelecer o eixo interno, permitindo que a pessoa observe a perturbação sem se identificar com ela. 

7. Práticas respiratórias e mantras

Pranayama (Respiração):

- Nadi Shodhana (respiração alternada): Ideal para equilibrar o sistema nervoso e pacificar Vata.

- Bhramari (respiração do zumbido da abelha): Excelente para acalmar pensamentos acelerados e induzir um silêncio interior.

Mantras Tradicionais:

- Mantra da Paz (shanti mantra): Om Shanti, Shanti, Shanti (invoca a paz no corpo, na mente e no universo).

- Mantra para Clareza: Om Namah Shivaya ou a repetição mental do mantra OM

8. Planificação da Rotina Diária (Dinacharya)

Manhã:

- Ao acordar: Dedique 5 a 10 minutos de silêncio antes de olhar para monitores ou telemóveis ou mesmo entrar rapidamente na agitação diária.

- Prática: 10 minutos de Nadi Shodhana seguidos de momentos de silencio focados no conceito de Shama.

- Movimento Consciente: Antes de tentar meditar em silêncio, fazer 5 a 10 minutos de movimento fluido (alongamentos, dança intuitiva ou saudações ao sol) de modo a libertar o excesso de Rajas (energia agitada)(se for Vata deve fazer de forma lenta e ritmada).

- Mudra de Pacificação (Bhairava Mudra): Durante a pausa consciente, pousa a mão direita sobre a esquerda, com as palmas voltadas para cima, no colo. Esta postura harmoniza as energias masculina e feminina no corpo, promovendo uma estabilidade interior.

Tarde:

- Pausa consciente: Fazer pequenas pausas ao longo do trabalho para realizar 3 a 5 respirações profundas e conscientes de modo a soltar a tensão muscular.

Noite:

- Devemos reduzir os estímulos visuais e sonoros pelo menos 1 hora antes de dormir.

- Uma das abordagens importantes é praticar o desapego dos acontecimentos do dia, recolhendo os sentidos para uma noite de sono reparador.

 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da ciência védica, da Medicina Ayurvédica e do seu estilo de vida.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti

domingo, 23 de agosto de 2026

O ciclo Nasal e o Nadi shodhana

Instituto de Medicina Ayurvédica

O ciclo Nasal e o Nadi shodhana

Depois de escrever um artigo sobre a frequência respiratória a longevidade e a qualidade de vida que surpreendeu algumas pessoas vou agora tentar ajudar no modo como podemos gerir o nosso Ciclo Nasal natural.

A intersecção e a ligação do Ciclo Nasal fisiológico e a prática de Nadi Shodhana (a respiração alternada) constitui uma das pontes mais fascinantes entre o corpo físico, a anatomia subtil e a consciência meditativa.

Enquanto o Ciclo Nasal é o ritmo involuntário e biológico do corpo, o Nadi Shodhana é a intervenção consciente e deliberada de cada um de nós para educar e preservar esse ritmo, transformando uma função automática numa ferramenta de iluminação espiritual.

 

Para compreender verdadeiramente o impacto transformador do Nadi Shodhana, é fundamental olhar para a escala surpreendente da nossa respiração quotidiana. Em média, um ser humano adulto respira entre 20 000 a 25 000 vezes por dia (cerca de 15 a 22 respirações por minuto). Se deixarmos esse volume colossal de respirações fluir de forma automática, acelerada e inconsciente vamos impulsionar o stress pelo aumento da dispersão mental, pois estamos a repetir milhar após milhar de ciclos de agitação que desgastam a nossa energia vital (Prana) e desequilibram o nosso sistema nervoso. Quando tomamos consciência de que respiramos cerca de 20 000 a 25 000 vezes diariamente, podemos dedicar apenas 10 a 15 minutos para realizar o Nadi Shodhana que deveremos considerar que não estamos a realizar um mero exercício ou uma prática, mas estamos a realizar um ato sagrado de recalibragem e regeneração corporal. Ao desacelerar e alternar conscientemente algumas dezenas dessas respirações, vamos reeducar o ritmo de todos as outras milhares de respirações que virão a seguir, transformando um ato mecânico numa fonte contínua de vitalidade, cura e presença espiritual, pois estamos assim a efetuar um processo de ensinamento do nosso corpo e mente.

 

1. A experiência energética: a alquimia dos canais (Nadis)

No nosso estado natural, a energia vital (Prana) flutua ao sabor do Ciclo Nasal:

- Quando a narina direita domina, Pingala (energia solar, racional, transformadora, associada ao canal simpático) está ativa.

- Quando a narina esquerda domina, Ida (energia lunar, intuitiva, calmante, associada ao canal parassimpático) prevalece.

 

A intervenção de Nadi Shodhana:

Durante a prática de Nadi Shodhana, ao alternar o fluxo de ar de forma ritmada e consciente entre as narinas, cada um de nós vai limpando os bloqueios (mala) nos 72.000 nadis do nosso corpo subtil.

Ao forçar a respiração a fluir alternadamente de forma equilibrada, cada um de nós vai forçar os dois polos energéticos (Solar/Masculino e Lunar/Feminino) a harmonizarem-se, fazendo com que exista uma sensação energética resultante é do descongestionamento subtil, onde o calor mental se dissipa e o corpo experimenta um estado de homeostase profunda e de uma vibração uniforme.

 

2. A Experiência Espiritual: O Despertar de Sushumna

Na sabedoria do Svara Yoga e do Tantra, o grande objetivo espiritual não é apenas alternar a respiração, mas provocar a fusão de dois polos e dos dois fluxos.

 

Ida Nadi (Lunar)

Pingala Nadi (Solar)

[Narina Esquerda]

[Narina Direita]

                           

                                   

└──────────────┬──────────────┘

NADI SHODHANA

(Equilíbrio do Fluxo)

Sushumna Nadi (Ativado)

[Canal Central da Coluna]

Estado Meditativo / Samadhi

  

Quando existe o encontro dos dois, Ida e Pingala, vão ser purificados e equilibrados através de Nadi Shodhana e do fluxo involuntário do Ciclo Nasal ser interrompido, fazendo com que ambas as narinas comecem a fluir com igual intensidade. Por consequência desta ação o fluxo simultâneo abre o canal central da coluna vertebral (Sushumna). Espiritualmente, isto marca a transição do despertar da nossa consciência comum (Jagrat) para uma consciência espiritual superior, fazendo com que a energia Kundalini encontra um caminho desimpedido para ascender ao longo dos nossos canais energéticos os chakras.

 

3. A experiência meditativa: do ritmo involuntário ao silêncio da mente

Na meditação, a mente segue a respiração e existe um proverbio que diz que "Pavana calati manas calati" que significa que quando o vento sopra, a mente move-se ou para onde o vento vai, a mente vagueia.

 

Dimensão

Ciclo Nasal normal

Experiência com Nadi Shodhana

Estado da Mente

Oscila a cada par de horas entre a agitação/foco (solar) e o devaneio/relaxamento (lunar).

Alcança a equanimidade e uma clareza neutra (Sattva).

Atividade Cerebral

Alterna a dominância entre os hemisférios esquerdo e direito.

Promove a sincronização do hemisfério cerebral, induzindo ondas alfa e theta.

Reação á prática continua

A mente reage aos estímulos do mundo exterior.

Facilita o Pratyahara (recolhimento dos sentidos) e o Dharana (concentração e foco num único ponto).

 

A sensação subjetiva durante a meditação:

Após 10 a 15 minutos de Nadi Shodhana bem executado, surge um momento em que a necessidade de respirar diminui drasticamente (Kumbhaka espontâneo ou retenção natural), apresentando uma sensação de um vazio pleno:

  1. O peso do corpo físico parece dissolver-se.
  2. O ruído mental e as flutuações emocionais cessam.
  3. A atenção, que naturalmente é dispersa nos órgãos dos sentidos, passa a ser recolhida diretamente para o espaço entre as sobrancelhas (Ajna Chakra) ou para o centro do peito (Anahata Chakra).

 

A consciência do Ciclo Nasal é como se fosse uma advertência ou um aviso de que a natureza funciona em dualidade e ritmos, e Nadi Shodhana é a arte espiritual de usar essa própria dualidade para transcendê-la. Ao praticar Nadi Shodhana antes da meditação, utilizamos o próprio ar que nos mantém vivos para alinhar os canais de energia, silenciar o cérebro e abrir a porta para a experiência do nosso Eu Verdadeiro (Atman).

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da ciência védica, da Medicina Ayurvédica e do seu estilo de vida.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti