Shatkona é um dos símbolos mais profundos da tradição espiritual indiana. À primeira vista, parecem apenas dois triângulos entrelaçados — mas, na verdade, ele é um mapa completo da consciência e da criação.
Estrutura do Shatkona
O símbolo é formado por:
Triângulo para cima representa Shiva 🔺
Triângulo para baixo representa Shakti 🔻
A união dos dois cria uma estrela de seis pontas.
Significado espiritual essencial
O Shatkona representa:
1. União dos opostos
- Espírito e matéria
- Consciência e energia
- Masculino e feminino
- Silêncio e movimento
Não são forças separadas, nem são opostos, são aspectos de uma mesma realidade
2. O mistério da criação
Antes da união:
Shiva é potencial puro (não manifesta)
Shakti é energia em movimento (manifestação)
Quando se encontram vai acontecer a criação, a experiência e o universo
O Shatkona é o momento eterno onde o invisível se torna visível
3. Leitura interna (muito profunda)
Dentro de nós mesmo podemos considerar que :
Shiva é a consciência em nós que observa
Shakti são os nossos pensamentos, emoções e energia
Quando estes duas entidades estão separadas vai existir confusão, sofrimento e a identificação com a mente, mas quando estão em união vai existir clareza, presença e alinhamento.
O Shatkona representa o estado onde nós vivemos, mas também a maneira de não nos perdemos no lugar onde vivemos.
4. Centro do Shatkona
O ponto central considerado invisível representa o OM ou pode ter como representação um bindhu, que representa o elemento vazio pleno, o ponto de equilíbrio absoluto e ao mesmo tempo o “testemunho silencioso”
É no centro onde tudo acontece, mas onde nada nos prende, mas onde todas estas forças giram em torno desse ponto.
Relação com Murugan
Quando Shiva e Shakti estão perfeitamente integrados nasce um terceiro estado e este estado é simbolizado por Murugan definindo a consciência em ação, a sabedoria viva e o equilíbrio dinâmico, em que Shatkona é o “campo” e Murugan é o “resultado vivo”
Dimensão energética
O Shatkona também pode ser considerado como o sentido do fluxo de energia no nosso corpo em que a energia ascendente (kundalini subindo) e a energia descendente (a graça, consciência descendo), considerando que quando elas se encontram ocorre expansão da consciência e o equilíbrio dos nossos campos.
Uma leitura ainda mais sutil
O Shatkona não é apenas um símbolo estático, ele é um movimento contínuo de subida e descida, uma dança entre vazio e a forma e o equilíbrio vivo entre o ser e o fazer.
Quando esse equilíbrio acontece em nós mesmo não vamos fazer esforços excessivos, não vai existir resistências e ao mesmo tempo todo o nosso fluxo vai ser natural.
Aplicação prática (meditação)
Podemos usar o Shatkona como um yantra e focalizando-o:
- Visualize o triângulo para cima (consciência)
- Visualize o triângulo para baixo (energia)
- Veja os dois que se interligam
- Foque o centro (silêncio)
Devemos manter o foco e a compenetração considerando que esse ponto é a presença pura e ao mesmo tempo um estado meditativo profundo.
A escola tântrica também utiliza este simbolo em que Shatkona não é apenas um símbolo mas é um diagrama de prática interna, um yantra vivo. Como vimos atrás representa a união sagrada entre Shiva (consciência pura e imutável) e Shakti (energia dinâmica e criadora). Na escola tantrica, isto é vivido no corpo como o triângulo ascendente sendo a energia que sobe (kundalini) e o triângulo descendente é a energia que desce (graça, consciência), em que a perspetiva do encontro com a iluminação, nesta visão, não é fugir do mundo mas sim unir o céu e a terra dentro em nós mesmo.
Esta união é chamada de Maithuna (união sagrada), mas vou aqui considerar um ponto mais profundo, considerando não apenas a parte física mas também simbólica. É um processo interno onde as polaridades se dissolvem, a dualidade desaparece e onde surge uma unidade consciente considerando que Shatkona é o mapa e a representação dessa união.
A Essência tântrica do símbolo Shatkona ensina-nos a não rejeitar o corpo, a não negar a mente, a não fugir do mundo, mas ao mesmo tempo devendo integrar tudo na nossa consciência.

As silabas e o mantra
As sílabas dentro dos pequenos triângulos formam um mantra sagrado muito conhecido na tradição hindu: “OM SARAVANA BHAVA”
No centro dos dois triângulos está o som primordial: Om (ou AUM) e á sua volta aparecem as sílabas: - SA - RA - VA - NA - BHA - VA.
“Saravana Bhava” é um mantra associado diretamente a Murugan que tem como significado- “Saravana” refere-se ao local mítico onde Murugan nasceu (um lago sagrado de juncos) e - “Bhava” significa “ser”, “existência” ou “estado de consciência”
Portanto, o mantra pode ser entendido como “Aquele que nasceu da consciência divina” ou “Que desperte em mim o estado de Murugan”
Cada sílaba representa uma vibração específica, um aspecto da consciência e um ponto energético dentro do nosso corpo. Esta divisão em 6 partes também está associada aos 6 rostos de Murugan e aos 6 centros de energia (chakras principais, em algumas tradições).

Outra leitura também pode ser feita que quando se observa o yantra verificamos o OM no centro que representa a fonte e o absoluto (Shiva), as sílabas a toda a volta representam a manifestação vibracional (Shakti) e todo o conjunto representa o despertar da consciência em forma ativa (Murugan), ou seja, não é apenas um desenho, mas sim um mapa vibracional de meditação.
Ao visualizar o Yantra e entoarmos o mantra OM… SA RA VA NA BHA VA… tomamos consciência que o OM nos foca e centra, que cada sílaba pronunciada e verbalizada ativa todas as nossas camadas internas e as duas em conjunto geram o alinhamento e reorganização do nosso corpo e o aumento da nossa clareza.
Como vemos na imagem Shatkona também apresenta uma leitura cosmológica e tântrica mais completa, integrando várias forças divinas e em que este símbolo deixa de ser apenas Shiva–Shakti e passa a representar todo o ciclo da existência.
Como base e dos princípios da representação de Shatkona o triângulo ascendente define o princípio masculino e a consciência e o triângulo descendente o princípio feminino / energia, mas agora, cada vértice está associada a divindades específicas, considerando que cada vértice representa uma divindade.
No topo aparece Brahma que representa a criação, o aparecimento do universo e o início de tudo, considerado como a energia de nascimento, das ideias e de todas as potencialidades.
Na base está Saraswati que representa a sabedoria, o conhecimento, o som (mantra) e a inteligência que organiza a criação, considerando que sem consciência (Shiva), o conhecimento não floresce.
No lado direito superior está Lakshmi que representa a abundância, a harmonia e a sustentação da vida, considerando que a energia que nutre e expande
No lado direito inferior está Shiva que representa a consciência pura, a dissolução e o retorno ao vazio, considerando o fim que é também o recomeço
No lado esquerdo inferior está Vishnu que representa a preservação, o equilíbrio do universo e a ordem cósmica, considerando que mantém tudo em funcionamento
No lado esquerdo superior está Kali que representa a nossa transformação intensa, a destruição do ego e o tempo e impermanência, considerando que é uma força que rompe com todas as ilusões
Na visão tântrica, isto mostra que não
existe apenas Shiva e Shakti isolados que
existe uma rede de forças interligadas
que quando as pessoas o praticam vão absorver todas estas energias associadas a
todas as divindades, vão aprender
a reconhecer todas estas divindades dentro de si e ao mesmo tempo a integrar
tudo na nossa consciência.
Por tudo isto que vimos podemos considerar que esta imagem do Shatkona nos vai ensinar e transmitir algo mais avançado, considerando que a espiritualidade não é só união de dois polos mas também a integração em nós de todas as forças da existência.
"Om Sarvesham Swastir Bhavatu"
OM Shanti, Shanti, Shanthi







