quarta-feira, 27 de maio de 2026

A importância das frases de hoje


A forma como hoje usamos a linguagem não é apenas um detalhe gramatical, ela reflete exatamente onde colocamos o nosso poder pessoal e a nossa agência espiritual.

Quando dizemos "a música cura-me", estamos, inconscientemente, a colocar o papel de "médico" ou "salvador" num objeto externo. Quando mudamos para "eu curo-me através do som", ou "eu curo-me através da meditação " assumimos o papel de protagonistas da nossa própria transformação e ao mesmo tempo integrando-nos nela

Vou aqui falar um pouco sobre esta subtil, mas ao mesmo tempo enorme diferença sob diferentes perspetivas 

1. A Perspetiva Ayurvédica (O Despertar do Svastha)

Na Ayurveda, saúde não é apenas a ausência de doença, mas sim um estado chamado Svastha ou Swastha que literalmente significa "estabelecido no próprio Ser" ou "estar conectado em nós mesmo".

Se assumimos que a meditação ou uma planta medicinal me "cura" de forma passiva, estamos a tratar a espiritualidade como se fosse um paracetamol. A isto podemos designar como sendo um erro de passividade.

Se o nosso corpo e a nossa mente têm uma inteligência intrínseca (Prana). A música, as plantas ou a meditação não fazem o trabalho por nós; elas são apenas ferramentas (Upayanas) que removem os bloqueios (Ama) para que a nossa própria natureza curativa possa atuar. Dizer "eu curo-me através de..." ativa o nosso fogo digestivo mental (Agni), permitindo-nos metabolizar essa experiência.

2. A Perspetiva Tântrica (A Consciência de Shakti)

O Tantra que na sua essência filosófica e não-dual é a via do empoderamento absoluto, em que o princípio básico é que nós já somos o Todo, já somos o divino, e já temos dentro de nós essa energia cósmica (Shakti).

Dizer que "a música cura-me" cria uma dualidade, considerando a relação entre o eu doente e incompleto e a música como a perfeita e a curadora e a isto designamos como sendo a ilusão da separação (Maya)

O som considerado ou designado como Nada Brahma não vem de fora para nos consertar ou curar, a música exterior apenas vai expandir e ampliar a vibração que já existe dentro de nós. Ao dizermos "eu sou curado pelo som", vamos conectarmo-nos e reconhecer como o próprio espaço onde a cura acontece, onde a música é o espelho e nós somos a face que se reflete nele. Nós não somos um copo vazio a ser preenchido, nós somos o próprio oceano.

3. O Impacto desta expressão em nós (A nível vibracional e psicológico)

Consideramos que a palavra é Mantra e ao mesmo tempo ela cria uma realidade. Quando a linguagem coloca o poder fora de nós, geramos um impacto profundo no nosso campo energético e com isto podemos criar quer uma dependência espiritual em que se a música me cura, o que acontece quando estou em silêncio? Neste caso vou ficar desamparado e vai gerar em mim uma ansiedade subtil e uma procura incessante por "ferramentas de cura" externas (cristais, incensos, gurus, playlists, etc ). Outra consideração é a de uma desconexão do nosso altar interior que ao passar a cura para um segundo plano vamos enfraquecer o nosso "músculo" da auto-observação, deixando por isso de escutar o nosso curador interno. Mas também podemos considerar um alinhamento correto quando afirmamos "Eu curo-me através da meditação", a nossa mente vai entender que "Eu sou o curador, a meditação é o meu bisturi". O mérito, a responsabilidade e a transformação real pertencem a nós mesmo e que todas as ferramentas exteriores são a chave, mas a porta e o tesouro que está lá dentro são inteiramente nossos. 

É fascinante ver como este mesmo padrão de "passar para um segundo plano o nosso poder" se repete de forma idêntica nos relacionamentos e no trabalho. Quando colocamos a nossa felicidade, a validação ou a cura nas mãos de um parceiro ou de uma carreira, caímos exatamente na mesma armadilha espiritual.

4. Nos relacionamentos: Da frase  "Tu fazes-me feliz" a "Eu divido a minha plenitude contigo"

A nível mundano, fomos programados pela cultura do amor romântico a acreditar na metade da laranja. Expressões como "Ele/a completa-me" ou "Tu fazes-me feliz" são o equivalente amoroso da afirmação "A música cura-me".

Na Ayurveda, a saúde emocional depende de estarmos centrados no nosso próprio Svastha (estar conectado connosco mesmo) e quando dizemos que o outro nos faz felizes, estamos a dar-lhe o controlo do nosso estado interno. Se o outro está instável (com o Vata ou Pitta desalinhados), nós vamos desestabilizar-mo-nos imediatamente. O relacionamento ideal ayurvédico é como dois ecossistemas saudáveis que se apoiam, e não um parasitando a energia do outro.

No Tantra, o relacionamento exterior é apenas um espelho da união sagrada que deve acontecer dentro de nós (entre a nossa energia masculina de presença, Shiva, e a nossa energia feminina de fluxo, da criação, Shakti).

Quando afirmamos "O meu parceiro cura as minhas feridas de rejeição", estamos na ilusão, pois o parceiro não cura nada, ele funciona como um gatilho (Nimitta) que traz à superfície o que precisamos de ver. O relacionamento é o laboratório, mas quem transmuta a energia somos nós. O outro não nos preenche, ele apenas acorda a plenitude que já habita em nós.

5. No Trabalho: Da frase "O meu emprego define-me" a "Eu expresso o meu Dhamma através do trabalho"

No mundo profissional, a armadilha é depositar o nosso valor próprio no cargo, no salário ou no reconhecimento da chefia. As frases como "Este trabalho realiza-me" ou "O meu chefe não me valoriza" colocam o nosso fogo interno (Agni) dependente do exterior.

Na perspetiva Ayurvédica Dhamma é o nosso propósito cósmico, a nossa verdadeira natureza em ação. O nosso Dhamma não é o nosso emprego. O emprego é apenas o canal atual e se dizemos "O meu trabalho realiza-me", o dia em que fores despedido ou a empresa mudar, a tua identidade desmorona-se. Na visão ayurvédica, nós realizamo-nos a nós mesmo quando colocamos a nossa essência em tudo o que fazemos, quer estejamos a lavar pratos ou a liderar uma multinacional. O trabalho não nos dá valor, nós é que emprestamos o nosso valor ao trabalho.

Na perspetiva Tântrica Spanda é a vibração ou a pulsação divina da criação e considero que o trabalho deve ser uma expressão dessa pulsação, uma oferenda (Seva) da nossa energia criativa ao mundo. Se trabalhamos à espera que o exterior nos valide, estamos a contrair a nossa energia, mas quando assumimos que "Eu expresso a minha mestria através deste projeto", aqui assumimos o nosso papel de criador (da nossa própria Shakti). O sucesso ou o falhanço do projeto já não definem quem nós somos, porque a nossa consciência permanece intocável.

O impacto prático desta mudança de Chip

Quando deixamos de dizer "isto faz-me" e passamos a dizer "eu transformo-me através disto", acontece uma profunda viragem e mudança de chave:

 

Padrão Antigo (Dependência Externa)

Padrão Novo (Autorresponsabilidade)

"O meu parceiro stressa-me."

"Eu sinto-me stressado perante esta atitude e escolho recolher-me."

"Este emprego suga a minha energia."

"Eu estou a gerir mal os meus limites dentro deste ambiente de trabalho."

"Se eles mudassem, eu seria feliz."

"Eu mudo a minha postura interna para proteger a minha paz."

 

Para aumentar e potencializar a nossa verdade espiritual, podemos afirmar que nem o amor de outra pessoa nos pode salvar, nem o pior dos trabalhos nos pode destruir, a menos que nós próprios dermos a permissão para que o exterior dite as regras do nosso templo interno.

 

Que desfrutem de todo este conhecimento e destas curiosidades importantes da meditação e da Medicina Ayurvédica.

"Bhavatu Sabba Mangalam"

Shanti, Shanti, Shanti

 

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