quarta-feira, 20 de maio de 2026

O desejo e a aversão segundo Vipassana Ayurveda e Tantra

 

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O desejo e a aversão

 O desejo e a aversão são duas forças fundamentais que movem a experiência humana. Nas tradições filosóficas da Índia, elas são frequentemente chamadas de Raga (atração, apego, desejo) e Dvesha (repulsa, rejeição, aversão). São consideradas as duas faces da mesma moeda em que o mecanismo pelo qual a mente tenta agarrar o que dá prazer e empurrar o que dá dor, mas em muitos casos pelo que me tem acontecido com os meus pacientes e pela minha experiência e mente está a agarrar muito mais a dor do que o bem estar ou o prazer.

Definir como a meditação Vipassana, o Ayurveda e o Tantra abordam esta dualidade revela uma perspetivas fascinantes, que vai desde a erradicação total até à integração e ao mesmo tempo a transformação destas forças.

 A perspetiva da Meditação Vipassana, propõe-se a erradicação pela Equanimidade

Na perspetiva da meditação Vipassana ensinada por S.N. Goenka dentro da tradição budista Theravada, o desejo e a aversão são as causas primordiais do sofrimento (Dukkha) (consulte sobre Dukkha aqui) .

Vipassana ensina que não devemos reagir às coisas externas, mas sim à observação das sensações corporais que essas coisas geram. Se uma experiência gera uma sensação agradável, a mente reage com desejo (raga); se gera uma sensação desagradável, a mente reage com aversão (dvesha). Este hábito de reagir cria padrões mentais profundos (sankharas).

A técnica utilizada é focarmo-nos na equanimidade, o que quer dizer observar sem reagir. Ao sentir uma dor nas costas ou uma comichão durante a meditação (aversão), ou uma sensação de fluxo prazeroso (desejo), devemos apenas observar a sua natureza impermanente (Anicca(Consulte mais sobre anicca aqui) , pois ao não alimentar o desejo nem a aversão, a engrenagem do sofrimento perde força e a mente vai-se purificando.

No Ayurveda considero o desequilíbrio dos doshas e das emoções

Na Medicina Ayurvedica o desejo e a aversão não são apenas conceitos espirituais, mas são consideradas como forças psicológicas com impacto direto na saúde física e na homeostase do corpo.

Raga e Dvesha são manifestações das qualidades mentais dos gunas, especialmente de Rajas que manifesta a energia do movimento, da paixão e da agitação. Quando o desejo ou a aversão se tornam crónicos, eles vão perturbar a nossa mente e, consequentemente, os Doshas.

Na aversão crónica na manifestação da raiva, do julgamento e da repulsa, tendem a inflamar o organismo, agravando Pitta que podem gerar azia, problemas de pele, toxinas/AMA).

O desejo obsessivo ou apego pode gerar ansiedade se não for saciado que por consequência vai agravar Vata ou mesmo uma estagnação e depressão se se tornar uma dependência e com isto vai agravar Kapha.

A Medicina Ayurvedica também faz uma abordagem através do estilo de vida da Swasthavritta (Leia mais aqui sobre Swasthavritta), de uma alimentação adequada e no uso de plantas para acalmar a mente (Sattva Leia mais aqui sobre Sattva, Rajas e Tamas). O objetivo é digerir tanto a comida como as emoções, reconhecendo que a aversão e o desejo desregulados geram Prajnaparadha (o "crime contra a sabedoria"), que é a raiz de todas as doenças.

No Tantra falo da alquimia e da integração das forças

O Tantra (tanto o Hindu como o Budista/Vajrayana) oferece uma abordagem radicalmente diferente de Vipassana. Em vez de tentar suprimir, evitar ou erradicar o desejo e a aversão, o Tantra utiliza-os como um combustível para a iluminação.

Para o Tantra, o universo é pura energia divina enquadrando Shakti ou a natureza búdica, portanto, o desejo e a aversão não são "pecados" ou "erros", mas sim formas condensadas dessa energia cósmica, em que o erro não está na energia em si, mas na nossa ignorância sobre como usá-la.

Esta é uma abordagem alquímica, pois o praticante tántrico não foge do desejo, ele entra no desejo com plena consciência para extrair a sua essência pura onde podemos considerar a bem-aventurança ou Ananda, desmascarando o ego no processo. Da mesma forma, a energia da aversão como por exemplo a raiva é canalizada e transformada em discernimento cortante e determinação espiritual que é representada pelas divindades iradas no Tantra Budista, considerando que este é um princípio de usar o veneno como antídoto.

 Aqui deixo uma forma de analisar rapidamente  o desejo e a aversão segundo estas três perspetivas  Vipassana, Ayurveda e Tantra   


Visão sobre o Desejo/Aversão

Ferramenta Principal

Objetivo Final

Vipassana

Impurezas mentais (Kleshas) que causam sofrimento.

Equanimidade e Não-reação perante as sensações.

Erradicar a reação para libertar a mente.

Ayurveda

Toxinas mentais (Rajas) que desequilibram os Doshas.

Rotina, Dieta e Práticas Satvicas (puras).

Equilíbrio psicossomático e da saúde integrativa.

Tantra

Energia divina bruta que foi mal direcionada pelo ego.

Transmutação e Integração consciente da energia.

Usar a própria energia da paixão/repulsa para despertar.

 Enquanto o Vipassana pacifica a mente esvaziando o corpo, o Ayurveda garante que a água do corpo esteja limpa e equilibrada, e o Tantra transforma a água em vinho, utilizando a própria intensidade da experiência humana para transcender a dualidade.

 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti


segunda-feira, 18 de maio de 2026

O Significado de "Sukhi Ho"

Instituto de Medicina Ayurvédica

O Eco da Felicidade: O Significado de "Sukhi Ho"

No silêncio que encerra uma longa hora de meditação Vipassana, existe uma expressão que, para os nossos ouvidos, muitas vezes soa como um mantra misterioso: "Sukhi ho".

Longe de ser um termo esotérico, esta expressão em hindi traduz-se simplesmente como "Seja feliz" ou "Que encontre a verdadeira felicidade". Ela não é dita como uma mera despedida formal, mas sim como a culminação prática de todo o esforço feito durante a meditação.

Na tradição de Vipassana, os últimos minutos de cada sessão são dedicados à prática de Metta (amor-bondade). É o momento em que o meditador, após purificar a mente observando as próprias sensações com equanimidade, compartilhando os méritos da sua paz com o universo. No final quando se profere a expressão"Sukhi ho", ela sela e fecha esse momento, operando como um canal para um desejo universal de bem-estar.

O som arrastado e grave com que a frase é dita carrega uma vibração de acolhimento. Lembro de que a meditação não é um ato de isolamento egoísta, mas sim um caminho para nos tornarmos mais compassivos. Dizer "Sukhi ho" é uma recordação sutil e poderosa de que a verdadeira felicidade não vem de fora, mas sim de uma mente pacífica, equânime e livre de aversões — uma felicidade que começa em nós e se estende a todos os seres.

 

O encerramento da meditação

Logo após os cânticos principais é feita uma transição para o encerramento com estas frases:

"Bhavatu sabba magala" expressão em Pali que é repetido 3 vezes e que significa: "Que todos os seres sejam felizes." (Consulte mais sobre esta frase)

"Sādhu, sādhu, sādhu" Esta é a resposta dos meditadores á frase anterior e significa: "Muito bem,  concordo,  assim seja."

"Sukhi ho..." A frase em hindi dita como termino e soa como "sokeon" que significado: "Seja feliz" ou "Que seja feliz".

Por que soa como "sokeon"?

 Quando se junta o som de "Sukhi" (feliz) com "ho" (seja/fique), o som aspirado do "h" e o eco natural da gravação fazem parecer exatamente "sokeon" ou "sukho-o" para quem ouve pela primeira vez.

É um desejo final de paz e felicidade para fechar a prática de Metta (amor-bondade).

 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti

 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Meditação Vipassana no Instituto de Medicina Ayurvédica

Instituto de Medicina Ayurvédica

Meditação Vipassana no Instituto de Medicina Ayurvédica  

Descrevo a sequência da estrutura clássica e mais eficaz para uma sessão profunda (descrita de uma forma simples), pois tem como objetivo a estabilização da mente para que se possa ter uma visão penetrante e, ao mesmo tempo a nossa expansão do coração.

Aqui deixo passo a passo da meditação que vou fazer hoje (dia 11|05|2026) no Instituto de Medicina Ayurvédica, integrando os conceitos de Dhamma, Ayurveda e a filosofia integrante destas mesmas disciplinas

 Fase 1: Observação Corporal (Preparação, afastar do mundo exterior e possibilitar o enraizamento)

É vital numa primeira fase "chegar" e encontrar-se com o corpo, como eu digo vamos proporcionar o silêncio dentro de nós. Numa visão Ayurvedica, isto acalma o Vata Dosha.

Numa fase inicial sente-se numa posição cómoda e com a coluna ereta. Fechamos os  olhos e aqui fazemos uma observação de zonas do corpo.

Aqui vamos notar alguma pressão no corpo, podendo alterar a temperatura do corpo, da pele e dissipar quaisquer tensões existentes.

Não devemos tentar mudar nada, apenas reconheça que o corpo está ali e sinta os cinco elementos (Terra, Água, Fogo, Ar e Éter) presentes na sua estrutura física.

Fase 2: Anapana (Concentração Mental)

Anapana significa observação da respiração natural e podemos considerar que é a base que afia a "faca" da mente para o Vipassana.

Aqui devemos focar toda a nossa atenção na área abaixo das narinas e acima do lábio superior. Devemos sentir o toque do ar ao entrar e sair das narinas. Sinta o ar frio ao entrar e quando inspira e ao mesmo tempo sinta o ar quente quando expira. Não controle a respiração, apenas observe-a como ela é (Sabhavā-Dhamma).

Nesta fase o objetivo é desenvolver Samadhi (concentração). Se a mente fugir, traga-a de volta com gentileza, sem julgamento (Dukkha surge quando nos criticamos).

Fase 3: Vipassana (Visão Penetrante sobre as Tilakkhana)(saiba mais aqui)

Agora que a mente está afiada e focada devemos começar a investigar a nossa natureza da realidade atual do nosso corpo e mente através das sensações.

Devemos mover a nossa atenção sistematicamente por todo o corpo, parte por parte. E devemos ter sempre atenção às três grandes marcas:

Anicca: Ao sentir uma vibração, calor ou dor, observe como essa sensação surge e desaparece. Nada é estático.

Dukkha: Observe a tendência da mente de querer que as sensações boas fiquem e as más saiam revoltando-se com elas. Perceba que esse desejo é o que causa tensão.

Anatta: Perceba que estas sensações estão a acontecer por si mesmas; não há um "Eu" a controlá-las. Elas são apenas fluxos de energia.

Fase 4: Metta Bhavana (Amor Benevolente) (saiba mais aqui )

Após purificar o corpo e a mente através da observação, o coração fica mais solto e mais aberto. Devemos aqui deixar de focar em sensações específicas e devemos irradiar pensamentos de paz a partir do centro do peito (Anahata Chakra). Devemos também expressar algumas verbalizações como “Que eu esteja livre de sofrimento, que todos os seres encontrem o seu Dhamma e que todos os seres vivam em paz."  Sinta a sua energia vital (Ojas) expandir-se para além dos limites do seu corpo.

Fase 5: Encerramento com o Mantra (saiba mais aqui)

Para fechar esta prática devemos honrar a linhagem e todas as forças universais.

Junte as mãos em frente ao peito (Anjali Mudra) e entoe, em voz alta ou mentalmente, o mantra que analisamos:

Bhavatu sabba-magala,

rakkhantu sabba-devatā...

Sabba-buddhānubhāvena,

sabba-dhammānubhāvena,

sabba-saghānubhāvena...

Sadā sotthī bhavantu te!

 

Para mim esta é a sequência mais coerente apesar de eu considerar que o Anapana é a base de toda esta prática meditativa, mas aqui deixo porque é importante esta sequência

A visualização corporal evita que a mente flutue e proporciona o enraizamento.

O Anapana acalma o ruído mental e proporciona o silêncio corporal e o foco

O Vipassana desconstrói a ilusão do ego e da permanência fazendo aumentar a nossa consciência e por isso a sabedoria e conhecimento de nós próprios apareçe.

O Metta e o Mantra transformam a sabedoria fria em compaixão quente, protegendo o nosso campo energético e por isso dizemos que proporciona a cura.

Esta prática completa é como um banho profundo que remove tanto o Ama físico quanto o mental. 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti