
Asmita | Ahamkara
Asmita (अस्मिता) é cirúrgica e extremamente relevante para os dias de hoje. Numa era de hiper-exposição digital e de exaltação do "eu", compreender este conceito é uma chave importante para a nossa saúde mental e espiritual.
Vou explorar um pouco sobre esta palavra desde o significado, o impacto e a gestão de Asmita sob a luz das tradições védicas e até numa vertente espiritual.
1. Asmita o que é?
No sânscrito, Asmita deriva da raiz Asmi, que significa "eu sou". Portanto, Asmita traduz-se literalmente como "egoicidade" ou o "sentimento de individualidade" (o "eu sou isso").
No Yoga Sutras de Patanjali (2.6), Asmita é definida como o segundo dos cinco Kleshas (as causas do sofrimento humano):
"Asmita é a identificação errónea da consciência pura (Purusha) com o instrumento de perceção (Buddhi/mente/corpo)."
- Numa consideração saudável e numa dose equilibrada, Asmita permite-nos ter uma identidade no mundo físico, de saber onde termina o meu corpo e começa o do outro, ter discernimento e operar na sociedade.
- Numa consideração distorcida, o problema surge quando nos apegamos cegamente a essa identidade (estatuto, aparência, intelecto), esquecendo a nossa verdadeira essência espiritual.
2. A visão do yoga, ayurveda, tantra e meditação
Cada uma destas quatro ciências irmãs aborda Asmita com uma perspetiva única, mas complementar:
O yoga (a perspetiva da mente)
Para o Yoga clássico, Asmita é um obstáculo que obscurece a iluminação. É a raiz do orgulho e da vaidade espiritual. Quando o praticante de Yoga começa a pensar "Eu sou o melhor praticante", ou "Eu sou mais evoluído energeticamente", ou “vejam os àsanas que faço” caiu na armadilha de Asmita. O Yoga procura dissolver essa falsa identificação através do desapego (Vairagya).
O Ayurveda (a perspetiva da saúde corpo-mente)
No Ayurveda, Asmita está intimamente ligada a Ahamkara (o ego). Quando o ego está hiperativo, ele gera Pragya-aparadha (o "crime contra a sabedoria"). Isto acontece quando sabemos o que nos faz bem, mas o nosso ego escolhe o que nos faz mal por capricho ou desejo de controlo.
Asmita em excesso inflama Pitta (orgulho, ambição cega, raiva) ou agrava Vata (ansiedade por isolamento e medo de perder o controlo).
O Tantra (a perspetiva da expansão e energia)
Ao contrário do Yoga clássico, que muitas vezes procura rejeitar o ego, o Tantra vê Asmita como uma energia que pode ser transmutada. Para o Tantra, a individualidade não deve ser destruída, mas sim expandida. O objetivo é purificar o "pequeno eu" (Asmita limitada) até que ele reconheça que é um reflexo do "Grande Eu" Universal (Shiva-Shakti). É a celebração da divindade dentro da forma humana.
A Meditação (o desarmar Asmita)
Na prática da meditação (Dhyana), Asmita não é vista apenas como um conceito filosófico ou uma falha de caráter; ela é observada como o mecanismo central da mente que impede a nossa presença absoluta.
Na meditação, compreender e desarmar Asmita é o próprio coração do processo de libertação. A meditação aborda este comportamento como um laboratório para a nossa saúde mental.
A. A meditação como o "espelho" de asmita
Quando nos sentamos para meditar, o primeiro choque que levamos é perceber que a nossa mente não para. Esse fluxo incessante de pensamentos é gerado e alimentado por Asmita.
Na meditação, Asmita manifesta-se de duas formas muito claras:
- Na visualização de nós próprios o que reparamos é que a maioria dos pensamentos que surgem na meditação andam à volta de uma personagem: nós próprios. "O que é que eu vou fazer a seguir?", "Porque é que aquela pessoa me tratou mal?", "Será que estou a meditar bem?", “O que estou aqui a fazer?”, “O que é que eu vou fazer de jantar?”. Isto é Asmita a tentar manter a sua história viva.
- Na perspetiva do meditador podemos considerar que é aqui que aparece uma a armadilha mais subtil. A certa altura, o ego apropria-se da própria meditação. Surge o pensamento: "Olha que bem que eu estou a meditar hoje, estou tão calmo", “hoje a meditação foi mesmo boa”. No momento em que estes pensamentos surgem, Asmita separou-o novamente da experiência pura e criou a figura do "meditador experiente".
B. A importância de asmita no processo meditativo
Muitas pessoas acham erradamente que a meditação serve para "destruir" o ego, pensar assim é mesmo um erro crasso e perigoso. Sem Asmita, não saberíamos o nosso nome, não conseguiríamos gerir o nosso dia a dia nem escrever num blog.
A meditação vê a importância de Asmita através de duas perspetivas fundamentais:
- Mudar a relação com o ego (do controlo para a observação)
A meditação ensina-nos a não “lutar” contra Asmita, mas sim a observá-la, e em vez de tentar silenciar o ego à força, o que só o torna mais forte e frustrado, devemos posicionamo-nos como a Consciência Testemunha (Sakshi). Quando um pensamento de orgulho ou arrogância surge, a meditação permite-nos dizer internamente: "Ah, olha ali Asmita a tentar criar uma história. Eu vejo-te." Nesse preciso momento, o excesso de Asmita perde o poder sobre si, porque nós já não somos o pensamento; nós somos é o espaço onde o pensamento aparece.
- A transição de asmita (do pequeno eu para o grande eu)
No caminho meditativo profundo, passamos por dois estágios de Asmita:
- Asmita num estado denso, em que nos identificamos com o corpo, com a profissão, com os traumas e com as opiniões rígidas. A meditação começa por libertar-nos deste peso.
- Asmita num estado subtil (Asmita Samadhi), onde num estado mais evoluído da prática o praticante acalma todas as flutuações da mente (Chitta Vritti) e resta apenas a pura sensação de "Eu Sou", desprovida de rótulos. Não é "Eu sou o Vítor, o arquiteto, o professor Universitário, o terapeuta, o naturopata", mas sim apenas a pura presença de existir. Este é o trampolim para a iluminação final (Samadhi), onde até essa última separação se dissolve na Unidade.
Na meditação, Asmita é como a gravidade. Não precisamos de odiar a gravidade, apenas precisamos de aprender a caminhar com ela sem cair. A meditação não elimina a nossa individualidade; ela simplesmente retira o veneno do egoismo, transformando o "eu sou melhor" no límpido e sagrado "Eu Sou".
3. O impacto na saúde: sintomas e órgãos afetados
O excesso de Asmita manifesta-se fisicamente através do stress crónico provocado pela necessidade constante de defender a própria imagem, ter razão ou controlar os outros. No plano psicossomático, este comportamento deteriora vários órgãos do nosso corpo humano:
- O fígado e a vesícula biliar: No Ayurveda, o fígado é a sede de Pitta e das emoções quentes (raiva, julgamento, orgulho, frustração). O excesso de Asmita enrijece e densifica estas emoções, congestionando o fígado e a vesícula, o que pode levar a problemas digestivos, inflamações e toxicidade no sangue.
- O coração (anahata chakra): Asmita cria uma barreira de isolamento ("eu contra o mundo"). Isto fecha o centro cardíaco, gerando hipertensão arterial, palpitações e aperto no peito devido à falta de entrega e empatia real.
- O sistema nervoso e as suprarrenais: A procura incessante por validação do ego esgota o sistema nervoso (Vata), levando à fadiga adrenal devido ao excesso de cortisol (a hormona do stress). (As suprarrenais são dois pequenos órgãos localizados acima dos rins. Elas são vitais para o nosso organismo, sendo responsáveis por produzir hormônios essenciais como o cortisol (regula o stress e a imunidade) e a adrenalina (prepara o corpo para reagir ao perigo)
4. Como gerir e controlar o excesso de asmita?
Para equilibrar esta energia e evitar que ela se torne prejudicial, podemos adotar comportamentos práticos no dia a dia:
- Prática de seva (serviço desinteressado): Fazer algo pelos outros sem esperar reconhecimento, aplauso ou recompensa financeira. O Seva quebra diretamente a espinha dorsal do ego inflacionado.
- Cultivar mounam ou mouna (o silêncio consciente): Experimente resistir à tentação de dar sempre a sua opinião, de contar as suas conquistas ou de provar que está certo numa discussão. O silêncio educa Asmita.
- Pranayama e meditação de entrega (ishvara pranidhana): Práticas que acalmam o sistema nervoso vão fazer-nos lembrar a nossa força maior. Exalar longamente ajuda a desapegar do controlo.
- Autoanálise humilde (svadhyaya): Quando sentir orgulho ou ofensa (duas faces de Asmita), pergunte a si mesmo: "Quem está ofendido aqui? O meu Ser verdadeiro ou a imagem que criei de mim mesmo?"
Vou agora falar um pouco sobre uma atitude muito vulgar hoje que é Asmita espiritual que considero como uma das armadilhas das mais subtis, camufladas e difíceis de detetar no caminho do autoconhecimento. Ele acontece quando o ego não é dissolvido ou integrado, mas sim vestido com roupas espirituais.
Em vez de se desapegar da sua identidade, a mente simplesmente troca os apegos antigos (bens materiais, estatuto social, beleza física) por apegos novos e "mais nobres" (conhecimento sagrado, pureza dietética, experiências místicas, capacidade de meditação).
5. Como é que asmita espiritual se manifesta?
O ego adora sentir-se especial e superior, quando começamos a estudar a cultura indiana, o Yoga, a meditação ou o Ayurveda, ele encontra um banquete de novos conceitos para se alimentar. Eis alguns comportamentos típicos do ego espiritual:
- O complexo de superioridade "pureza": Julgar secretamente (ou abertamente) quem come carne, quem bebe café, quem ingere álcool, quem não medita ou quem vive uma vida puramente materialista, com estes pensamentos o que está subjacente é: "Eu sou mais limpo/desperto do que eles".
- Vaidade do conhecimento: Usar termos complexos em sânscrito, citar escrituras ou corrigir os outros constantemente, não para ajudar, mas para demonstrar erudição e autoridade espiritual.
- O pedestal do instrutor/professor/terapeuta: Neste caso o sentir que, por se compreender certos conceitos energéticos ou de saúde, se tem o direito de "salvar" ou "consertar" a vida dos outros, criando uma relação de dependência e poder.
- Exibicionismo espiritual: A necessidade de performar a espiritualidade, de postar fotos perfeitas em meditação, ostentar o número de retiros feitos ou falar constantemente sobre as "intuições e sincronicidades" que recebe, procurando validação externa para o seu progresso interno.
O mecanismo psicológico: a sombra camuflada
O psicólogo Carl Jung falava muito sobre a "Sombra" que é a parte de nós que rejeitamos e escondemos. O ego espiritual é extremamente perigoso porque ele usa a luz (a espiritualidade) para esconder a sombra.
Quando alguém critica o ego espiritual de forma agressiva, muitas vezes está a usar a própria espiritualidade para justificar a sua falta de empatia. É o famoso: "Eu estou a dizer-te isto com amor incondicional, mas tu estás desalinhado."
Se uma pessoa tem um ego materialista forte (orgulho de um carro caro), a sociedade ou a própria pessoa consegue identificar a vaidade com facilidade. Mas se o orgulho for "eu consigo meditar duas horas por dia e não me irrito com nada", a mente mascara o orgulho como "evolução", tornando-o quase invisível para quem o carrega.
Como o Yoga/Ayurveda e o Tantra veem esta armadilha?
Nas tradições indianas, este fenómeno é muito bem conhecido e documentado há milénios:
- No Yoga/ Ayurveda: O ego espiritual é a manifestação mais refinada de Asmita (a individualização) ligada a Raga (o apego ao prazer das experiências espirituais). Ramakrishna, dizia que o "ego maduro" ou o "ego do devoto" é aceitável se nos empurrar para Deus, mas se nos afastar da compaixão pelos outros, tornou-se um veneno.
- No Tantra: Há um aviso severo contra o desenvolvimento de Siddhis (poderes psíquicos ou energéticos). O Tantra ensina que muitos praticantes estagnam no caminho porque se apaixonam pela sua própria energia, pelo seu magnetismo ou pela sua capacidade de ler o campo dos outros, esquecendo que o objetivo final é a dissolução do nosso ser interior, não o fortalecimento do "bruxo" ou do "guru" interior.
O antídoto de como manter os pés na terra?
Para não cair (ou para sair) desta armadilha, a tradição védica oferece ferramentas de ancoragem muito claras:
- O Teste do Quotidiano: A sua espiritualidade não é medida pelo modo como se comporta no seu altar ou no tapete de Yoga, ou no gosto do seu paciente, mas sim como trata o funcionário do supermercado, como reage ao trânsito ou como lida com um familiar difícil. O quotidiano é o detetor de mentiras do ego espiritual.
- Auto-ironia e humildade: Ser capaz de rir de si mesmo. O ego espiritual é extremamente solene, rígido e leva-se demasiado a sério. A capacidade de reconhecer as próprias contradições com leveza e quebra da rigidez de Asmita.
- Lembrar a definição de advaita (não-dualidade): Se a base da filosofia indiana é de que somos todos expressões da mesma consciência una, então não existe "eu sou mais evoluído", existe apenas a consciência a expressar-se em diferentes estágios de lucidez. Olhar para alguém "não espiritualizado" deve gerar compaixão e identificação, nunca superioridade.
Escrever sobre este tema é tentar proporcionar um bálsamo de lucidez, e ao mesmo tempo mostrar que o caminho espiritual não nos torna sobre-humanos ou perfeitos; torna-nos simplesmente mais humanos, mais integrados e infinitamente mais gentis com as falhas alheias.
Na espiritualidade moderna, existe muito o risco e um perigo do "Ego Espiritual", pois quando usamos o conhecimento védico, os cristais, as dietas puras ou os mantras, as plantas e os seus nomes e as propriedades para nos sentirmos superiores aos outros os problemas aparecem, mas o que deveria acontecer é que a nossa verdadeira evolução espiritual se mede pela nossa capacidade de compaixão e humildade, pelo nosso serviço de utilidade publico e não pelo tamanho do nosso conhecimento.
Este é um tema importantíssimo nos dias de hoje que certamente vai ressoar muito com todos os que o lerem, podendo trazer uma reflexão necessária e terapêutica para os tempos atuais.
Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da Medicina Ayurvédica e do seu estilo de vida.
"Bhavatu Sabba Mangalam"
Shanti, Shanti, Shanti
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