Dama (que se pronuncia "Damaa") é a segunda das seis virtudes mentais (Shat-Sampat) na filosofia védica. Enquanto Shama representa o controlo ou o apaziguamento da mente na sua fonte interna, Dama é o controlo, a consciência e a mestria como entendemos e gerimos os órgãos dos sentidos externos (Indriyas).
Podemos encontrar aqui o ponto fulcral da transição entre Shama (a serenidade da mente) e Dama (o domínio dos sentidos). Numa era e no momento em que nos encontramos que é dominada por estímulos mentais contínuos, e considerando que a mente não se agita sem mais nem menos ou no vazio, verificamos que ela é alimentada e inflamada através dos portais do corpo, dos sentidos (Indriyas) e dos canais energéticos (Prana).
Dama não significa repressão, mas sim o desenvolvimento e consciência dos "travões saudáveis" para que os nossos sentidos não arrastem a mente para o caos dos estímulos externos.
1. Os sentidos mais críticos e as fontes de agitação
Dos cinco sentidos, existem dois que atuam como "autoestradas" diretas para a hiperatividade mental na sociedade moderna, enquanto que um terceiro produz uma atenuação dos processos de agitação da mente:
- Visão (Chakshu): É o sentido dominante nos dias de hoje e nesta era digital em que existe uma constante exposição a luzes azuis, imagens rápidas, ecrãs e estímulos visuais fragmentados que mantém o cérebro num estado perpétuo de alerta, impedindo o sistema nervoso de entrar no estado de repouso.
- Audição (Shrota): O ruído urbano contínuo, notificações, auscultadores, podcasts e conversas simultâneas sobrecarregam o centro de processamento auditivo, fazendo com que este som carrega com vibração diretas ao mesmo tempo que faz com que estes sons dispersos geram vibração mental caótica.
- Tato (Sparsha): Associado diretamente ao elemento Ar (Vayu) e à energia de Vata. A falta de contacto tátil consciente (terra, textura natural, toque terapêutico) e ao mesmo tempo o excesso de microestímulos táteis como os teclados e ecrãs táteis vão aumentar a volatilidade e a ansiedade. Na perspetiva da Dama quer seja na abordagem da sedução, da elegância ou da energia feminina, fazem com que o tato seja frequentemente reduzido à mera pele ou ao contacto físico superficial, mas o tantra apresenta uma visão mais abrangente apresentando uma:
- Dimensão sensorial: Aqui transforma o toque passivo numa experiência de presença total. Não se trata apenas de "tocar", mas de sentir a textura, a temperatura e a recetividade do outro sem apressar o momento.
- Dimensão espiritual e energética: No tantra, o corpo é visto como um templo e o toque funciona como um canal de circulação de energia. O tato deixa de ser apenas mecânico para se tornar numa forma de comunicação silenciosa, onde há intenção, respeito e conexão entre duas almas.
- Conexão com a energia feminina: A energia da Dama está muito ligada à recetividade, à intuição e à entrega consciente. O toque tântrico reflete essa essência ao priorizar a lentidão, a escuta do corpo e a profundidade emocional sobre a rapidez ou a simples satisfação física.
Incluir a perspetiva tântrica enriquece a reflexão, pois eleva o tato não num simples sentido biológico, mas também numa arte de presença e intimidade. (Click aqui para saber mais sobre as melhor hora para praticas sensoriais segundo a Medicina Ayurvédica)
2. Dama sob diferentes perspetivas
- Na Meditação: Funciona como o filtro de entrada, que ao recolher os sentidos (Pratyahara), impede que barulhos, desconfortos visuais ou distrações táteis interrompam o estado de presença.
- No Ayurveda: Corresponde à prevenção de Prajnaparadha (o "erro do intelecto", que ocorre quando sabemos que algo nos faz mal, mas os sentidos exigem que os continuemos a consumir). Dama protege o Agni (fogo digestivo) e evita a acumulação de Ama (toxinas) gerada pelo excessos de estinulos sensoriais.
- No Tantra: É a arte de sublimar e transmutar a energia dos sentidos. Em vez de consumir impulsivamente o mundo exterior, Dama redireciona a energia sensorial para interiorizar a perceção e vivenciar o divino no nosso corpo.
3. O papel do tantra e da energia na gestão de Dama
O Tantra traz uma perspetiva revolucionária e somática: os sentidos não são os nossos inimigos que devemos estar sempre a reprimir, mas devem ser considerados como instrumentos energéticos que devemos ter consciência e que devemos transmutar.
Tentar controlar os sentidos apenas através da força de vontade mental seria uma coisa muito exaustiva, por isso o Tantra utiliza o corpo e a energia para gerir Dama:
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Princípio Tântrico |
Aplicação na gestão sensorial (Dama) |
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A Mente segue o Prana |
Em vez de "lutar" contra o desejo de olhar para o telemóvel ou ouvir ruído, que altera os nossos padrões respiratórios, devemos acalmando o fluxo de energia no nosso corpo e aí a urgência sensorial dissolve-se naturalmente. |
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Somatização e Presença |
Através de Asanas (posturas) e Mudras, a atenção é canalizada da cabeça para os centros inferiores (base e abdómen), e aí quando estamos totalmente presente no corpo físico, os sentidos vão deixando de estar externos a nós. |
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Sacralização dos Sentidos |
Em vez de consumir o mundo de forma inconsciente, o Tantra propõe nutrir os sentidos com impressões elevadas: aromas puros, contacto com a natureza, olhar fixo numa chama (Trataka), ouvindo mantras e tendo experiências sensoriais. |
4. Valor espiritual, presente e futuro
- No presente e no agora estas práticas descritas anteriormente concedem uma sabedoria pessoal. Deixas de agir por impulso automático (comer sem fome, olhar para o telemóvel a cada minuto, comprar por impulso) e passamos a escolher as nossas respostas e as nossas tomadas de decisão.
- No Futuro (Karma) vamos evita a criação de novos laços kármicos dolorosos (Samskaras), garantindo uma mente mais leve e livre de dependências no futuro.
5. Integração prática: rotina diária, respiração e mantras
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Dimensão |
Prática diária |
Benefício directo |
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Pranayama (Respiração) |
Nadi Shodhana (Respiração Alternada) ou Bhramari (Som da Abelha). |
Acalma o sistema nervoso e desconecta a nossa hipersensibilidade dos sentidos. |
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Mantra |
Recitação do mantra OM ou OM Shanti Shanti Shanti. |
Restabelece a frequência de paz nos centros perceptivos. |
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Higiene Sensorial |
Jejum digital (1h ao acordar e 1h antes de dormir) e fazer silêncio na hora das refeições. |
Descanso profundo para os olhos, ouvidos e para o intelecto. |
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Corpo e Ayurveda |
Abhyanga (automassagem com óleo morno), lavagem dos sentidos (água morna nos olhos/nariz) e fazer praticas e terapias sensoriais. |
Nutre o nosso sistema nervoso e acalma a agitação de Vata |
6. Dama na gestão das perturbações mentais
Na ansiedade, na hiperatividade mental e nos estados de sobrecarga ( tão comuns nos dias de hoje), os nossos sentidos estão habitualmente desregulados e inundados de dados. Dama aqui vai atuar como uma dieta sensorial:
- Reduzindo os danos: Aqui vamos identificar quais são os estímulos (notícias, redes sociais, luzes intensas, conversas tóxicas) que descompensam o nosso humor e proporcionam o nosso desequilíbrio e com isto aplicar uma restrição consciente a todos estes estímulos.
- Ancoragem nos sentidos clarificados: Numa situação destas deveremos substituir estímulos caóticos por impressões nutritivas, ouvindo sons da natureza em vez de ruído urbano, olhar para o horizonte verde em vez de ecrãs, disfrutar e partilhar sensações com pessoas bonitas em dez de estar com pessoas ácidas e azedas, ou mesmo compenetrar-se no silêncio em vez de estar constantemente no ruido ( aqui considero uma relação com o silêncio interno e externo)
Planificação de uma rotina diária (dinacharya) com Dama
- De manha devemos ter um despertar consciente, limpando os elementos que gerem os nossos sentidos como raspar a língua, lavar o rosto e os olhos, colocar duas gotas de óleo nos ouvidos, efetuar durante pelo menos 10 minutos Nadi Shodhana antes de olhar para qualquer ecrã.
- Durante a tarde mais ou menos no meio do dia devemos fazer uma pausa de reorientação, esta pausa deve ser no mínimo de 5 minutos em que devemos fechar os olhos, colocar as mãos sobre as pálpebras e ao mesmo tempo fazendo pelo menos 3 respirações profundas, sentindo que na expiração o corpo liberta e descomprime.
- Na Noite devemos fazer o recolhimento dos nossos sentidos devendo desligar as luzes fortes e intensas pelo menos 2 horas antes de nos deitarmos, aplicar óleo nos pés e praticar silêncio vocal (Mauna) na última hora do dia. Aqui devemos evitar os estímulos externos que ativem todos os nossos sentidos.
7. Técnicas práticas de controlo e harmonização
Para implementar este controlo energético e sensorial sem rigidez, podes aplicar algumas práticas integrativas:
- Trataka (Limpeza Visual e Foco): Olhar fixamente para a chama de uma vela numa sala escura durante pelo menos durante 2 a 3 minutos sem piscar, fechando depois os olhos para reter aquela imagem internamente. Reeduca a visão e recolha a sua mente dispersa.
- Yoni Mudra e Shanmukhi mudra (Selo dos Sentidos): Uma prática tântrica tradicional onde se usam os dedos para selar suavemente os ouvidos, olhos, nariz e boca, cortando momentaneamente todas as entradas sensoriais externas para escutar os sons internos (Anahata Nad) e sentir o nosso campo energético.
- Banho Sensorial Consciente: Utilizar a água morna, o aroma de óleos essenciais (como lavanda ou sândalo) e a perceção tátil do toque no corpo (considere o seu corpo não como uma maquina autónoma mas sim como um elemento que é seu e que lhe dá muito prazer) para reorganizar o campo eletromagnético e acalmar a hiperatividade dos sentidos.
Depois de ler este artigo proponho-lhe um desafio, o de observar como costuma aplicar esta consciência corporal e quando ou se percebeu se a visão ou a audição já atingiram o seu ponto de saturação.
Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da ciência védica, da Medicina Ayurvédica e do seu estilo de vida.
"Bhavatu Sabba Mangalam"
Shanti, Shanti, Shanti
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