
A limpeza
dos samskaras através da meditação
Compreender como limpar a nossa mente
e o corpo subtil das impressões acumuladas é um passo gigante na nossa jornada
espiritual que precisa de alguma persistência pessoal e ao mesmo tempo a
aceitação da técnica.
No universo das práticas
meditativas, a meditação Vipassana
numa estreita relação com o Yoga Nidra
são amplamente consideradas como as mais indicadas e eficazes para a dissolução
e libertação de samskaras, e de todas as cargas emocionais e pessoais.
Aqui deixo outras técnicas para
compararem e tirarem as suas elações sobre cada uma delas explorando as suas
correntes meditativas para se possa compreender a sua mecânica e como cada uma
lida com a mente e as emoções.
1.
Meditações da Tradição Theravada
O Budismo Theravada ("A Escola
dos Anciãos") foca-se na atenção plena e na análise direta da realidade. Existem
duas práticas pilares nesta tradição:
Anapanasati
(Atenção Plena à Respiração)
A pessoa foca toda a sua atenção
exclusivamente num ponto específico onde sente o ar entrar e sair (geralmente
nas narinas ou no lábio superior). Sempre que a mente se dispersa, regressa-se lentamente
à respiração.
Esta
técnica tem como objetivo desenvolver Samadhi a concentração profunda e
acalmar o nosso sistema nervoso.
Ela atua diretamente na "escavação" dos samskaras, mas funciona como um
anestésico e estabilizador emocional rápido para o stress do dia a dia.
Metta
Bhavana (Meditação do Amor Bondoso)
Esta
prática começa por direcionar sentimentos de
amor, paz e segurança para si mesmo, expandindo-os progressivamente para pessoas
queridas, pessoas neutras, pessoas difíceis com quem tem conflitos e,
finalmente, para todos os seres vivos.
O objetivo
desta prática é o de cultivar a
compaixão e a empatia universal.
Esta é uma ferramenta também do Vipassana e é considerada
como uma das ferramentas mais potentes do Theravada para dissolver o samskara da raiva, do ressentimento e
da mágoa, substituindo-as por uma vibração de benevolência.
Leia mais sobre metta bhavana aqui
2. Meditação
dos Corações Gémeos (Pranic Healing)
Criada pelo Grand Master Choa Kok
Sui (fundador da Cura Prânica), esta é uma técnica energética e não uma técnica de silêncio mental clássico.
Ela baseia-se na ativação de dois centros de energia
principais (chakras): o Chakra do
Coração (centro da emoção humana) e o Chakra da Coroa (centro do amor divino), em que a pessoa abençoa a
Terra com amor, paz e cura, visualizando o planeta enquanto projeta luz.
O objetivo
desta prática é o de purificar a
aura e os chakras, agindo como um canal de energia divina.
Se a
técnica for bem feita e bem aplicada ao canalizar uma enorme quantidade de energia espiritual de alta
frequência, esta meditação funciona como um "banho de pressão" no nosso
corpo subtil, expulsando as energias negativas acumuladas, as formas de pensamento
de ansiedade e as nuvens emocionais pesadas de forma muito rápida.
3. Meditação
Zen (Zazen)
Esta prática oriunda do Budismo
Mahayana, a prática do Zazen foca-se na postura sentada correta, virado para
uma parede, de olhos semiabertos. A instrução principal é "apenas
sentar-se" (Shikantaza),
não se foca na respiração, não se visualiza nada, apenas se testemunha a
realidade exatamente como ela é no presente.
Uma das
questões desta prática é que ela ensina um
desapego radical, em que as emoções surgem e desaparecem como nuvens no céu,
sem que cada um de nós se agarre a elas.
4. Meditação
Transcendental (MT) / Meditação com Mantras
Esta
técnica utiliza um
som sagrado específico (um mantra, como o som OM ou mantras personalizados) que é repetido mentalmente de
forma contínua durante a prática.
O objetivo
é que o mantra funciona como um veículo que
distrai a mente consciente, permitindo que cada um de nós "mergulhe"
e transcenda para níveis mais profundos e silenciosos da consciência.
Esta
técnica tem como premissa promover um
relaxamento fisiológico tão profundo que permite ao corpo libertar o stress
físico e psicológico acumulado no dia a dia com grande eficácia.
5. Meditação
Kundalini (Ativa)
Esta
prática foi popularizada por pessoas como Osho, que
tem como objetivo o de romper com o conceito de ficar estático, envolvendo
fases de respiração caótica, movimentos corporais catárticos como sacudir o
corpo ou dançar livremente, seguidos por momentos de silêncio absoluto.
Esta
prática tem muita aceitação na
mentalidade ocidental moderna, pois muitas vezes, estamos demasiado agitados
para nos sentarmos em silêncio, mas segundo a Medicina Ayurvédica Vata é
movimento e agitação e quando aumentamos o movimento e a agitação corporal
estamos a agravar Vata, apesar desta prática usar o movimento para tentar "espremer"
e libertar fisicamente as emoções reprimidas (raiva, tristeza, frustração)
antes de entrar no estado meditativo.
Existem hoje diferentes técnicas de
Meditação em que cada um vai criando a sua mas pela experiência que tenho o
combate com a agitação faz-se com silêncio. Só quando encontrar o silêncio em
mim é que percebo a agitação onde estou metido e envolvido.
Vou agora falar um pouco mais detalhadamente
por que a Vipassana detém a "chave" para a libertação, além de
explorar as suas vantagens e impactos em nós e na nossa envolvente.
Algumas das técnicas e práticas de
hoje vão buscar ás meditações mais antigas como por exemplo ao Vipassana partes da técnica
e depois tornam-nas autónomas como por exemplo a Meditação
de Concentração (Shamatha / Anapanasati), que se vai focar apenas num ponto, geralmente na respiração, na zona
entre as sobrancelhas ou mesmo na chama de uma vela e com isto tentar acalmar a
nossa mente agitada, mas atua mais na superfície corporal, podemos dizer como
calmante. Eu considero que esta prática muitas das vezes são importantes para a
concentração, mas nunca vão atingir as nossas zonas mais internas. Posso dizer
que é como aquelas pessoas que dizem que fazem meditação ao nadarem, ou aquelas
que dizem que meditam a desenhar ou mesmo aquelas que dizem que meditam a ler, tudo isto auxilia no foco mas não nas eliminações mais profundas, dos
samskaras.
Outra das
técnicas que foi separada é designada pela Meditação da Bondade Amorosa (Metta), que é diferente da meditação
dos corações e vai-se focar em cultivar
sentimentos de amor, compaixão e perdão, sendo importante num processo de cura
de relações, pois foca-se em gerar novos estados mentais positivos, em vez de
"escavar" o passado. Como podemos verificar as práticas isoladas proporcionam alterações de estados mentais mas tem muita dificuldade de atingir estados físicos
internos e profundos.
Na
meditação Vipassana estas duas estão incluídas tanto o Anapana como Metta e
além disso ainda inclui a técnica que dá o nome à prática a Meditação Vipassana
ou Visão Penetrante. Esta prática
de fazer varrimentos e de observar as sensações corporais com total
equanimidade sem julgar e sem reagir. Considero que esta técnica é a mais
indicada para os dias de hoje e também a considero como a mais indicada para a libertação e eliminação dos
samskaras.
Por que a
Vipassana é a mais indicada para libertar Samskaras?
Podemos considerar que os samskaras são cicatrizes emocionais,
marcas latentes criadas pelas nossas reações passadas tanto de desejo ou de
aversão. Quando algo nos acontece no dia a dia, nós reagimos quimicamente e
emocionalmente, e essa energia fica marcada e guardada tanto no nosso corpo
físico como no subtil.
Na meditação Vipassana, ao
sentarmo-nos em silêncio e ao passarmos a atenção por todo o corpo alguns
desconfortos vão surgir eventualmente velhas dores, tensões, calor, comichão,
etc. e estes desconfortos físicos são nem mais nem menos que os samskaras a manifestarem-se na
matéria.
A chave que o Vipassana utiliza é a equanimidade:
Dou aqui alguns exemplos como o
aparecimento de uma velha carga emocional como por exemplo uma raiva reprimida
que se vai manifestar através de um aperto no peito ou calor. Outro caso é que em vez de reagir
com frustração, gerando um novo samskara
deve apenas observar e não vivênciar. Ao observar sem reagir, o ciclo
vicioso quebra-se e automaticamente vai ficar sem "combustível" para
se renovar, fazendo com que o samskara
esgota a sua energia e se dissolve
permanentemente.
Nota: O Yoga Nidra
(o sono profundo) também é uma ferramenta poderosíssima complementar, pois leva
o cérebro a ondas Delta e Theta, que acedem diretamente ao
subconsciente onde os samskaras
estão enraizados, permitindo uma "limpeza de disco rígido" enquanto o
corpo relaxa profundamente.
Vantagens
Espirituais da Libertação dos Samskaras
Limpar tanto estas impressões do passado como as criadas traz benefícios profundos para a alma, pois vão purificar o nosso corpo Subtil (Chittashuddhi),
fazendo com que a mente se torne um espelho limpo, sem a
"lama" dos traumas passados, fazendo com que a nossa perceção da realidade se torne cristalina. Um exemplo interessante para exemplificar é aquilo que se passa num
rio em que a agua é limpa e cristalina (que corresponde ao momento quando
nascemos) e depois vamos atirando coisas para o rio, pedras que caem folhes que
caem, detritos que aparecem pessoas a sujar. Todas estas impressões são
samskaras mas acreditem que quando todos nós vemos uma agua limpa logo nos apetece atirar
coisas lá para dentro, é assim que funciona a nossa mente.
Por outro
lado, como os samskaras são as sementes do karma, ao dissolvê-los na
meditação, vamos libertar-nos de padrões repetitivos de sofrimento e de destino,
fazendo despertar em nós uma Consciência
(Vairagya) que se vai desenvolver
num desapego saudável, deixando de ser escravo dos nossos desejos impulsivos ou
dos nossos medos irracionais, aproximando-nos do nosso Eu Verdadeiro (Atman ou Purusha).
Importância
nos Comportamentos Pessoais e Comunitários
A meditação que limpa os samskaras não é nem pode ser considerado como um acto egoísta, pois com ele também vamos transformar radicalmente a forma como interagimos com o mundo.
O impacto no
nosso comportamento pessoal
Uma das questões que nos vai aparecendo é o fim da nossa reatividade automática
que se expressa no nosso dia a dia,
quando alguém nos insulta ou mesmo quando alguma coisa corre mal, a nossa
reação já não é de forma explosiva, havendo um espaço entre o estímulo e a nossa
resposta.
Outra
questão importante é a cura de traumas e ansiedade, em que as cargas emocionais diárias deixam de se acumular sob
a forma de ansiedade crónica, de insónia ou mesmo de depressão. Com isto tudo
aparece outra caraterística importante que é a autenticidade, pois ao limpar o que "adquirimos" do
exterior, vamos passar a agir com base na nossa essência, e não com base em
defesas psicológicas e externas.
O impacto no
nosso comportamento comunitário
Com o
evoluir da prática vai aparecendo uma relação baseada na empatia, pois quando limpamos a nossa própria dor, passamos a olhar
para a dor do outro com uma compaixão pura, em vez de projetar as nossas
frustrações nos amigos, parceiros ou colegas de trabalho.
Outra das
questões importantes que nos vai aparecendo é a criação de ambientes à nossa
volta de paz, pois uma pessoa livre
de samskaras pesados e densos torna-se
uma presença pacificadora, onde não há conflito e a nossa energia equânime nos vai ajudar a
acalmar os ânimos à nossa volta.
E não
menos importante é que quando o nosso corpo fica mais limpo vamos agir mais
numa cultura de cooperação com o outro e ao mesmo tempo vamos assumir uma atitude de não-violência
(Ahimsa). Ao analisarmos grupos de pessoas ou mesmo comunidades que
meditam vamos considerar e registar drasticamente menores taxas de
agressividade, maior tolerância à diferença e um espírito natural de
entreajuda.
Em síntese se nos focarmos no Vipassana ou em práticas profundas de
Yoga Nidra voltadas para a observação corporal vamos passar a encontrar um caminho
mais direto para "esvaziar a mochila" que carregamos todos os dias.
A prática do dia-a-dia
Trazer a observação equânime para a
"agitação" do nosso dia a dia é quando a meditação se transforma numa
verdadeira sabedoria. Quando nos sentamos num espaço de meditação o nosso ambiente
é controlado, mas é na fila do trânsito, numa discussão ou num momento de
stress que a técnica é realmente testada.
Para aplicar a equanimidade no
quotidiano, não precisamos de fechar os olhos. O segredo é criar um "espaço de manobra" entre o
que nos acontece e a nossa reação.
Para mim a aprendizagem da técnica
de meditação deve inicialmente ser sempre acompanhada e guiada pois não temos
força de vontade, tudo é estranho, a agitação é dolorosa o que nos faz desistir
facilmente da prática e ao mesmo tempo vamos fazendo sempre técnicas e práticas
mais suaves, mas que não conseguem ter o efeito pretendido. Como digo os vídeos
do Youtube com meditações de uma hora são poucos e com pouca visibilidade enquanto
que os vídeos mais curtos de meditação têm imensas visualizações pois as pessoas
encaram a dor como um sofrimento que não toleram e por isso permanecem sempre
em meditações ativas ou curtas para não sentirem qualquer incomodo.
Aqui vos deixo um roteiro simples,
dividido em 4 passos práticos, para aplicar ao longo do seu dia:
Sempre que sentirmos que uma situação
do dia a dia o está a destabilizar emocionalmente, um e-mail rude, uma
provocação, uma notícia má ou até uma pressa repentina, ative este processo de
gestão mental:
Passo 1:
Fazer uma Pausa (O Botão de Pause)
Deve interromper imediatamente o que está a fazer ou a
dizer durante pelo menos durante 3 a 5
segundo, ou mesmo se estiver a falar, engula em seco ou respire antes de
responder.
Neste caso
a reação ao samskara é automática e biológica, pois esta micro-pausa quebra
o automatismo repetitivo do nosso cérebro.
Passo 2:
Mudar o Foco da Mente para o Corpo
Aqui em vez de se focar no problema
exterior, na pessoa que o irritou ou no problema que surgiu, vire a sua atenção para dentro e pergunte-se
secretamente: "Onde é que isto me
está a bater no corpo?"
Com isto
vamos perceber que a raiva é um aperto no
estômago, a ansiedade é um batimento cardíaco acelerado, a frustração é uma
tensão nos ombros ou maxilares. Automaticamente consideramos que o gatilho
exterior é apenas o espelho e o samskara
real está a manifestar-se como uma sensação física neste exato momento.
Passo 3:
Observar sem Julgar (a Equanimidade)
Olhe para essa sensação física como
se fosse um cientista a observar uma experiência no laboratório, não tente
expulsar o aperto no estômago, não se sinta culpado por estar irritado, apenas
sinta: "Ah, olha aqui o meu peito
a queimar. Olha aqui a minha respiração mais rápida."
Ao não lutar contra a sensação ou a
aversão e ao não se alimentar dela com mais pensamentos de fúria com o desejo
de retaliação, aí devemos permanecer equânimes.
Passo 4:
Lembrar a Impermanência (Anicca)
Mentalmente, repita para si mesmo a
palavra: "Impermanente" ou "Isto também vai passar".
Tudo na natureza surge e desaparece, por isso aquela sensação de calor ou
aperto vai atingir um pico e, se não lhe der "combustível" com novos
pensamentos, vai acabar por perder força e dissipar-se.
Costumo aqui dar um exemplo imagine
que numa prática começa a pensar o que vai fazer para o jantar, nesta fase se
nos focarmos na respiração ou mesmo desviarmos a atenção tudo passa, mas se
começar a pensar que vou fazer um arroz depois vou pensar que não tenho arroz
em casa, que tenho de passar pelo supermercado, mas já que vou ao supermercado
vou aproveitar para trazer outras coisas e sem dar por ela estou a fazer a
lista de compras de supermercado. Isto é um exemplo pratico de como podemos facilmente alimentar ou dar
combustível a um pensamento.
Consulte mais aqui sobre anicca e a lei da impermanencia
Praticar
"Em Silêncio" Durante o Dia
Pode treinar esta capacidade em
momentos neutros da sua rotina para que, quando os momentos difíceis chegarem,
o seu "músculo da equanimidade" já esteja forte.
Coloque 2 ou 3 alarmes silenciosos
no telemóvel ao longo do dia e quando tocarem, onde quer que esteja, faça um scan rápido de 30 segundos ao corpo,
relaxe os ombros, relaxe o maxilar e sinta os seus pés no chão e relaxados.
Outra
maneira é quando estiver numa fila de
supermercado, no trânsito ou à espera de um elevador, resista à tentação de
pegar no telemóvel. Use esse momento para observar a urgência ou a impaciência
a surgir no corpo, e simplesmente assista a ela sem se mover.
Quando alguém estiver a falar
consigo especialmente se for alguém que costuma ser tóxico ou difícil, foque-se
em ouvir as palavras sem planear a sua resposta na sua cabeça e ao mesmo tempo
vá observando as suas reações internas enquanto escuta.
No início, isto vai parecer estranho
ou vai esquecer-se de o fazer e só se vai lembrar horas depois de ter reagido
mal, é perfeitamente normal e deve ser equânime nas suas exigências e vai
percebendo que com a prática contínua, o espaço de observação vai surgir durante os diferentes momentos,
permitindo-nos escolher agir com compaixão e clareza, em vez de reagir com base
nos velhos traumas acumulados.
Que desfrutem de todo este
conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina
Ayurvédica.
"Bhavatu Sabba Mangalam"
Shanti, Shanti, Shanti