O sofrimento não é um erro de percurso, mas sim um estado em que muitos de nós se encontram e ao mesmo tempo um objeto de estudo profundo. No Budismo, Dukkha é frequentemente comparado a uma doença e como todas as doenças para se encontrar a curar, precisamos de um diagnóstico preciso.
Vou aqui expressar e falar um pouco sobre os três níveis de Dukkha, como se integra com a Medicina Ayurvédica e também como o caminho espiritual ajuda na superação desta fase.
1. Os Três Níveis de Dukkha (O Diagnóstico)
Para uma mente comum o sofrimento é apenas uma dor física ou tristeza. Para o praticante de meditação, Dukkha é mais subtil e subdivide Dukkha em três níveis que passo a descrever:
- Dukkha-dukkha (O Sofrimento do Sofrimento)
É o nível mais óbvio. Refere-se à dor física, ao envelhecimento, à doença e à angústia emocional direta (como o luto ou a raiva). A nível pessoal é quando existe um impacto direto da "flecha" ou do tipo de vida que estamos a ter.
- Viparinama-dukkha (O Sofrimento da Mudança)
Este é o sofrimento que surge do prazer, pois como tudo na vida podemos considerar como Anicca (impermanente), a felicidade mundana carrega em si a semente da dor, pois sabemos, consciente ou inconscientemente, que ela vai acabar. A nível pessoal é quando a ansiedade de perder o que amamos ou a frustração quando um momento perfeito termina, ou mesmo quando as coisas não correm como nós planeamos.
- Sankhara-dukkha (O Sofrimento do Condicionamento)
Este é considerado como o nível mais profundo e filosófico, pois consideramos que a insatisfação inerente de ser ou ter um ego separado num universo em fluxo. É uma sensação de "vazio" ou de que "algo não está bem", mesmo quando tudo parece estar a correr bem externamente A nível pessoal é quando existe uma fragilidade básica da existência; o ao mesmo tempo a sensação de carregar um peso ou um fardo em que carregamos com a nossa identidade.
2. Como o Ayurveda pode ajudar (O Suporte Físico e Energético)
A Medicina Ayurvedica entende que a mente e o corpo são duas estruturas ligadas mas com funcionamento independente, por isso se o seu corpo está intoxicado ou em desequilíbrio, a sua capacidade de lidar com a sua mente e naturalmente com Dukkha diminui.
- Para Dukkha-dukkha (Dor Física): O Ayurveda utiliza dietas anti-inflamatórias e ervas (Shamana) para equilibrar os Doshas. Se a dor física for mais reduzida, a mente ganha espaço e ao mesmo tempo vai aparecer espaço de entendimento do nosso estado e também a capacidade de se sentar e para meditar.
- Para Viparinama-dukkha (Ansiedade pela Mudança): Este sofrimento está muito ligado a Vata Dosha (instabilidade). Práticas de Dinacharya (rotina diária), automassagem com óleo morno (Abhyanga) e alimentos enraizadores que ajudam a estabilizar o nosso sistema nervoso, diminuindo assim alguns medos como por exemplo o medo da perda.
- Para Sankhara-dukkha (Vazio Existencial): A medicina Ayurvedica foca-se no aumento do Sattva (pureza/clareza). Uma dieta Sátvica (alimentos frescos, leves ou mesmo uma alimentação vegetariana) e o uso de plantas como por exemplo Brahmi e|ou Ashwagandha de modo arefinam a perceção da mente, permitindo que ela veja além do ego.
3. Superação Espiritual (O Caminho da Libertação)
Superar Dukkha não significa que a dor deixará de existir, mas sim que o sofrimento (a reação à dor) cessará, ou mesmo que seja controlada.
Fase 1: Aceitação Radical (Dukkha-dukkha)
Espiritualmente, devemos parar de lutar contra a dor, devendo praticar a "Segunda Flecha". A vida em que estamos e por qualquer motivo ( por vezes pomo-nos a jeito para receber esta flecha) atira-nos uma primeira flecha (a dor física), mas nós não precisamos de responder e atirar uma segunda flecha como resposta (lamentando, revolta, transportando raiva, ou como costumamos dizer "porquê a mim?"). Com toda esta situação não nos apercebemos que ao aceitar a primeira flecha, a segunda desaparece e não se propaga.
Fase 2: Desapego e Apreciação (Viparinama-dukkha)
Aprendemos a apreciar as coisas como "flores de gelo" belas, mas destinadas a derreter, em vez de tentarmos segurar o bem-estar, o prazer, a felicidade o que fazemos é só testemunhar estes momentos sem atenção e com indiferença. A espiritualidade ensina-nos que a felicidade, o bem-estar, o prazer não são uma coisa que se possui, mas sim um estado de presença que não muda quando as circunstâncias mudam e que deve ser alimentado e vivenciado com consciência.
Fase 3: A Realização de Anatta (Sankhara-dukkha)
Esta é a fase final e podemos considerar que podemos superar o sofrimento existencial ao percebermos que o "Eu" que sofre é uma construção mental. Quando existe uma identificação e uma consciência do ego este pode-se dissolver através da meditação profunda, percebendo que somos uma consciência vasta onde Dukkha aparece e desaparece, mas que nunca é afetada por ele.
Como síntese aqui deixo um gráfico de fácil leitura:
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Ferramenta |
Ação |
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Ayurveda |
Limpa o "recipiente" (corpo e mente) para que ele porá que ele possa suportar a verdade sem quebrar. |
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Meditação |
Permite observar as diferentes camadas de Dukkha sem se perder nelas. |
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Espiritualidade |
Fornece a sabedoria para soltar o que nunca foi nosso. |
A superação de Dukkha começa no momento em que cada um de nós deixa e para de fugir dele e pergunta: "O que é isto que sinto agora?".
Depois de ler este texto veja com atenção nesta fase da sua vida, qual dos três níveis de Dukkha sente que está mais presente e qual o que interfere neste momento mais consigo: a dor direta, o medo da mudança ou aquele vazio existencial mais subtil?
Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.
"Om Sarvesham Swastir Bhavatu"
Shanti, Shanti, Shanti

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