
Raga na Visão do Tantra: A Transmutação Sagrada do Desejo
Pela curiosidade e pela diferença de ação de Raga na perspetiva Tantrica vou aqui tentar explanar com maior profundidade Raga na visão do Tantra.
No estudo dos Kleshas, poucas perspetivas são tão incompreendidas, mas ao mesmo tempo simultaneamente e libertadoras quanto a visão do Tantra.
Enquanto a maioria das vias ascéticas (como o Yoga Clássico e certas vertentes monásticas) aborda Raga (o apego/desejo) com cautela, vigilância ou mesmo como uma tentativa de erradicação através da renúncia (Vairagya), o Tantra adota uma postura revolucionária em que o desejo não é um veneno a ser destruído, mas sim a própria energia da Vida (Shakti) a procurar regressar à sua Origem.
1. O Axioma Tantrico: "Aquilo pelo qual cais é aquilo pelo qual te levantas"
No Kularnava Tantra, um dos textos mais proeminentes da tradição, encontramos o famoso verso que resume a pedagogia tântrica sobre Raga:
(Yenaiva\ patanaṁ\ dravyaiḥ,\ tenaiva\ tasya\ kalpanam)
"Pela mesma coisa que os homens caem e se afundam, por essa mesma coisa eles se levantam e libertam."
O Tantra percebeu uma verdade psicossomática profunda, que ao tentar reprimir o desejo é como tentar fazer uma presa de água num rio com um caudal muito grande. A repressão não destrói a energia de Raga, apenas a empurra para o subconsciente, onde se apodrece, gerando neuroses, frustração, rigidez corporal, estagnação de Prana e a inflamação do Pitta
Para o Tantra, a energia que move um desejo obsessivo por algo material é exatamente a mesma energia que move a paixão pela iluminação e pela união com o Divino, onde a diferença não está na natureza da energia, mas sim na sua direção e densidade.
2. Raga no Shaivismo de Caxemira: O Kanchuka da Alma
Na filosofia não-dualista do Shaivismo de Caxemira (Advaita Shaivism) onde a Realidade Suprema é Shiva que é a consciência pura, infinita e totalmente plena.
Para que a Criação aconteça, Shiva decide voluntariamente "ocultar" a sua perfeição e experienciar a vida como um ser individualizado (Jiva). Para fazer essa transição do Infinito para o Finito, a Consciência reveste-se de 5 capas de limitação chamadas Kanchukas. [ São os invólucros ou contrações cósmicas (também designados por vestimentas da ilusão que pertencem especificamente ao Xivaísmo da Caxemira (Kashmir Shaivism) dentro da cosmologia dos 36 tattvas (princípios da criação. Estas 5 capas são: Kala (limitação do tempo), Niyati (limitação do espaço/causalidade), Raga (limitação da plenitude gerando desejo), Vidya (limitação do conhecimento/onisciência), Kala/Kala (limitação da capacidade de ação/onipotência). A sua função principal é como explicar como a Consciência Suprema (Shiva) se contrai e se oculta para se transformar no indivíduo limitado (Purusha ou alma encarnada).]
Raga como vimos é a terceira dessas capas Raga-Kanchuka:
- A perfeição original: No nosso estado absoluto, a nossa consciência é purna (Total, Plena, em que nada lhe falta).
- O aparecimento de Raga-Kanchuka: Quando a Consciência se limita, surge uma sensação súbita de "incompletude", fazendo e dando uma informação de que algo nos falta.
- A Ação de Raga: Raga é precisamente essa força que nos faz olhar para fora e dizer: "Se eu tiver aquele objeto, aquele relacionamento, aquele estatuto ou aquela sensação, seremos finalmente completos".
Portanto, no Tantra, Raga nasce de uma memória sagrada de Plenitude, em que desejamos coisas no mundo porque a nossa alma recorda que é originalmente plena e aí desejamos recuperar essa plenitude a qualquer custo. O "erro" não é o desejo de plenitude, mas a ilusão de que um objeto efémero nos pode dar uma satisfação eterna.
3. De Kama a Anuraga: O Processo de Transmutação (Sodhana)
Em vez de renunciar ao mundo, o Tantra propõe a purificação e elevação do desejo (Sodhana). O processo de transmutação de Raga segue três estágios energéticos:
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Vishaya Raga |
→ |
Anuraga |
→ |
Divya Raga / Bhakti |
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Desejo Denso |
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Paixão Sagrada |
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Devoção e Fusão com o Absoluto |
- Vishaya Raga (o apego aos objetos sensoriais): É o desejo na sua forma mais densa, em que a mente quer possuir, reter e controlar a matéria para obter um prazer imediato, gerando uma dependência e um sofrimento.
- Anuraga (a paixão reorientada): Quando percebemos que o prazer que sentimos por um objeto não vem do objeto, mas sim do reflexo da consciência que o vivencia e o que ele significa e com isto a paixão deixa de ser da "coisa" e passa a ser pelo "Mistério da Vida".
- Divya Raga ou Bhakti (o amor divino): O desejo expande-se tanto que engole o próprio ego (Asmita), em que o indivíduo já não deseja possuir o mundo mas sim um desejo de se fundir com o princípio criador (Shiva-Shakti).
4. Bhoga com Yoga: A União do Prazer com a Libertação
Uma das maiores contribuições do Tantra é a síntese entre Bhoga (o desfrute consciente da vida) e Yoga (a união espiritual).
Nas vias ascéticas, Bhoga e Yoga são vistos como inimigos mortais em que desfrutamos desta vida e do mundo, ou nos libertamos dele, aqui o Tantra desafia esta dualidade e afirma que é possível transformar o próprio desfrutar num ato de Yoga e de amor.
Como funciona na prática?
Quando saboreia uma refeição deliciosa, ouve uma música sublime ou vivencia um momento de intimidade e afeto, em vez de deixar que a mente caia em Raga (a ânsia de agarrar o momento e querer mais), o Tantra ensina a:
- Estar totalmente presente no apogeu da sensação procurando usar o sentido como um portal de meditação.
- Reconhecer a fonte e ao mesmo tempo deve lembrar-se que a beleza e a doçura daquela experiência são emanações da nossa própria consciência divina.
- Oferecer o prazer e em vez de "acumular" ou transformar o prazer em ego, deve oferecer internamente essa sensação de gratidão à Divindade que habita no seu próprio coração.
Nesse instante e estando presente deve agir de acordo com o coração e aí o apego dissolve-se e fica em nós uma alegria pura (Ananda) fazendo passar esse desejo e que ele seja consumido pela nossa atitude e no fogo da nossa presença instantânia.
5. Aplicações terapêuticas do tantra na gestão de Raga e na saúde
Na terapia e no quotidiano, a perspetiva tântrica oferece ferramentas de um valor inestimável para lidar com vícios, convulsões e apegos emocionais:
- Não lutar contra o desejo (evitar a culpabilidade): A culpa inflama Pitta e gera estagnação de Vata. Quando sentir um desejo compulsivo (por comida, validação ou consumo), não se julgue e observe a intensidade da energia sem agir imediatamente sobre ela.
- Investigar a causa raiz: Pergunte a si mesmo: "Qual é a necessidade profunda que este apego está a tentar preencher?" (Normalmente é necessidade de amor, segurança, paz ou de uma conexão).
- Sacralizar a rotina (svechachara consciente): Traga beleza e ritual para os seus hábitos. Se comer com presença total, gratidão e intenção sagrada, a quantidade de comida necessária para satisfazer os sentidos diminui drasticamente, pois a mente nutre-se da qualidade da experiência.
- Preservar o Ojas (vitalidade profunda): A repressão do desejo consome Ojas (o fluido da imunidade e vitalidade) através do nosso stress interno. A transmutação tântrica canaliza essa energia para cima, transformando o desejo desperdiçado em claridade mental, magnetismo e imunidade física.
O Desejo como o Próprio Combustível da Libertação
O Tantra lembra-nos de que não viemos a este mundo para nos tornarmos estátuas de pedra, insensíveis ao encanto da vida. Sentir atração, paixão, gosto pela beleza e desejo de união é a prova viva de que a energia divina pulsa em nós.
O ensinamento supremo do Tantra sobre Raga pode resumir-se desta maneira em que não devemos diminuir o nosso desejo, mas sim expandi-lo e percebe-lo até que nada menos do que o infinito nos consiga satisfazer.
Quando deixamos de nos satisfazer com as migalhas dos apegos temporários, a força de Raga torna-se o próprio motor que nos impele de regresso à nossa Libertação Suprema (Mukti).
Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da Medicina Ayurvédica e do seu estilo de vida.
"Bhavatu Sabba Mangalam"
Shanti, Shanti, Shanti
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