
O eclipse e a sua importância para nós e como e devemos ver
Hoje vivenciamos um dos eventos fascinantes do cosmos: a ocorrência de um Grahana (eclipse). Na tradição védica e na astrologia indiana (Jyotish), os eclipses não são meros espetáculos visuais do céu, mas potentes portais de transformação e reconfiguração energética. Quando a luz do Sol (Surya), símbolo da nossa alma e consciência, ou da Lua (Chandra), representação da mente e das nossas emoções, é temporariamente velada pelas forças de Rahu e Ketu, (dois astros da astrologia védica) onde se abre uma fresta no tempo para a purificação do nosso campo subtil e ao mesmo tempo a dissolução de memórias kármicas (samskaras).
No dia de hoje 12 de Agosto, a grande união e o alinhamento das forças celestes convidam-nos ao nosso recolhimento interior. Mais do que olhar para fora e contemplar o fenómeno com os sentidos externos, este momento convida-nos a fechar os olhos e praticar a verdadeira Titiksha (consulte mais aqui sobre titiksha) de modo a suportar a oscilação das nossas energias com equanimidade, cultivar o nosso silêncio e ao mesmo tempo canalizar a intensa vibração do cosmos para o despertar da nossa consciência. É um dia de um encontro espiritual, onde a meditação, a recitação de mantras e a presença consciente multiplicam os seus frutos, alinhando a nossa vida presente com o propósito mais elevado da nossa alma.
Na tradição védica e no conhecimento hindu (Jyotish e Tantra), o eclipse (Grahana) é considerado um dos momentos de maior potência espiritual e de transformação energética do cosmos, sendo abordado com enorme respeito e recolhimento interior.
1. O significado energético no conhecimento hindu
Na astrologia védica (Jyotish), o Sol (Surya) representa a alma (Atman), a vitalidade, a clareza da consciência e a energia vital (Prana), e a Lua (Chandra) representa a mente, as emoções e o subconsciente.
Durante um eclipse, o Sol e a Lua intersetam a sua órbita com os nós lunares Rahu (o nó norte, associado ao desejo, ilusão e expansão) ou Ketu (o nó sul, associado à libertação, desapego e karma passado). com estes fatores é-nos induzido um "Reset" energético, onde existe uma ocultação temporária da luz solar simboliza a suspensão momentânea do ego e da mente consciente, em que as forças do subconsciente e do karma acumulado vêm à superfície. Por outro lado vai-nos ser proposto uma potencialização de tudo o que fizermos nesse momento, pois na visão tântrica e védica, as frequências vibracionais durante o eclipse alteram-se drasticamente, fazendo que qualquer prática espiritual (Sadhana), mantra ou meditação realizada durante um eclipse é considerado e afirmado que tem um efeito multiplicado por milhares de vezes.
2. Ver o eclipse visualmente vs. vivenciá-lo energeticamente
Sob a perspetiva do conhecimento tradicional indiano, a recomendação é clara: o momento deve ser vivenciado de forma interna e meditativa, e não contemplado visualmente no exterior.
- Por que não olhar: Na tradição védica, considera-se que durante o eclipse a radiação subtil do Sol é interrompida por energias de sombra (Rahu/Ketu) e ao absorver essa luz visualmente ou expormo-nos diretamente ao fenómeno é visto como algo que pode perturbar o nosso campo subtil (Aura) e a nossa energia vital (Prana).
- A melhor abordagem (a via interna): Em vez de olhar para o céu, a tradição orienta a que cada um de nós feche os olhos e se possa recolher. Permanecer num espaço calmo, sentado em postura meditativa, absorvendo a mudança vibracional com a atenção voltada para dentro, permite canalizar a imensa energia de transição para o nosso despertar espiritual, em vez de o dispersar pelos nossos sentidos externos.
3. Como o eclipse interfere e atua no nosso ser espiritual
- Purificação de Samskaras (marcas kármicas): A oscilação energética força a libertação de bloqueios emocionais, apegos e mesmo os nossos padrões mentais estagnados. É comum sentir uma certa densidade corporal ou mental ou mesmo uma fadiga física e emocional durante o evento, o que representa um sintoma de uma desintoxicação subtil em nós mesmos.
- Abertura dos canais energéticos (Nadis): Durante a fase culminante do eclipse, a energia vital tende a recolher-se do canal esquerdo do nosso corpo (Ida) e do direito (Pingala) para o canal central da coluna (Sushumna), facilitando estados profundos de silêncio interior e expansão da consciência.
- Reorientação do propósito de vida: Por afetar o Sol (a essência do ser), o eclipse funciona como um ponto de viragem espiritual, dissolvendo ilusões sobre quem julgamos ser e alinhando-nos com o verdadeiro caminho da alma.
Práticas recomendadas durante o período do eclipse
- Jejum ou alimentação leve: Evitar comer durante a fase ativa do eclipse, pois o fogo digestivo (Agni) fica temporariamente enfraquecido pela alteração do Prana.
- Meditação e recitação de mantras: Dedicar o tempo do eclipse à repetição de mantras como o Gayatri Mantra (para invocar a luz da consciência do Sol) ou o Om Namah Shivaya (para a dissolução e transformação).
- Banho de Purificação (Snana): Tomar um banho de água morna ou fria logo após o término do eclipse para purificar o corpo físico e o campo energético de qualquer estagnação residual. Se não poder tomar banho considere e mentalize essa limpeza,
Uma perspetiva do Tantra e o eclipse
No Tantra, o eclipse (Grahana) é visto não como um evento maléfico ou nefasto, mas como o momento de máxima potência energética e espiritual do cosmos e um verdadeiro portal de alquimia interior.
Enquanto a visão védica tradicional e orthodoxa tende a focar-se na preservação e no resguardo durante o eclipse, a via tântrica abraça a intensidade do momento para acelerar a evolução da consciência através das seguintes perspetivas:
4. A União de Shiva e Shakti (o matrimónio cósmico)
No Tantra, o Sol (Surya) representa o princípio masculino, o espírito imutável e a consciência pura (Shiva), e a Lua (Chandra) representa o princípio feminino, a mente, a energia vital e a manifestação (Shakti). O eclipse é entendido como um ponto de fusão e abraço tântrico entre Shiva e Shakti. Este alinhamento e ocultação luminosa dissolve a ilusão da dualidade (dia/noite, masculino/feminino, luz/sombra), permitindo a cada um de nós vivenciar o estado de Adwaita (não-dualidade).
5. A Abertura do canal central (Sushumna Nadi)
A fisiologia subtil tântrica baseia-se na circulação do Prana (energia vital) através de três canais principais (Nadis):
- Pingala: O canal solar (masculino, quente, racional, ligado à narina direita).
- Ida: O canal lunar (feminino, frio, intuitivo, ligado à narina esquerda).
- Sushumna: O canal central que corre ao longo da coluna vertebral.
Em condições normais, a energia oscila entre o lado solar e o lado lunar(1), contudo, durante a culminação do eclipse, os canais Ida e Pingala entram em colapso temporário e o Prana é forçado a entrar diretamente através do Sushumna Nadi. Quando a energia entra no canal central, a mente cessa as suas oscilações normais, facilitando a ascensão da Kundalini Shakti e ao mesmo tempo a possibilidade de alcançar estados elevados de samadhi (superconsciência).
6. A Absorção da sombra e transmutação (Rahu e Ketu)
No Tantra, a sombra não é temida, mas integrada, e os nós lunares Rahu e Ketu (responsáveis por engolir a luz durante o eclipse) representam os impulsos do subconsciente, os desejos ocultos e as memórias kármicas mais profundas. A abordagem tântrica utiliza a força do eclipse para mergulhar na nossa própria sombra interior, acolhendo os medos e bloqueios e transmutando essa energia denso-emocional em poder espiritual (Siddhi).
7. A Multiplicação do Poder dos Mantras (Mantra Siddhi)
Para os tântricos, o eclipse é o momento por excelência para a prática de Japa (repetição de mantras) e Sadhana. Acredita-se que o campo vibracional gerado durante um eclipse atua como um amplificador e qualquer mantra recitado durante o eclipse equivale a milhares de recitações feitas num dia comum. É o momento ideal para a iniciação, consagração ou consolidação de uma prática espiritual.
Para o Tantra, o eclipse é uma "fresta no tempo" onde as leis do mundo comum ficam suspensas, sendo uma oportunidade única de parar a mente, recolher os sentidos e usar a imensa maré energética do cosmos para dar um salto de consciência que, em condições normais, levaria anos a ser alcançado.
(1). Esse fenómeno chama-se Ciclo Nasal e descreve a alternância periódica do fluxo de ar dominado por uma narina de cada vez. (na perspetiva da ciência e da neurofisiologia na medicina moderna, o ciclo nasal é controlado pelo sistema nervoso autónomo). Esta alternância temporal em média, corresponde a um ciclo de dominância de uma narina sobre a outra e vai durar entre 90 minutos a 3 ou 4 horas (sendo a média muito próxima das 2 horas) antes de alternar para a outra narina.
Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da ciência védica, da Medicina Ayurvédica e do seu estilo de vida.
"Bhavatu Sabba Mangalam"
Shanti, Shanti, Shanti