segunda-feira, 13 de julho de 2026

Asmita | Ahamkara - Ego

 

Instituto de Medicina Ayurvédica

Asmita | Ahamkara

Asmita (अस्मिता) é cirúrgica e extremamente relevante para os dias de hoje. Numa era de hiper-exposição digital e de exaltação do "eu", compreender este conceito é uma chave importante para a nossa saúde mental e espiritual.

Vou explorar um pouco sobre esta palavra desde o significado, o impacto e a gestão de Asmita sob a luz das tradições védicas e até numa vertente espiritual.

 

1.  Asmita o que é?

No sânscrito, Asmita deriva da raiz Asmi, que significa "eu sou". Portanto, Asmita traduz-se literalmente como "egoicidade" ou o "sentimento de individualidade" (o "eu sou isso").

No Yoga Sutras de Patanjali (2.6), Asmita é definida como o segundo dos cinco Kleshas (as causas do sofrimento humano):

"Asmita é a identificação errónea da consciência pura (Purusha) com o instrumento de perceção (Buddhi/mente/corpo)."

- Numa consideração saudável e numa dose equilibrada, Asmita permite-nos ter uma identidade no mundo físico, de saber onde termina o meu corpo e começa o do outro, ter discernimento e operar na sociedade.

- Numa consideração distorcida, o problema surge quando nos apegamos cegamente a essa identidade (estatuto, aparência, intelecto), esquecendo a nossa verdadeira essência espiritual.

 

2. A visão do yoga, ayurveda, tantra e meditação

Cada uma destas quatro ciências irmãs aborda Asmita com uma perspetiva única, mas complementar:

O yoga (a perspetiva da mente)

Para o Yoga clássico, Asmita é um obstáculo que obscurece a iluminação. É a raiz do orgulho e da vaidade espiritual. Quando o praticante de Yoga começa a pensar "Eu sou o melhor praticante", ou "Eu sou mais evoluído energeticamente", ou “vejam os àsanas que faço” caiu na armadilha de Asmita. O Yoga procura dissolver essa falsa identificação através do desapego (Vairagya).

O Ayurveda (a perspetiva da saúde corpo-mente)

No Ayurveda, Asmita está intimamente ligada a Ahamkara (o ego). Quando o ego está hiperativo, ele gera Pragya-aparadha (o "crime contra a sabedoria"). Isto acontece quando sabemos o que nos faz bem, mas o nosso ego escolhe o que nos faz mal por capricho ou desejo de controlo.

Asmita em excesso inflama Pitta (orgulho, ambição cega, raiva) ou agrava Vata (ansiedade por isolamento e medo de perder o controlo).

O Tantra (a perspetiva da expansão e energia)

Ao contrário do Yoga clássico, que muitas vezes procura rejeitar o ego, o Tantra vê Asmita como uma energia que pode ser transmutada. Para o Tantra, a individualidade não deve ser destruída, mas sim expandida. O objetivo é purificar o "pequeno eu" (Asmita limitada) até que ele reconheça que é um reflexo do "Grande Eu" Universal (Shiva-Shakti). É a celebração da divindade dentro da forma humana.

A Meditação (o desarmar Asmita)

Na prática da meditação (Dhyana), Asmita não é vista apenas como um conceito filosófico ou uma falha de caráter; ela é observada como o mecanismo central da mente que impede a nossa presença absoluta.

Na meditação, compreender e desarmar Asmita é o próprio coração do processo de libertação. A meditação aborda este comportamento como um laboratório para a nossa saúde mental.

A. A meditação como o "espelho" de asmita

Quando nos sentamos para meditar, o primeiro choque que levamos é perceber que a nossa mente não para. Esse fluxo incessante de pensamentos é gerado e alimentado por Asmita.

Na meditação, Asmita manifesta-se de duas formas muito claras:

- Na visualização de nós próprios o que reparamos é que a maioria dos pensamentos que surgem na meditação andam à volta de uma personagem: nós próprios. "O que é que eu vou fazer a seguir?", "Porque é que aquela pessoa me tratou mal?", "Será que estou a meditar bem?", “O que estou aqui a fazer?”, “O que é que eu vou fazer de jantar?”. Isto é Asmita a tentar manter a sua história viva.

- Na perspetiva do meditador podemos considerar que é aqui que aparece uma a armadilha mais subtil. A certa altura, o ego apropria-se da própria meditação. Surge o pensamento: "Olha que bem que eu estou a meditar hoje, estou tão calmo", “hoje a meditação foi mesmo boa”. No momento em que estes pensamentos surgem, Asmita separou-o novamente da experiência pura e criou a figura do "meditador experiente".

B. A importância de asmita no processo meditativo

Muitas pessoas acham erradamente que a meditação serve para "destruir" o ego, pensar assim é mesmo um erro crasso e perigoso. Sem Asmita, não saberíamos o nosso nome, não conseguiríamos gerir o nosso dia a dia nem escrever num blog.

A meditação vê a importância de Asmita através de duas perspetivas fundamentais:

-  Mudar a relação com o ego (do controlo para a observação)

A meditação ensina-nos a não “lutar” contra Asmita, mas sim a observá-la, e em vez de tentar silenciar o ego à força, o que só o torna mais forte e frustrado, devemos posicionamo-nos como a Consciência Testemunha (Sakshi). Quando um pensamento de orgulho ou arrogância surge, a meditação permite-nos dizer internamente: "Ah, olha ali Asmita a tentar criar uma história. Eu vejo-te." Nesse preciso momento, o excesso de Asmita perde o poder sobre si, porque nós já não somos o pensamento; nós somos é o espaço onde o pensamento aparece.

-  A transição de asmita (do pequeno eu para o grande eu)

No caminho meditativo profundo, passamos por dois estágios de Asmita:

- Asmita num estado denso, em que nos identificamos com o corpo, com a profissão, com os traumas e com as opiniões rígidas. A meditação começa por libertar-nos deste peso.

- Asmita num estado subtil (Asmita Samadhi), onde num estado mais evoluído da prática o praticante acalma todas as flutuações da mente (Chitta Vritti) e resta apenas a pura sensação de "Eu Sou", desprovida de rótulos. Não é "Eu sou o Vítor, o arquiteto, o professor Universitário, o terapeuta, o naturopata", mas sim apenas a pura presença de existir. Este é o trampolim para a iluminação final (Samadhi), onde até essa última separação se dissolve na Unidade.

 

Na meditação, Asmita é como a gravidade. Não precisamos de odiar a gravidade, apenas precisamos de aprender a caminhar com ela sem cair. A meditação não elimina a nossa individualidade; ela simplesmente retira o veneno do egoismo, transformando o "eu sou melhor" no límpido e sagrado "Eu Sou".

 

3. O impacto na saúde: sintomas e órgãos afetados

O excesso de Asmita manifesta-se fisicamente através do stress crónico provocado pela necessidade constante de defender a própria imagem, ter razão ou controlar os outros. No plano psicossomático, este comportamento deteriora vários órgãos do nosso corpo humano:

- O fígado e a vesícula biliar: No Ayurveda, o fígado é a sede de Pitta e das emoções quentes (raiva, julgamento, orgulho, frustração). O excesso de Asmita enrijece e densifica estas emoções, congestionando o fígado e a vesícula, o que pode levar a problemas digestivos, inflamações e toxicidade no sangue.

- O coração (anahata chakra): Asmita cria uma barreira de isolamento ("eu contra o mundo"). Isto fecha o centro cardíaco, gerando hipertensão arterial, palpitações e aperto no peito devido à falta de entrega e empatia real.

- O sistema nervoso e as suprarrenais: A procura incessante por validação do ego esgota o sistema nervoso (Vata), levando à fadiga adrenal devido ao excesso de cortisol (a hormona do stress). (As suprarrenais são dois pequenos órgãos localizados acima dos rins. Elas são vitais para o nosso organismo, sendo responsáveis por produzir hormônios essenciais como o cortisol (regula o stress e a imunidade) e a adrenalina (prepara o corpo para reagir ao perigo)

 

4. Como gerir e controlar o excesso de asmita?

Para equilibrar esta energia e evitar que ela se torne prejudicial, podemos adotar comportamentos práticos no dia a dia:

- Prática de seva (serviço desinteressado): Fazer algo pelos outros sem esperar reconhecimento, aplauso ou recompensa financeira. O Seva quebra diretamente a espinha dorsal do ego inflacionado.

- Cultivar mounam ou mouna (o silêncio consciente): Experimente resistir à tentação de dar sempre a sua opinião, de contar as suas conquistas ou de provar que está certo numa discussão. O silêncio educa Asmita.

- Pranayama e meditação de entrega (ishvara pranidhana): Práticas que acalmam o sistema nervoso vão fazer-nos lembrar a nossa força maior. Exalar longamente ajuda a desapegar do controlo.

- Autoanálise humilde (svadhyaya): Quando sentir orgulho ou ofensa (duas faces de Asmita), pergunte a si mesmo: "Quem está ofendido aqui? O meu Ser verdadeiro ou a imagem que criei de mim mesmo?"

 

Vou agora falar um pouco sobre uma atitude muito vulgar hoje que é Asmita espiritual que considero como uma das armadilhas das mais subtis, camufladas e difíceis de detetar no caminho do autoconhecimento. Ele acontece quando o ego não é dissolvido ou integrado, mas sim vestido com roupas espirituais.

Em vez de se desapegar da sua identidade, a mente simplesmente troca os apegos antigos (bens materiais, estatuto social, beleza física) por apegos novos e "mais nobres" (conhecimento sagrado, pureza dietética, experiências místicas, capacidade de meditação).

 

5. Como é que asmita espiritual se manifesta?

O ego adora sentir-se especial e superior, quando começamos a estudar a cultura indiana, o Yoga, a meditação ou o Ayurveda, ele encontra um banquete de novos conceitos para se alimentar. Eis alguns comportamentos típicos do ego espiritual:

- O complexo de superioridade "pureza": Julgar secretamente (ou abertamente) quem come carne, quem bebe café, quem ingere álcool, quem não medita ou quem vive uma vida puramente materialista, com estes pensamentos o que está subjacente é: "Eu sou mais limpo/desperto do que eles".

- Vaidade do conhecimento: Usar termos complexos em sânscrito, citar escrituras ou corrigir os outros constantemente, não para ajudar, mas para demonstrar erudição e autoridade espiritual.

- O pedestal do instrutor/professor/terapeuta: Neste caso o sentir que, por se compreender certos conceitos energéticos ou de saúde, se tem o direito de "salvar" ou "consertar" a vida dos outros, criando uma relação de dependência e poder.

- Exibicionismo espiritual: A necessidade de performar a espiritualidade, de postar fotos perfeitas em meditação, ostentar o número de retiros feitos ou falar constantemente sobre as "intuições e sincronicidades" que recebe, procurando validação externa para o seu progresso interno.

 

O mecanismo psicológico: a sombra camuflada

O psicólogo Carl Jung falava muito sobre a "Sombra" que é a parte de nós que rejeitamos e escondemos. O ego espiritual é extremamente perigoso porque ele usa a luz (a espiritualidade) para esconder a sombra.

Quando alguém critica o ego espiritual de forma agressiva, muitas vezes está a usar a própria espiritualidade para justificar a sua falta de empatia. É o famoso: "Eu estou a dizer-te isto com amor incondicional, mas tu estás desalinhado."

Se uma pessoa tem um ego materialista forte (orgulho de um carro caro), a sociedade ou a própria pessoa consegue identificar a vaidade com facilidade. Mas se o orgulho for "eu consigo meditar duas horas por dia e não me irrito com nada", a mente mascara o orgulho como "evolução", tornando-o quase invisível para quem o carrega.

 

Como o Yoga/Ayurveda e o Tantra veem esta armadilha?

Nas tradições indianas, este fenómeno é muito bem conhecido e documentado há milénios:

- No Yoga/ Ayurveda: O ego espiritual é a manifestação mais refinada de Asmita (a individualização) ligada a Raga (o apego ao prazer das experiências espirituais). Ramakrishna, dizia que o "ego maduro" ou o "ego do devoto" é aceitável se nos empurrar para Deus, mas se nos afastar da compaixão pelos outros, tornou-se um veneno.

- No Tantra: Há um aviso severo contra o desenvolvimento de Siddhis (poderes psíquicos ou energéticos). O Tantra ensina que muitos praticantes estagnam no caminho porque se apaixonam pela sua própria energia, pelo seu magnetismo ou pela sua capacidade de ler o campo dos outros, esquecendo que o objetivo final é a dissolução do nosso ser interior, não o fortalecimento do "bruxo" ou do "guru" interior.

 

O antídoto de como manter os pés na terra?

Para não cair (ou para sair) desta armadilha, a tradição védica oferece ferramentas de ancoragem muito claras:

- O Teste do Quotidiano: A sua espiritualidade não é medida pelo modo como se comporta no seu altar ou no tapete de Yoga, ou no gosto do seu paciente, mas sim como trata o funcionário do supermercado, como reage ao trânsito ou como lida com um familiar difícil. O quotidiano é o detetor de mentiras do ego espiritual.

- Auto-ironia e humildade: Ser capaz de rir de si mesmo. O ego espiritual é extremamente solene, rígido e leva-se demasiado a sério. A capacidade de reconhecer as próprias contradições com leveza e quebra da rigidez de Asmita.

- Lembrar a definição de advaita (não-dualidade): Se a base da filosofia indiana é de que somos todos expressões da mesma consciência una, então não existe "eu sou mais evoluído", existe apenas a consciência a expressar-se em diferentes estágios de lucidez. Olhar para alguém "não espiritualizado" deve gerar compaixão e identificação, nunca superioridade.

 

Escrever sobre este tema é tentar proporcionar um bálsamo de lucidez, e ao mesmo tempo mostrar que o caminho espiritual não nos torna sobre-humanos ou perfeitos; torna-nos simplesmente mais humanos, mais integrados e infinitamente mais gentis com as falhas alheias.

Na espiritualidade moderna, existe muito o risco e um perigo do "Ego Espiritual", pois quando usamos o conhecimento védico, os cristais, as dietas puras ou os mantras, as plantas e os seus nomes e as propriedades para nos sentirmos superiores aos outros os problemas aparecem, mas o que deveria acontecer é que a nossa verdadeira evolução espiritual se mede pela nossa capacidade de compaixão e humildade, pelo nosso serviço de utilidade publico e não pelo tamanho do nosso conhecimento.

Este é um tema importantíssimo nos dias de hoje que certamente vai ressoar muito com todos os que o lerem, podendo trazer uma reflexão necessária e terapêutica para os tempos atuais.

 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da Medicina Ayurvédica e do seu estilo de vida.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Pedra de Alúmen - Phitkari

Instituto de medicina Ayurvedica

Pedra de Alúmen

Já há muito que tenho este artigo quase pronto mas estes dias resolvi concluir para responder a algumas questões que me colocam sobre esta pedra de alúmen e aqui está.

O alúmen de potássio (frequentemente designado como pedra-ume ou como pedra de alúmen) possui importantes utilizações na Medicina Ayurvédica, na medicina convencional e na dermatologia. É um daqueles produtos fascinantes que atravessam milénios desde a medicina mais antiga até aos desodorizantes modernos, mas que hoje em dia divide muitas opiniões.

Vou tentar desmistificar muitas das questões colocadas sobre a pedra de Alúmen tentando ir desde a ciência até ao lado mais espiritual.

O alúmen é um mineral natural composto por uma combinação de alumínio, potássio e sulfato com a fórmula química KAl(SO₄)₂⋅12H₂O, unindo potássio, alumínio, enxofre, oxigênio e água. De forma geral, a fórmula que representa a estrutura química de um alúmen é - AB(SO₄)₂⋅12H₂O - em que:

- A representa um metal monovalente (como potássio K⁺, sódio Na⁺ ou amónio NH₄⁺).

- B representa um metal trivalente (como alumínio Al³⁺, ferro Fe³⁺ ou crómio Cr³⁺).

- SO₄ são os radicais sulfato que são compostos por um átomo de enxofre (S) no centro, quatro átomos de oxigénio (O) envolvente e duas cargas negativas (-2), o que significa que possui dois eletrões em excesso. Na estrutura do alúmen, este radical liga-se aos metais para estabilizar a carga elétrica do sal composto.

- 12H₂O são as moléculas de água de cristalização (dodeca-hidratado 

Vantagens e Desvantagens do Alúmen

Vantagens

- Excelente Antibacteriano: Ele não impede o suor (não entope os poros), mas elimina as bactérias que causam o mau odor.

- Alta Durabilidade: Uma única pedra de alúmen de boa qualidade pode durar mais de um ano, sendo extremamente económica.

- Sustentável: É uma alternativa eco-friendly, livre de embalagens plásticas descartáveis, perfumes sintéticos e álcool.

- Ação Cicatrizante e Adstringente: Ótimo para estancar pequenos cortes (muito usado no pós-barbear) e fechar os poros.

Desvantagens

- Não é Antitranspirante: Se o seu objetivo é parar de suar, o alúmen não vai resolver, pois vai continuar a suar, mas sem odor.

- Adaptação Inicial: O corpo pode passar por um período de "desintoxicação" de alguns dias quando muda dos antitranspirantes convencionais para o alúmen.

- Frágil: Se a pedra cair no chão da casa de banho, parte-se facilmente em pequenos pedaços.

A Polémica dos Componentes (O Alumínio)

Esta é a maior fonte de confusão. Muitas pessoas compram a pedra de alúmen a achar que estão a usar um produto "sem alumínio", isso é um mito, ou melhor, sim, ele contém alumínio, contudo, há uma diferença crucial na forma como ele atua:

- Antitranspirantes comuns (Cloridrato de Alumínio): Possuem moléculas muito pequenas que penetram na pele, entram nas glândulas sudoríparas e bloqueiam mecanicamente a saída do suor. Há debates na comunidade científica (embora sem consenso definitivo) sobre a sua bioacumulação e ligação a problemas de saúde.

- Pedra de Alúmen (Alúmen de Potássio): Tem uma molécula muito maior que não é absorvida pela pele, mas que se dissolve à superfície da pele, criando uma camada salina microscópica que apenas impede a proliferação das bactérias.

Atenção ao rótulo: Certifique-se de que compra Potassium Alum (natural) e evite o Ammonium Alum, que é uma versão sintética feita com subprodutos da indústria química e esta sim muito prejudicial à saúde, mas a mais comum a ser usada.

Modos de Uso

  1. Como Desodorizante: Molhe a ponta da pedra em água e aplique generosamente nas axilas limpas. Deixe secar antes de se vestir.
  2. Pós-Barbear ou Pós-Depilação: Passe a pedra húmida na zona depilada/barbeada para acalmar a pele, fechar os poros e evitar os pelos encravados.
  3. Cicatrizante: Aplique diretamente num pequeno corte durante alguns segundos para estancar o sangue.

Aplicações Tópicas e Dermatológicas (Medicina Convencional)

- Ação Hemostática (Estancar Sangramentos): O uso mais comum é contrair os vasos sanguíneos na superfície da pele como cortes de lâminas de barbear ou pequenos ferimentos após fazer as unhas por exemplo.

- Cicatrização e Antisséptico: O alúmen purificado elimina microrganismos superficiais e contrai os tecidos cutâneos, prevenindo problemas inflamatórios como a foliculite.

- Desodorizante Natural: Por ter propriedades antimicrobianas, ele atua diretamente sobre as bactérias que causam o mau odor nas axilas e nos pés, impedindo a sua multiplicação sem entupir os poros.

- Tratamento de Aftas e Úlceras Orais: Gargarejos diluídos com pó de alúmen purificado ajudam a desinfetar e acelerar a recuperação de lesões na boca.

A Ligação à Medicina Ayurveda

Na Ayurveda, o alúmen é conhecido como Spatika , Sphatika ou Phitkari (esta designação também é utilizada para cristal de quartzo branco e muito naturalmente por spatika lingam ou mesmo spatika mala), e está associado principalmente aos elementos Terra (Prithvi) e Água (Jala) na sua origem física e classificação mineral (Parthiva), Quando analisamos o alúmen através do seu comportamento energético no corpo (Rasa, Virya e Vipaka), ele manifesta uma forte ligação com as propriedades dos elementos Ar (Vayu) e Éter (Akasha), que regem a sua ação adstringente (Kashaya).

Na farmacologia ayurvédica (Rasa Shastra), o alúmen é classificado no grupo Uparasa (minerais secundários com importância terapêutica). Ele pertence à categoria Parthiva, que representa compostos puramente de origem terrestre e mineral, combinando as propriedades estruturais e purificadoras da Terra e da Água como vimos atras.

O efeito do alúmen no corpo é determinado pela combinação de elementos que definem as suas propriedades medicinais:

- Rasa (Sabor) Adstringente (Kashaya Rasa): Dominado pelos elementos Ar e Terra. Esta combinação dá ao alúmen a capacidade de contrair os tecidos, secar o excesso de humidade e estancar sangramentos (Styptic).

- Potência Fria (Shita Virya): O alúmen atua como um agente refrescante que lhe permite acalmar as inflamações, as sensações de queimadura e irritações na pele.

- Impacto nos Doshas: Devido a estas propriedades, o alúmen é amplamente utilizado para pacificar o Kapha (composto por Terra e Água, equilibrado pela ação secante do Ar) e o Pitta (composto por Fogo e Água, equilibrado pela potência fria e adstringente). 

Na tradição Ayurvédica, ele é utilizado de forma bastante ampla:

- Saúde Oral: Diluído em água (aqui as doses devem ser muito controladas e purificadas) para bochechos, ajudando a tratar sangramento nas gengivas, aftas e dores de garganta, devido às suas propriedades adstringentes.

- Tratamentos de Pele: Funciona como um antisséptico e adstringente. Usado em pastas para tratar condições de pele causadas pelo excesso de Kapha ou Pitta (como oleosidade excessiva). Ajuda a estancar pequenos sangramentos de cortes, reduz a irritação pós-barba e minimiza os poros dilatados

- Purificação da Água: Tradicionalmente, uma pedra de alúmen era colocada dentro de recipientes com água turva para fazer com que as impurezas sedimentassem no fundo, tornando a água visualmente mais clara.

- Tratamento de Acne: Quando triturado e misturado com outros ingredientes (como água de rosas), atua no controle da oleosidade e na secagem de espinhas.

- Antitranspirante: Aplicado diretamente na pele húmida, neutraliza as bactérias causadoras do odor e combate a transpiração.

 - Purificação da Água: Usado tradicionalmente para decantar impurezas em águas turvas.

Também pode ser usado nos pés, sendo utilizada principalmente para combater o mau odor, tratar micoses e ajudar na cicatrização de calcanhares gretados. Podemos considerar o uso nas seguintes condições: 

- Desodorizante natural: tal como nas axilas, neutraliza as bactérias que causam o odor (bromidrose) e reduz a transpiração excessiva ao fechar temporariamente os poros.

- Ação antifúngica: O seu pH ácido inibe o crescimento de fungos e bactérias, sendo útil para prevenir infeções como o "pé de atleta".

- Tratamento de gretas: Ajuda a fechar pequenas fissuras e previne inflamações. 

Como usar nos pés

- Escalda-pés (Imersão): Dissolva uma colher de chá de pedra de Alúmen em pó (ou uma pedra inteira) numa bacia com água morna. Deixe os pés de molho por 15 a 20 minutos e no final deve secar bem.

- Pedra em barra (Atrito direto): Humedeça uma pedra de alúmen e esfregue suavemente sobre as solas limpas e húmidas após o banho, deixando secar naturalmente.

- Pó para calçado: Polvilhe uma pequena quantidade de pó de pedra de Alúmen dentro dos sapatos para absorver a humidade e evitar odores ao longo do dia.

Existe outro processo para usar o alúmen que se designa por Sphatika Bhasma, em que o alúmen natural passa por um rigoroso processo de aquecimento e purificação até se transformar num pó medicinal carbonizado. Este pó deve ser devidamente preparado e também deve ser indicada a sua utilização sobre uma supervisão de um médico Ayurvédico ou Terapeuta recomendado. Este Sphatika Bhasma é recomendado para os seguintes problemas:

- Problemas Respiratórios: Atua como um potente anti-inflamatório respiratório, sendo prescrito para tratar tosse seca, bronquite crónica e sintomas associados à pneumonia.

- Controlo de Hemorragias Internas: É utilizado para conter sangramentos gastrointestinais (como sangue no vómito) ou distúrbios menstruais graves (menorragia).

- Saúde Digestiva: Ajuda a equilibrar o calor interno do corpo (Pitta dosha), aliviando problemas como azia extrema, gastrite e dores abdominais.

Vertente Espiritual e Ritualística

 Se formos além da química e da medicina, o alúmen tem uma carga mística muito forte em várias culturas (como no Médio Oriente, Norte de África e em vertentes do esoterismo ocidental).

Devido à sua capacidade física de "reunir e solidificar" impurezas (como faz na água), o alúmen é visto espiritualmente como um poderoso íman de energias negativas.

- Proteção contra o "Mau Olhado": Em algumas culturas mediterrâneas e árabes, queima-se um pedaço de alúmen num carvão para afastar a inveja. Diz a tradição que, ao derreter, o alúmen toma a forma do olho da pessoa que estava a emanar a energia negativa.

- Limpeza Energética do Ambiente: Colocar uma pedra de alúmen num copo com água atrás da porta de entrada de casa serve para absorver as "más vibrações" que entram. Se a água ficar turva ou a pedra começar a criar cristais estranhos, diz-se que cumpriu a sua função de barreira protetora.

- Corte de Pesadelos: Antigamente, colocava-se uma pequena pedra debaixo da almofada de crianças ou adultos que sofriam de pesadelos recorrentes, para "limpar" a mente durante o sono. 

O alúmen pode ser considerado como um verdadeiro camaleão, ele é um antitranspirante eficaz e seguro (desde que natural), e ao mesmo tempo um remédio milenar na Ayurveda e um amuleto de proteção no esoterismo.

 

Uma das maiores preocupações que leva as pessoas a levantar algumas questões sobre o uso da pedra de alúmen é a associação que é feita do alumínio nos desodorizantes / anti-transpirantes com o cancro da mama, pois este é um tema que circula há anos e gera muitos medos e um questionamento pessoal.

Vou tentar analisar o que a ciência diz concretamente sobre isso, separando os factos dos mitos, e explicar como o alúmen se encaixa nesta história.

 

O medo de usar o Alúmen por conter alumínio

A teoria que associa os antitranspirantes ao cancro da mama baseia-se em três pressupostos principais:

1.     O bloqueio do suor: Alega-se que, ao "selar" as glândulas sudoríparas, o corpo deixa de conseguir eliminar toxinas através das axilas, e que essas toxinas se acumulariam nos gânglios linfáticos da região mamária, originando tumores.

2.     A proximidade anatómica: Como os antitranspirantes são aplicados perto da mama (e no quadrante superior externo da mama, onde estatisticamente surgem mais tumores), assume-se uma ligação direta.

3.     O efeito estrogénico: O alumínio poderia agir como um "metaloestrogénio" (uma substância que mimetiza a hormona estrogénio), e níveis elevados de estrogénio estão ligados ao risco de cancro da mama.

 

O que diz a Ciência e a Oncologia sobre estas questões?

Grandes instituições mundiais de saúde como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Instituto Nacional do Cancro (EUA), a Cancer Research UK e a Liga Portuguesa Contra o Cancro, não encontraram evidências científicas que comprovem a ligação entre o alumínio do alúmen e o cancro da mama.

Aqui estão as explicações científicas para desmistificar aqueles três pontos:

- O corpo não elimina toxinas pelo suor da axila: A principal função do suor é regular a temperatura do corpo. As toxinas do nosso organismo são filtradas e eliminadas pelo fígado e pelos rins (através da urina e das fezes), não pelas glândulas sudoríparas. Bloquear o suor na axila não acumula toxinas no corpo.

- A estatística do quadrante da mama: A razão pela qual aparecem mais tumores no quadrante superior externo da mama (perto da axila) é puramente biológica, pois é nessa zona que existe muito mais tecido mamário e mais estagnação em comparação com os outros quadrantes. Logo, há uma probabilidade matematicamente maior de surgir um problema ali, independentemente do uso de desodorizante.

- A absorção do alumínio é ínfima: Estudos mostram que a quantidade de alumínio que consegue realmente penetrar na pele através de um antitranspirante comum é extremamente baixa ou até nula como disse atrás (cerca de 0,012%). Absorvemos muito mais alumínio diariamente através da alimentação (na água, em vegetais ou mesmo nos utensílios de cozinha) do que pela pele da axila.

 

Uma das questões que se coloca é se a pedra de alúmen sela a pele?

Aqui está a grande vantagem da pedra de alúmen (Potassium Alum) face aos antitranspirantes convencionais de supermercado (Aluminum Chlorohydrate estes sim mais complicados):

Como expliquei antes, as moléculas do alúmen de potássio são demasiado grandes para penetrar na pele e bloquear os poros, portanto:

1.     Não é um selante: A pedra de alúmen não impede o corpo de suar, ela apenas cria uma camada salina e purificante à superfície da pele que mata as bactérias que causam o mau cheiro.

2.     Livre desse debate: Como o alúmen não penetra nas glândulas e deixa a pele respirar e transpirar livremente, ele fica completamente fora dessa polémica dos "selantes" e de qualquer risco teórico de acumulação.

 

Se a sua grande preocupação é o medo do cancro da mama ou mesmo do bloqueio agressivo dos poros, a pedra de alúmen natural é uma excelente alternativa de transição. Ela vai dar-lhe a paz de espírito de estar a usar um mineral que funciona à superfície, permitindo que o seu corpo faça o processo natural de transpirar, mas sem o desconforto do odor.

Cuidados Importantes e Contraindicações

Embora o alúmen traga múltiplos benefícios, o seu uso exige cautela:

- Evite a ingestão caseira: A ingestão do alúmen cru comercial pode provocar graves hemorragias gastrointestinais e toxicidade. Na medicina tradicional, ele só é consumido após processamento farmacêutico específico (Bhasma) e em doses muito pequenas.

- Irritação: Pessoas com peles extremamente sensíveis podem apresentar vermelhidão ao aplicar a pedra diretamente na pele.

- Secura da pele: Como é um mineral adstringente forte, o uso excessivo de pode causar secagem excessiva ou uma irritação na pele, que pode agravar Vata.

- A aplicação direta como pedra deve ser sempre feita umedecendo a pedra e depois passar suavemente durante até um minuto e depois deve sempre enxaguar.

- Se fizer o uso do pó, como por exemplo uma máscara facial com alúmen só deve ser aplicada uma vez por semana.

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Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da Medicina Ayurvédica e do seu estilo de vida.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti